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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Por Tawadros II

Terça-feira, 25 de abril de 2017

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 17 de 27 de abril de 2017

Poucas horas antes da viagem ao Egito, o Papa Francisco ofereceu «pelo meu irmão Tawadros II, patriarca de Alexandria dos coptas», a missa celebrada na capela da Casa Santa Marta. «Hoje é a festa de São Marcos evangelista, fundador da Igreja de Alexandria» disse o Pontífice, pedindo também «a graça que o Senhor abençoe as nossas duas Igrejas com a abundância do Espírito Santo».

Precisamente as palavras de Marcos «no final do Evangelho» (16, 15-20), propostas hoje pela liturgia, foram o fio condutor da meditação do Papa: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura». Nesta exortação, explicou Francisco, «está a missão que Jesus atribui aos discípulos: a missão de anunciar o Evangelho, de proclamar o Evangelho». E «em primeiro lugar Jesus pede para ir, não permanecer em Jerusalém: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”». É um convite vigoroso a «sair, ir».

De resto, observou o Papa, «o Evangelho é proclamado sempre a caminho: nunca sentado, sempre a caminho, sempre». Portanto, sair para ir «onde Jesus não é conhecido, onde Ele é perseguido ou desfigurado, para proclamar o verdadeiro Evangelho». Como ouvimos no cântico da aleluia, «anunciamos Cristo crucificado, poder de Deus e sabedoria de Deus». Precisamente «este é o Cristo que Jesus nos envia para anunciar».

Assim os cristãos são chamados a «sair para anunciar e nesta saída está em questão também a vida, está em jogo a vida do pregador: ele não está seguro, não há seguros de vida para os pregadores». A ponto que «se um pregador procurar um seguro de vida, não será um verdadeiro pregador do Evangelho: não sai, permanece na segurança».

«Primeiro: ide, saí» insistiu o Pontífice. Porque «o Evangelho, o anúncio de Jesus Cristo, se faz em saída, sempre; a caminho, sempre». E «a caminho tanto físico quanto espiritual e do sofrimento: pensemos no anúncio do Evangelho que fazem tantos doentes — muitos doentes! — que oferecem as dores pela Igreja, pelos cristãos». São pessoas que «saem sempre de si mesmas».

Mas «qual é o estilo deste anúncio?» foi a questão proposta por Francisco. «São Pedro, que foi exatamente o mestre de Marcos, é muito claro na descrição deste estilo: como se anuncia o Evangelho?». Eis a resposta, reproposta hoje na primeira leitura (1 Pd 5, 5-14): «Revesti-vos de humildade». Sim, explicou o Papa, «o Evangelho deve ser anunciado com humildade, porque o Filho de Deus se humilhou, se aniquilou: o estilo de Deus é este, não há outro». «O anúncio do Evangelho não é um carnaval, nem uma festa que pode ser muito bonita mas não é o anúncio do Evangelho». É preciso «humildade: o Evangelho não pode ser anunciado com o poder humano, nem com o espírito de escalar ou subir, não! Isto não é o Evangelho!».

«Humildade», antes de tudo, como recomenda vivamente Pedro na sua primeira carta. «Revesti-vos de humildade». E explicou a razão deste estilo: «Porque Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes». «Para anunciar o Evangelho é necessário obter a graça de Deus, e para a receber é preciso ter humildade: o estilo do anúncio é esta proposta». Pedro acrescenta também estas palavras: «Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no tempo oportuno».

A humildade é necessária, afirmou o Pontífice, «precisamente porque levamos a cabo um anúncio de humilhação, de glória mas através da humilhação». E «o anúncio do Evangelho sofre a tentação do poder, a tentação da soberba, das mundanidades, de muitas mundanidades que existem e nos levam a pregar ou a recitar». Sim, explicou, «porque não é pregação um Evangelho diluído, sem vigor, um Evangelho sem Cristo crucificado e ressuscitado». Precisamente «por isso Pedro diz para vigiar: “O vosso adversário, o demónio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que os vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós”».

«O anúncio do Evangelho, se for verdadeiro, sofre a tentação» repetiu Francisco. «Se um cristão disser que anuncia o Evangelho, com a palavra ou com o testemunho, e que nunca é tentado», pode estar «tranquilo» que o diabo não se preocupa com isso «e quando o diabo não se preocupa é porque não lhe causamos problemas, porque estamos a pregar algo que não serve». Eis porque «na verdadeira pregação há sempre alguma tentação e até perseguição».

Por fim, reiterou o Papa, «estilo de humildade, caminho — porque saímos — caminho de tentação, mas a esperança» nunca deve faltar. De facto, escreve Pedro: «O Deus de toda a graça, que vos chamou em Cristo à sua eterna glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vos fortificará». O Papa acrescentou: «será exatamente o Senhor quem nos resgatará, dando-nos força, porque foi isto que Jesus prometeu quando enviou os apóstolos». Como descreve Marcos no trecho evangélico hodierno: «Os discípulos partiram e pregaram por toda a parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua Palavra com os milagres que a acompanhavam». Sim, afirmou Francisco, «será o Senhor quem nos confortará, nos dará força para ir em frente, porque Ele age a nosso favor se formos fiéis ao anúncio do Evangelho, se sairmos de nós mesmos para pregar Cristo crucificado, escândalo e loucura, e se fizermos tudo com um estilo de humildade, de humildade verdadeira».

«Que o Senhor — desejou o Papa — nos conceda esta graça, como batizados, a todos, de empreender o caminho da evangelização com humildade, com confiança n’Ele, anunciando o verdadeiro Evangelho: “O Verbo fez-se carne”». «Isto é uma loucura, um escândalo». Portanto, evangelizar «com a consciência de que o Senhor está ao nosso lado, age em nosso benefício e confirma o nosso trabalho».

 



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