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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

De onde vem a luz?

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 48 de 27 de Novembro de 2014

Na viúva que lança as suas duas moedinhas ao tesouro do templo podemos ver «a imagem da Igreja», que deve ser pobre, humilde e fiel. A reflexão do Papa começa com o Evangelho do dia, tirado do capítulo 21 de Lucas (1-4). Na homilia foi feita referência ao trecho no qual Jesus, «depois de longos debates» com os saduceus e com os discípulos relativamente aos fariseus e aos escribas que «estão satisfeitos por ocuparem os primeiros lugares, os primeiros assentos nas sinagogas, nos banquetes, por serem saudados», ao levantar o olhar «vê a viúva». O «contraste» é imediato e «forte» em relação aos «ricos que lançam as suas ofertas no tesouro do templo». E é precisamente a viúva «a pessoa mais forte aqui, neste trecho».

Da viúva, explicou o Pontífice, «diz-se duas vezes que é pobre e está na miséria». É como se o Senhor quisesse sublinhar aos doutores da lei: «Tendes tanta riqueza de vaidade, de aparência ou também de soberba». Ela é pobre. Vós, que comeis nas casas das viúvas...». Mas «na Bíblia o órfão e a viúva são as figuras mais marginalizadas» assim como também os leprosos, e «por isso há muitos mandamentos para ajudar, para cuidar das viúvas, dos órfãos». E Jesus «olha para esta mulher sozinha, vestida com simplicidade» e «que lança tudo o que tinha para viver: duas moedas». O pensamento vai também a outra viúva, a de Sarepta, «que tinha recebido o profeta Elias e ofereceu tudo o que tinha antes de morrer: um pouco de farinha com azeite...».

O Pontífice reconstrói a cena narrada pelo Evangelho: «Uma mulher pobre no meio de poderosos, no meio de doutores, de sacerdotes e escribas... também no meio daqueles ricos que lançavam as suas ofertas». A eles Jesus diz: «Este é o caminho, o exemplo. Esta é a estrada pela qual vós deveis caminhar». Sobressai forte o «gesto desta mulher que era toda para Deus, como a viúva Ana que recebeu Jesus no templo: toda para Deus. A sua esperança estava só no Senhor».

Francisco afirmou: «Gosto de ver aqui, nesta mulher, uma imagem da Igreja». Em primeiro lugar, a «Igreja pobre, porque a Igreja não deve ter outras riquezas a não ser o seu Esposo»; depois a «Igreja humilde, como eram as viúvas daquela época, porque naquele tempo não existia a aposentadoria, as ajudas sociais, nada». Num certo sentido a Igreja «é um pouco viúva, porque espera o seu Esposo que há-de vir». Certamente, «tem o seu Esposo na Eucaristia, na palavra de Deus, nos pobres: mas espera que volte».

E o que impele o Papa a «ver nesta mulher a figura da Igreja»? O facto de que «não era importante: o nome desta viúva não aparecia nos jornais, ninguém a conhecia, não tinha licenciaturas... nada. Não brilhava de luz própria». E a «grande virtude da Igreja» deve ser precisamente «não brilhar de luz própria», mas reflectir «a luz que vem do seu Esposo». Também os «primeiros Padres» diziam que a Igreja «é um mistério como a lua. Chamavam-lhe mysterium lunae:  a lua não tem luz própria; recebe-a sempre do sol».

Certamente «é verdade que às vezes o Senhor pede à sua Igreja que tenha luz própria», como quando pediu «à viúva Judite que se despojasse das vestes de viúva para vestir o traje de festa para cumprir uma missão». Mas, a Igreja «recebe a luz do Senhor» e «todos os serviços que realizamos» nela servem para «receber aquela luz». Quando um serviço está carente desta luz «não está bem», porque «torna a Igreja rica ou poderosa, ou em busca do poder, e ainda erra o caminho, como aconteceu muitas vezes, na história, e como acontece nas nossas vidas quando queremos ter outra luz, que não é exactamente a do Senhor: uma luz própria».

O Evangelho, observou o Papa, apresenta a imagem da viúva precisamente no momento em que «Jesus começa a sentir as resistências da classe dirigente do seu povo». E é como se Ele dissesse: «Acontece tudo isto, mas olhem para ali!», para aquela viúva. A comparação é fundamental para reconhecer a verdadeira realidade da Igreja que «quando é fiel à esperança e ao seu Esposo, rejubila ao receber a sua luz, ao ser — neste sentido — viúva: esperando aquele Sol que há-de vir».

Aliás, «não é por acaso que o primeiro confronto forte, depois do que Jesus teve com Satanás, em Nazaré, foi por ter nomeado uma viúva e um leproso: dois marginalizados».

Quando a Igreja, concluiu Francisco, é «humilde» e «pobre», e também quando «confessa as suas misérias — pois todos as temos — a Igreja é fiel». É como se ela dissesse: «Eu sou obscura, mas a luz vem-me dali!». E isto, acrescentou o Pontífice, «faz-nos tão bem». Então «peçamos a esta viúva que está no céu, sem dúvida», a fim de que «nos ensine a ser Igreja assim», renunciando a «tudo o que temos» e não guardando «nada para nós» mas «tudo para o Senhor e para o próximo». Sempre «humildes», «sem nos vangloriarmos de ter luz própria», mas «procurando sempre a luz que vem do Senhor».

 


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