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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Não ceder

Terça-feira, 17 de Novembro de 2015

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 47 de 19 de Novembro de 2015

Não se deixar desanimar pelo espírito do mundo e viver coerentemente, sem abatimentos nem cedências, o próprio ser cristãos. Foi o convite que o Papa Francisco, meditando sobre o caminho pelo qual nestes dias «a Igreja se prepara para o fim do ano litúrgico», o Pontífice falou sobre «o modo como comportar-se na perseguição». E para o fazer desenvolveu o fio lógico iniciado no dia anterior, quando a sua reflexão focalizou os três conceitos da «mundanidade», da «apostasia» e da «perseguição».

Inspirou-se no trecho do segundo livro dos Macabeus (6, 18-31) no qual Eleazar, varão de idade avançada — uma espécie de «Policarpo», de pater familias do Antigo Testamento — «não se deixa enfraquecer pelo espírito da mundanidade» e «diante da provação não se rende».

O que tinha acontecido? «O pensamento único da apostasia — explicou o Papa — coagia-o a comer carne suína»; mas ao contrário, ele rejeitou e cuspiu-a. Então, «os seus amigos mundanos, os que tinham cedido ao espírito da mundanidade, tomaram-no à parte e tentaram convencê-lo», propondo-lhe uma solução cómoda: «Façamos o seguinte, preparas uma boa sopa com as carnes que podes comer e finges que comes a carne suína e assim salvas a tua vida e não pecas». Mas o escriba ancião «indignou-se». E «com dignidade, com a nobreza que lhe conferia uma vida coerente» aceitou o «martírio», dando testemunho: «Não é próprio da minha idade dar este exemplo aos jovens».

É um claro exemplo de «coerência de vida» da qual nos afasta «a mundanidade espiritual». Precisamente sobre isto meditou Francisco, analisando o comportamento de muitas pessoas: «Finges ser assim, mas vives de outra maneira». É a mundanidade que se insinua no ânimo humano e aos poucos se apropria dele: «é difícil reconhecê-la desde o início — observou Francisco — porque é como o caruncho que destrói lentamente, corrói o tecido e depois aquele tecido fica inutilizável». Deste modo «o homem que se deixa levar pela mundanidade, perde a identidade cristã», arruina-a, tornando-se «incapaz de coerência». De facto, prosseguiu o Papa, há quem diga: «Oh, sou muito católico, padre, vou à missa todos os domingos, muito católico»; contudo, depois na vida diária ou no trabalho é incapaz de coerência. Por exemplo, não resiste às lisonjas de quem propõe: «Se tu me comprares isto, eu ofereço-te um suborno e tu aceita-lo».

«Isto — afirmou o Pontífice — não é coerência de vida, mas mundanidade». E é precisamente a mundanidade que «leva à vida dupla, a que parece e a que é verdadeira, e te afasta de Deus, destruindo a tua identidade cristã». Por isso «Jesus é tão forte quando pede ao Pai: “Pai, não te peço que os tires do mundo mas que os salves, que não tenham o espírito mundano”», isto é, «o espírito que destrói a identidade cristã».

A Escritura sagrada, em particular a vicissitude do ancião Eleazar, dá um «exemplo contra este espírito de mundanidade». Não foi por acaso que o Pontífice convidou os fiéis a ouvir de novo as suas palavras coerentes: «não suceda que muitos jovens, julgando que Eleazar, aos noventa anos, se tenha adaptado à vida dos gentios, pelo meu gesto de hipócrita e por amor a um pouco de vida, se deixem arrastar por minha causa».

Por conseguinte, Eleazar preocupa-se pelo exemplo que poderia dar aos jovens se cedesse. É uma escolha que o Papa interpretou assim: «O espírito cristão, a identidade cristã, nunca é egoísta, procura sempre curar com a própria coerência, cuidar, evitar o escândalo, ocupar-se dos outros, dar o bom exemplo».

Certamente, acrescentou Francisco, alguém poderia objectar: «Mas não é fácil, padre, viver neste mundo, onde as tentações são muitas e o truque da vida dupla nos tenta diariamente, não é fácil!». Na realidade, explicou o Pontífice, «para nós não só não é fácil, é impossível. Só Ele é capaz de o fazer». Por isso, a liturgia do dia convida a rezar o salmo: «O Senhor sustenta-me».

É Deus, reafirmou o Papa, «o nosso apoio contra a mundanidade que destrói a nossa identidade cristã, que nos leva à vida dupla». Só ele nos pode salvar. E portanto «a nossa oração humilde será: “Senhor, sou deveras pecador, todos o somos, mas peço-te o teu apoio, dá-me o teu apoio, para que não finja ser cristão e depois viva como um pagão, como mundano».

O Pontífice concluiu a homilia com um conselho: «Se tiverdes hoje um pouco de tempo, pegai na Bíblia, o segundo livro dos Macabeus, capítulo seis, e lede esta história de Eleazar. Far-vos-á bem, infundir-vos-á coragem para serdes de exemplo para todos e dar-vos-á também força e apoio para levar por diante a identidade cristã, sem compromissos, sem vida dupla».

 


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