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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

A santidade da negociação

 Quinta-feira, 9 de junho de 2016

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 24 de 16 de junho de 2016

É preciso viver «a santidade pequenina da negociação», ou seja, aquele «realismo sadio» que «a Igreja nos ensina»: isto é, trata-se de rejeitar a lógica do «isto ou nada» e de empreender o caminho do «possível» para nos reconciliarmos com os outros. Com uma pequena nota de ternura: durante a homilia uma criança começou a chorar, mas Francisco imediatamente tranquilizou os pais: «Não vos preocupeis, porque a pregação de uma criança na igreja é mais bonita do que a do sacerdote, do bispo e do Papa. Deixai estar: deixai-a chorar, porque é a voz da inocência que faz bem a todos nós».

Para a sua reflexão, o Papa inspirou-se no excerto do Evangelho de Mateus (5, 20-26), proposto pela liturgia: «Jesus está no meio do seu povo e ensina aos discípulos, ensina a lei do povo de Deus». Com efeito, «Jesus é o legislador que Moisés tinha prometido: “Virá alguém depois de mim...”». Portanto, ele é «o verdadeiro legislador, aquele que nos ensina como deve ser a lei para sermos justos». Mas «o povo estava um pouco desorientado, confuso, porque não sabia o que fazer e aqueles que ensinavam a lei não eram coerentes». E é o próprio Jesus quem lhes diz: «Fazei o que dizem, mas não o que fazem». De resto, «não eram coerentes na sua vida, não eram um testemunho de vida». Assim «Jesus, neste trecho do Evangelho, fala sobre superar: “A vossa justiça deve superar a dos escribas e dos fariseus”». Portanto, «a este povo um pouco prisioneiro desta gaiola sem saída, Jesus indica o caminho para sair: sempre sair por cima, superar, ir além».

E nesta direção, explicou Francisco, Jesus «cita como primeiro exemplo — cita muitos, não? — o primeiro mandamento: amar a Deus e amar ao próximo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás, um dos mandamentos de amor ao próximo, “Mas eu digo-vos: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: Raca, será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da Geena”».

Substancialmente, Jesus afirma que «é pecado não só matar», mas também «insultar e ofender» o irmão. E «faz bem ouvir isto», acrescentou o Papa, precisamente «neste tempo em que estamos tão acostumados aos qualificativos e usamos um vocabulário muito criativo para insultar os outros». Por conseguinte, também ofender «é pecado, é matar». Porque «é dar uma bofetada na alma do irmão, na dignidade própria do irmão», pronunciar algo como: «não te importes, este é um louco, um estúpido», e «muitos outros palavrões que dizemos, com muita caridade, aos outros». Isto, repetiu o Pontífice, «é pecado».

Francisco observou que «Jesus resolve» as dúvidas «deste povo desorientado e prisioneiro olhando para cima: a lei. E vai além, vincula o comportamento do povo com a adoração a Deus e diz: “Se vais ao altar a oferecer um dom e tens um problema com o irmão, ou o irmão há algo contra de ti, vai antes ter com o irmão, reconcilia-te”». Isto «é superar a lei e o que diz é uma justiça superior à dos escribas e dos fariseus».

«Quantas vezes na Igreja ouvimos isto, quantas vezes!» constatou o Papa, recordando que não é raro ouvir frases do tipo: «Mas aquele sacerdote, aquele homem, aquela mulher da ação católica, aquele bispo, aquele Papa dizem-nos “deves fazer assim!” e ele mesmo faz o contrário». Isto é precisamente «o escândalo que fere o povo e não deixa que o povo de Deus cresça, que progrida. Não liberta». Também «aquele povo — prosseguiu — tinha visto a rigidez de escribas e fariseus», a ponto que «quando vinha um profeta que lhes dava um pouco de alegria perseguiam-no e até o matavam: não havia lugar para os profetas ali».

Por esta razão «Jesus diz aos fariseus: “Matastes os profetas, perseguistes os profetas: aqueles que traziam o ar puro”». Jesus, «como disse na sinagoga de Nazaré, veio para nos trazer o ano de graça, a libertação, a verdadeira libertação: a de Jesus». Para Francisco, «a generosidade, a santidade é sair mas sempre sempre se elevando: sair elevando-se» Esta «é a libertação da rigidez da lei e também dos idealismos que não nos fazem bem».

«Jesus conhece-nos muito bem — explicou o Papa — e conhece o modo como fomos criados porque ele é o criador, conhece a nossa natureza». Eis que nos sugere: «Se tens um problema com um irmão — diz a palavra “adversário” — procura pacificar-te». Assim o Senhor «ensina-nos também um realismo sadio: muitas vezes não podes chegar à perfeição, mas pelo menos faz o que for possível, procura um acordo para não chegar ao tribunal». É este o «realismo sadio da Igreja católica: ela nunca ensina “isto ou aquilo”». «A Igreja diz: “isto e isto”». Resumindo, «cria a perfeição: reconcilia-te com o teu irmão, não o insultes, ama-o, mas se houver algum problema pelo menos encontra um acordo de modo que não expluda a guerra«. Eis o «realismo sadio do catolicismo». Ao contrário «não é católico mas herético» dizer: «ou isto ou nada».

«Jesus — garantiu Francisco — sabe sempre caminhar connosco, dá-nos o ideal, acompanha-nos rumo ao ideal, liberta-nos desta prisão da rigidez da lei e diz-nos: “Fazei até ao ponto que podeis chegar”. E ele compreende-nos bem». Este «é o nosso Senhor, aquele que nos ensina» dizendo-nos: «Por favor, não vos insulteis nem sejais hipócritas: ides louvar a Deus com a mesma linguagem com a qual insultais o irmão? Não, isto não se faz, mas fazei o que podeis pelo menos para evitar a guerra entre vós, encontrai um acordo». E, acrescentou o Papa, «permito-me dizer esta palavra que parece um pouco estranha, é a santidade pequena da negociação: não posso tudo, mas quero fazer tudo, então faço um acordo contigo, pelo menos não nos insultemos, não façamos a guerra e vivamos todos em paz».

«Jesus é grande — disse o Pontífice na conclusão — e liberta-nos de todas as nossas misérias, inclusive daquele idealismo que não é católico». Por isso «peçamos ao Senhor que nos ensine, primeiro, a sair de qualquer rigidez, mas sair por cima, a fim de poder adorar e louvar a Deus; que nos ensine a reconciliar-nos entre nós; e também, que nos ensine a pôr-nos de acordo até ao ponto que o possamos fazer».

 



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