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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Os sacerdotes entre os doentes com a Palavra de Deus e a Eucaristia

Terça-feira, 10 de março de 2020

[Multimídia]


 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 11 de 17 de março de 2019

«Continuemos a rezar juntos pelos doentes, pelos agentes de saúde, por tantas pessoas que sofrem com esta epidemia. Rezemos ao Senhor também pelos nossos sacerdotes, para que tenham a coragem de sair para visitar os doentes, levando a força da Palavra de Deus e a Eucaristia, e acompanhar os agentes de saúde, os voluntários, neste trabalho que estão a fazer». Há o estilo e o testemunho do cristão “no tempo do coronavírus”, nas palavras com que o Papa Francisco, na manhã de terça-feira, 10 de março, iniciou a Missa na capela da Casa Santa Marta.

A celebração foi transmitida ao vivo, como já tinha acontecido na manhã anterior, para permitir ao povo de Deus uma unidade particular com o Bispo de Roma neste momento de provação.

Para a sua meditação, o Pontífice começou com o trecho do livro do profeta Daniel (9, 4-10) proposto na segunda-feira pela liturgia. Desta forma, ele frisou que «a Palavra de Deus nos ensinou a reconhecer os nossos pecados e a confessá-los, não só com a mente, mas também com o coração, com um espírito de vergonha». Vergonha, então, vista «como uma atitude mais nobre diante de Deus pelos nossos pecados».

Nesta perspetiva, disse o Papa, «hoje o Senhor chama todos nós pecadores a dialogar com Ele, porque o pecado nos fecha em nós mesmos, nos faz esconder ou ocultar a nossa verdade interior». Foi precisamente «o que aconteceu com Adão, com Eva: depois do pecado eles esconderam-se, porque tinham vergonha, estavam nus». Afinal, explicou Francisco, «o pecador, quando sente vergonha, é tentado a esconder-se».

Referindo-se ao trecho tirado do livro do profeta Isaías (1, 10.16-20), o Papa frisou o facto de que «o Senhor chama: “Vinde, vinde, vamos discutir” — diz o Senhor». Ele chama e diz: «falemos do teu pecado, falemos da tua situação: não tenhais medo, não...». Na verdade, o texto do profeta Isaías prossegue: «Mesmo que os vossos pecados fossem como escarlate, tornar-se-iam brancos como a neve. Mesmo que fossem vermelhos como a púrpura, ficariam brancos como a lã». Em síntese, «o Senhor diz-nos: vinde, pois sou capaz de mudar tudo, não tenhais medo de vir e falar, sede corajosos mesmo com as vossas misérias».

«Vem à mente — confidenciou Francisco, recordando o testemunho de São Jerónimo — aquele santo que era tão penitente, rezava tanto». Ele procurou dar sempre ao Senhor tudo o que o Senhor lhe pediu. Mas o Senhor não estava feliz. E um dia ele estava um pouco zangado com o Senhor, porque aquele santo tinha um mau feitio. Então diz ao Senhor: «Mas, Senhor, eu não te entendo. Dou-te tudo, tudo, e estás sempre insatisfeito, como se algo estivesse a faltar. O que falta?» E eis a resposta do Senhor: «Dá-me os teus pecados: é isso que falta».

«Ter a coragem de ir com as nossas misérias falar com o Senhor»: esta é a sugestão do Papa. Na certeza de que Ele nos diz: «Vamos lá! Vamos discutir! Não tenhais medo», porque «mesmo que os vossos pecados fossem como escarlate, eles ficariam brancos como a neve. Se fossem vermelhas como a púrpura, tornar-se-iam brancos como lã».

«Este é o convite do Senhor», insistiu o Pontífice. Contudo, advertiu os cristãos porque «há sempre um engano: em vez de ir falar com o Senhor, fingir que não se é pecador». E isso é exatamente «o que o Senhor reprova aos doutores da lei», no trecho do Evangelho de Mateus (23, 1-12) proposto pela liturgia. Há pessoas que «fazem as obras “para serem admiradas pelo povo: alargam as filactérias e alongam as borlas dos seus mantos. Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes, e os primeiros assentos nas sinagogas. Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados ‘rabbi’ pelos homens”».

É «a aparência, a vaidade»: é «cobrir a verdade do nosso coração com a vaidade», salientou Francisco. Mas «a vaidade nunca cura!». Pelo contrário, aumenta: a vaidade «também é venenosa, vai em frente levando a doença ao coração, causando aquela dureza de coração que te diz: “Não, não vás para o Senhor, não vás. Permanece como és”».

A vaidade é precisamente «o lugar», a atitude «de se fechar à chamada do Senhor», explicou o Papa. «Ao contrário — frisou — o convite do Senhor é o de um pai, de um irmão: “Vinde! Falemos, falemos. No final, sou capaz de mudar a tua vida de vermelho para branco”».

«Que esta Palavra do Senhor nos encoraje, que a nossa oração seja uma verdadeira oração», desejou o Papa. Convidando, em conclusão, a «falar com o Senhor da nossa realidade, dos nossos pecados, das nossas misérias: Ele sabe, Ele sabe o que somos». Nós sabemo-lo, mas a vaidade convida-nos sempre a encobrir».

 



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