Index   Back Top Print

[ PT ]

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Neste mundo de escravos

Sexta-feira, 1 de junho de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 23 de 7 de junho de 2018

Vivemos num «mundo de escravos», de «mulheres e homens perseguidos» através das colonizações culturais, das guerras e da fome, que destroem fisicamente e na dignidade: para explicar estas enormes injustiças é preciso entender que por detrás de tudo está o diabo. O Papa Francisco relançou um forte convite a «restabelecer a imagem de Deus que existe em nós».

«O apóstolo Pedro chama a atenção dos fiéis para a perseguição», disse o Pontífice, citando as primeiras palavras do trecho tirado da primeira carta de São Pedro (4, 7-13), proposto pela liturgia: «Caríssimos, não vos admireis com o fogo da perseguição, como se vos acontecesse algo de extraordinário», porque «a perseguição não é algo de extraordinário, como diz Pedro: não vos preocupeis, não é algo de extraordinário».

«A perseguição — afirmou Francisco — faz parte da vida cristã; aliás, ser perseguido é uma bem-aventurança: “Bem-aventurados quando fordes insultados e perseguidos por causa do meu nome, bem-aventurados”». E «até Jesus foi perseguido e morto na perseguição». A ponto que, observou o Papa referindo-se ao trecho do Evangelho de Marcos (11, 11-25), «quando vai ao templo para o purificar, os sumos sacerdotes — as máximas autoridades — ouviram-no e os escribas procuravam o modo de o matar». Portanto, «Jesus foi perseguido por causa da sua fidelidade ao Pai». De resto, explicou o Pontífice, «desde o primeiro momento, depois do martírio de Estêvão, começou uma grande perseguição contra toda a Igreja: desde o início».

«A perseguição é um pouco “o ar” do qual vive o cristão até hoje — afirmou o Papa — pois ainda hoje há muitos mártires e perseguidos por amor a Cristo». Hoje, insistiu, «em muitos países os cristãos não têm direitos: se trouxeres ao peito um crucifixo vais para a prisão, e há pessoas no cárcere por isto; hoje há pessoas condenadas a morrer por serem cristãs». Francisco recordou que «muitos são assassinados e o seu número é mais alto que o dos mártires dos primeiros tempos. Mais alto!».

No entanto, insistiu, «isto não é notícia, e portanto os telejornais e jornais não publicam estas notícias». Mas «os cristãos são perseguidos — afirmou o Papa — e também isto nos deve fazer refletir sobre a nossa condição de cristãos». A questão é que no fim «sou um cristão tranquilo, levo a minha vida sem me dar conta destes irmãos e irmãs perseguidos».

Exatamente «por isso a palavra de Pedro nos ajuda a repensar, a meditar sobre a condição cristã: “Caríssimos, não vos admireis com o fogo — o fogo — da perseguição, como se vos acontecesse algo de extraordinário”». A perseguição «é algo diário também hoje, e hoje mais que nos primeiros tempos», repetiu o Pontífice. E «esta perseguição contra os cristãos é uma bem-aventurança».

«Mas hoje — alertou Francisco — há outra perseguição no mundo: outra perseguição, não contra os cristãos por serem cristãos, mas contra cada homem e mulher por serem imagem viva de Deus». Pois «por detrás de cada perseguição, quer cristãos quer seres humanos, está o diabo, o demónio que procura destruir a confissão de Cristo nos cristãos e a imagem de Deus no homem e na mulher».

De resto o diabo, explicou o Papa, «desde o início procurou — podemos lê-lo no livro do Génesis — destruir a harmonia entre homem e mulher que o Senhor criou, a harmonia que deriva do ser imagem e semelhança de Deus». E «conseguiu fazê-lo com o engano, a sedução, as armas que usa: faz sempre assim». Mas «até hoje há uma força, diria um furor oposto ao homem e à mulher, caso contrário não se explicaria esta onda crescente de destruições contra o homem, a mulher, o ser humano».

«Pensemos no fenómeno da fome», propôs o Pontífice. A fome «destrói o homem e a mulher que não têm o que comer». Contudo «há muita comida no mundo, mas tantas pessoas não têm o que comer». Segundo o Papa «esta injustiça explica-se porque há alguém que os leva a não terem o que comer». E sugeriu: «Pensai na exploração humana, nas várias formas de escravidão de hoje: o homem e a mulher são escravos dos outros, para serem destruídos». E «é elevado o número de escravos no mundo!».

Nesta perspetiva, Francisco fez uma revelação: «Recentemente pude ver um filme feito às escondidas sobre uma prisão que recebe migrantes que fugiram e foram encontrados no mar: as torturas e a destruição para escravizar aquela gente hoje, 70 anos depois da declaração dos direitos humanos! Hoje!». Está em ato, acrescentou o Papa, «uma perseguição contra o homem e a mulher para os destruir». Depois, prosseguiu, «pensemos nas colonizações culturais, quando os impérios fazem aceitar disposições da sua cultura contra a independência, contra a cultura do povo, impondo situações que não são humanas, para destruir: impõem a morte, a destruição».

«O Senhor entendeu bem este caminho: o que o demónio quer é a destruição da dignidade e por isso persegue», explicou o Papa. «O Senhor — frisou — entendeu bem quando o diabo o levou ao pináculo do templo e lhe mostrou todos os reinos da terra: “Isto será teu se me adorares, se renegares que és imagem de Deus”».

«E no final — afirmou ainda Francisco — podemos pensar nas guerras como instrumento de destruição do povo, da imagem de Deus». Mas «também nas pessoas que fazem e planificam as guerras para ter poder sobre os outros: há pessoas que gerem muitas indústrias de armas para destruir a humanidade, a imagem do homem e da mulher, física, moral e culturalmente». E, reiterou o Papa, hoje são perseguidos não só por serem cristãos, mas também por serem «imagem de Deus, e por isso o demónio persegue e os impérios continuam a perseguir hoje».

«Não podemos ser ingénuos», admoestou o Papa. «Hoje no mundo não só os cristãos são perseguidos: os seres humanos, homem e mulher, pois o pai de toda a perseguição não tolera que eles sejam imagem e semelhança de Deus. Ele ataca e destrói esta imagem». Francisco reconheceu que «não é fácil entender isto, é preciso rezar muito para o compreender». Então, o Pontífice desejou «que hoje o Senhor nos faça entender isto, esta grande perseguição cultural mediante as colonizações culturais, a guerra, a fome, a escravidão. Que o Senhor nos faça entender: este é um mundo de escravos; hoje não é fácil ser livre».

Eis a prece do Papa: «Que o Senhor nos conceda a graça de lutar contra isto e restabelecer com a força de Jesus Cristo — pois Ele veio para isto, para restabelecer — a imagem de Deus que todos nós temos».

 



© Copyright - Libreria Editrice Vaticana