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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

A fé é concreta

Segunda-feira, 24 de abril de 2017

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 17 de 27 de abril de 2017

O que significa viver realmente a Páscoa, o «espírito pascal»? Pergunta necessária, porque para o cristão há o risco da «idealização», de esquecer que «a nossa fé é concreta». Na primeira missa celebrada em Santa Marta depois das festas pascais, o Papa traçou o percurso a seguir: «Ir pelos caminhos do Espírito sem comprometimentos», testemunhando a verdade com coragem e franqueza.

Para compreender este programa de vida é necessária uma «mudança de mentalidade», libertar-se dos laços do «racionalismo» e aderir à «liberdade» do Espírito. Era isto que Jesus explicava a Nicodemos no célebre episódio evangélico da visita noturna (Jo 3, 1-8), examinado pelo Pontífice para comentar a liturgia hodierna.

«Este fariseu era um homem bom. Inquieto, não entendia. O seu coração estava na noite». Mas tratava-se de «uma noite diversa da de Judas, porque era uma noite que levava o primeiro a aproximar-se de Jesus, e o outro a afastar-se». Foi ter com Jesus para «pedir explicações» e recebeu uma resposta que «não entende». Quase como se «Jesus quisesse complicar a situação, pondo-o em dificuldade». Com efeito, responde: «Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer do alto não poderá ver o Reino de Deus». Nicodemos pergunta: «Como é possível nascer de novo?». Parece, observou Francisco, «um pouco irónico, mas não é assim». Ao contrário, é a expressão de um grande tormento interior. Então, Jesus explica que se trata da «passagem de uma mentalidade para outra» e «com muita paciência e amor, ajuda este homem de boa vontade a fazer esta passagem».

Também o Pontífice refletiu sobre a resposta de Jesus: «O que significa “nascer do Espírito”? O que significa “nascer do alto: o vento sopra onde quer; ouves o seu ruído mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito”». E frisou que nesta mensagem se sente «um ar de liberdade».

Contudo, é um discurso difícil e, «para o entender melhor, ilumina-nos a primeira leitura». No trecho proposto pela liturgia (At 4, 23-31) encontra-se «o fim de uma história que a liturgia sugeriu durante toda a semana da Páscoa. A história da cura, por parte de Pedro e João, do coxo que era levado todos os dias à porta do Templo, chamada “formosa”, para pedir esmola». A leitura deste episódio esclarece o discurso de Nicodemos. O Papa explicou-o, relançando que «todo o povo que estava ali no pórtico de Salomão», tinha «visto» e ficara admirado. Trata-se exatamente «daquele sentimento — mais do que um sentimento: aquele estado de ânimo que a presença do Senhor desperta em nós. A admiração. O encontro com o Senhor leva a esta admiração».

Diante disto os chefes, os sumos sacerdotes, os doutores da lei «escandalizaram-se» e, conscientes de que o milagre foi público, interrogavam-se: «Que fazemos?». Aconteceu o mesmo quando Jesus curou o cego de nascença. Portanto, os presentes perguntavam-se: «Como fazemos para encobrir isto? Porque o povo viu, crê, temos a evidência... Como esconder isto?». De resto, viam o coxo que, segundo a narração, «dançava de alegria para lhes fazer entender que Jesus o tinha curado». Os doutores da lei concordaram em chamar os dois apóstolos e «em dizer-lhes que deixassem de falar, de pregar», mas quando lhes apresentaram «a proposta», Pedro — ele que «negara Jesus três vezes», respondeu: «Não podemos silenciar o que vimos e ouvimos. E... continuaremos assim».

Eis o detalhe que esclarece tudo. As «duas palavras», as mesmas com as quais João começa a primeira carta: «O que vimos e ouvimos». Trata-se, observou o Papa, da «realidade de um acontecimento, da realidade da fé, da encarnação do Verbo».

Diante disto, «os chefes querem negociar para chegar a compromissos». Mas os apóstolos «não cedem a compromissos; têm coragem, têm a franqueza do Espírito». Uma «franqueza que significa falar abertamente, com coragem». Portanto, «eis o ponto: a firmeza da fé». Uma conclusão que envolve cada cristão. Com efeito, o Papa recordou: «Às vezes esquecemos que a nossa fé é concreta: o Verbo fez-se carne, não se fez ideia: fez-se carne». Não é por acaso que «quando recitamos o Credo, dizemos coisas concretas: “Creio em Deus Pai, que fez o céu e a terra, creio em Jesus Cristo que nasceu, morreu...”, são coisas concretas. O nosso Credo não diz: “Creio que devo fazer isto, isso e aquilo, ou que as coisas são para isto...”: não! São coisas concretas». E a «solidez da fé» leva «à franqueza, ao testemunho até ao martírio, que é contrário aos compromissos, à idealização da fé». Poder-se-ia dizer que para os doutores da lei «o Verbo não se fez carne: fez-se lei». Para eles só era importante estabelecer: «Deve-se fazer isto até aqui, e não mais; deve-se fazer isto... E assim viviam presos nesta mentalidade racionalista». Uma mentalidade «que não acabou com eles». Com efeito, na história muitas vezes a Igreja «que condenou o racionalismo, o iluminismo», também «caiu numa teologia do “pode-se e não se pode”, “até aqui, até ali”, e esqueceu a força, a liberdade do Espírito, este renascer do Espírito que te dá a liberdade, a franqueza da pregação, o anúncio de que Jesus Cristo é o Senhor».

Segundo esta chave de leitura, esclareceu o Pontífice, entende-se também «a história das perseguições». Com efeito, na primeira leitura lê-se: «Ergueram-se os reis da terra, os príncipes aliaram-se contra o Senhor e contra o seu Cristo. Realmente nesta cidade Herodes e Pôncio Pilatos, com as nações e com o povo de Israel aliaram-se contra o teu Ungido, o Senhor».

Eis então o ensinamento ainda hoje atual: «Peçamos ao Senhor esta experiência do Espírito que vai e vem e que nos leva em frente, do Espírito que nos dá a unção da fé, a unção da solidez da fé». Voltam a ressoar as palavras ditas a Nicodemos: «Não te admires se eu te disse: “Tens de nascer do alto”. “O vento sopra onde quer; ouves o seu ruído mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito”». Quem nasceu do Espírito «ouve a voz, segue o vento, segue a voz do Espírito sem saber onde acabará. Porque fez uma opção pela solidez da fé e o renascimento no Espírito».

Por isso o Papa concluiu com uma oração: «O Senhor nos conceda a todos este Espírito pascal, para irmos pelos caminhos do Espírito sem comprometimentos, sem rigidez, com a liberdade de anunciar Jesus Cristo como Ele veio: na carne».

 



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