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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Paz não é tranquilidade

Terça-feira, 16 de maio de 2017

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 20 de 18 de maio de 2017

Foi contra o risco de nos deixar enganar por uma «paz tranquila, artificial e anestesiada», pendurando um aviso para «não ser incomodado», típica do mundo, mas que ninguém pode fabricar para si porque não funciona, que o Papa Francisco advertiu, repropondo a verdadeira essência da paz que Jesus nos oferece: uma paz capaz de passar através das muitas tribulações diárias da vida, entre sofrimentos e doenças. Todavia sem nunca cair no estoicismo nem nos tornar faquires. A tal propósito Francisco quis repropor o pensamento eficaz de Santo Agostinho: «A vida do cristão é um caminho entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus» (De Civitate Dei XVIII, 51).

Para a sua meditação o Pontífice inspirou-se no trecho evangélico de João (14, 27-31), proposto hoje pela liturgia: «Jesus estava à mesa com os seus discípulos, na última ceia, e disse-lhes: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”». Sim, insistiu o Papa, «doa-lhes a paz». Acrescentando: «“Não se turve o vosso coração nem se atemorize”», porque vos dou a minha paz».

Deste modo, explicou Francisco, «o Senhor começa a despedir-se dos seus com este dom», precisamente «a paz». Além disso, prosseguiu, «escutámos também o trecho dos Atos dos Apóstolos» (14, 19-28), que narra «a viagem que Paulo e Barnabé fizeram partindo de Antioquia, e regressando de novo ali, e ouvimos tudo o que sofreram». E a pergunta formulada pelo Papa foi exatamente se «esta é a paz que Jesus nos dá». De facto, Paulo e Barnabé «pregavam em Listra» mas «vindos de Antioquia e Icónio, alguns judeus que aliciaram o povo, apedrejaram Paulo e, julgando-o morto, arrastaram-no para fora da cidade».

Mas, disse o Pontífice, «é esta a paz que Jesus dá? Ou Paulo não recebera a paz?». Os Atos narram «como os discípulos o rodearam e ele ergueu-se e voltou para a cidade anunciar o Evangelho». Com o seu estilo, explicou Francisco, «tinha conquistado um número considerável de discípulos e antes de partir ordenou sacerdotes, presbíteros, para que cuidassem daquele povo». Resumindo, Paulo «continuava a trabalhar». E não obstante tudo fortalecia a alma dos discípulos, encorajando-os a manterem-se firmes na fé, afirmando: «Temos que sofrer muitas tribulações para entrar no Reino de Deus».

Por conseguinte, afirmou o Pontífice, «é uma paz no meio das tribulações». Por essa razão «quando Jesus oferece este dom e diz aos discípulos “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”, acrescenta “não vo-la dou como o mundo a dá”». Com efeito, explicou o Papa, «aquela que nos oferece o mundo é uma paz sem tribulações: artificial, mais que paz é tranquilidade». Como se disséssemos «por favor, não me incomodem: quero estar tranquilo».

Poder-se-ia dizer, prosseguiu, que o mundo nos oferece «uma paz que se importa só com as próprias situações, com as próprias seguranças e que nunca falte nada». A tal propósito o Pontífice referiu-se à «figura do rico Epulão, homem que vivia em paz, feliz, sempre junto com os amigos, que eram interesseiros porque iam ter com ele para comer bem naquela casa, pelas festas». Assim «estavam todos tranquilos» mas também «fechados: não enxergavam além».

«O mundo ensina-nos o caminho da paz com a anestesia», afirmou Francisco. O mundo «anestesia-nos para que não vejamos outra realidade da vida: a cruz». Por este motivo: «Paulo diz que para entrarmos no Reino de Deus temos de sofrer muitas tribulações». Mas «podemos ter paz na tribulação?» foi a pergunta formulada por Francisco. «Se depender de nós, não», explicou, porque «só somos capazes de obter uma paz que seja tranquilidade, uma paz psicológica, contudo as tribulações existem: há quem tem uma dor, quem uma doença, quem uma morte».

Ao contrário «a paz que Jesus oferece é um dom: um dom do Espírito Santo». «Uma paz que resiste no meio das tribulações e vai em frente: não é uma espécie de estoicismo, nem o que faz o faquir» observou. É precisamente «outra coisa, é um dom que nos faz ir em frente». A ponto que «Jesus, depois de ter proferido isto, foi ao horto das Oliveiras, dizendo-lhes: “Já não falarei muito convosco pois vai chegar o príncipe deste mundo”». E acrescentou «Ele nada pode contra mim, mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, que faço como o Pai me mandou. Levantai-vos, vamo-nos daqui». De facto lê-se no Evangelho: «Apareceu-lhe um anjo do céu para o consolar».

Eis então, explicou o Papa, que «a paz de Deus é real, concretiza-se na realidade da vida, não nega a vida». Porque «a vida é assim: existe o sofrimento, há doentes, muitas situações terríveis, há guerras, mas a paz interior, que é um dom, não se perde, ao contrário, leva-nos para a frente, carregando a cruz e o sofrimento», com a consciência de que «uma paz sem cruz não é a paz de Jesus: é uma paz que se pode comprar». Talvez «a possamos fabricar, mas não será duradoura: acabará».

Pondo a sua reflexão em comparação com a vida diária de cada um, o Papa explicou que «quando me enraiveço e perco a paz, quando o meu coração se turva, é porque não estou aberto à paz de Jesus; porque não sou capaz de levar a vida como ela se apresenta, com as cruzes e as dores que chegam: porque não sou capaz de rezar: “Senhor, dai-me a vossa paz”». E esta, afirmou Francisco, «é uma ótima graça para ser pedida hoje, ouvindo este trecho de Jesus e a palavra de Paulo: “Temos que sofrer muitas tribulações para entrar no Reino de Deus”». Sim, «a graça da paz, de não perder a paz interior». Assim, no final, a oração sugerida pelo Papa foi que «o Senhor nos faça compreender como é esta paz que Ele nos oferece com o Espírito Santo».

 



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