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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

A lei e a carne

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 45 de 6 de Novembro de 2014

Há «dois caminhos». E é Jesus, com os seus «gestos de proximidade», quem nos dá a indicação justa a seguir. Por um lado, o caminho dos «hipócritas», que fecham as portas por causa da sua afeição à «letra da lei». Por outro, «o caminho da caridade», que passa «do amor à verdadeira justiça que está dentro da lei».

Para apresentar estes dois modos de viver o Papa propôs o trecho do evangelho de Lucas (14, 1-6). Um sábado «Jesus estava em casa de um dos chefes fariseus para almoçar; e eles observavam-no para ver o que fazia». Sobretudo, «procuravam surpreendê-lo em erro, até armando-lhe ciladas».

Mas eis que entra em cena um doente. A este ponto Jesus dirige aos fariseus uma pergunta: «É lícito ou não curar ao sábado?», «É lícito praticar o bem ao sábado? Ou não? E não praticar o bem sempre é praticar o mal?». É «uma pergunta simples mas, como todos os hipócritas, eles calaram-se». De resto, «nunca respondiam quando Jesus os punha diante da verdade», permaneciam «de boca fechada», mas «depois falavam mal pelas costas» e «procuravam pôr Jesus em dificuldade».

Na prática, «estas pessoas eram tão apegadas à lei que tinham esquecido a justiça e o amor». Este modo de «viver afastava-os do amor e da justiça». Mas «eram os modelos». Para esta gente «Jesus tem uma só palavra: hipócritas!». Com efeito, não se pode ir «por todo o mundo procurando prosélitos» e depois fechar «a porta». Para o Senhor, eram homens «que fechavam sempre as portas da esperança, do amor, da salvação».

A este ponto devemos perguntar qual «é o caminho para ser fiéis à lei sem descuidar a justiça e o amor». A resposta «é precisamente o caminho que vem do oposto», sugeriu Francisco, retomando as palavras de Paulo na carta aos Filipenses (1, 1-11): «Por isso, rezo para que a vossa caridade cresça cada vez mais em conhecimento e em pleno discernimento, a fim de que possais distinguir o que é melhor, e ser íntegros e irrepreensíveis».

Ao contrário, o «outro caminho, o de estar apegados só à lei, à letra da lei, leva ao fechamento, ao egoísmo, à soberba de se sentir justos, àquela “santidade” — entre aspas — das aparências». O caminho que Deus escolheu para nos salvar é a proximidade. Ele aproximou-se de nós fazendo-se homem. Com efeito «a carne de Deus é o sinal da verdadeira justiça. Deus que se fez homem como um de nós e nós que nos devemos fazer como os outros, como os necessitados».

Eis os «dois caminhos» que temos diante de nós. O primeiro é o de quem diz: «Sou apegado à letra da lei; não se pode curar ao sábado; não posso ajudar; tenho que ir para casa e não posso ajudar este doente». O segundo é o de quem se compromete a fazer de modo que, como escreve são Paulo, «a vossa caridade cresça cada vez mais em sabedoria e em pleno discernimento»: este é «o caminho da caridade, do amor à verdadeira justiça que a lei contém».

Ajudam-nos «precisamente os exemplos de proximidade de Jesus», que nos mostra como podemos passar «do amor para a plenitude da lei». Sem «nunca cair na hipocrisia», porque «é tão feio ver um cristão hipócrita».

 


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