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RESPOSTAS DO SANTO PADRE FRANCISCO
 ÀS PERGUNTAS DOS REPRESENTANTES DAS ESCOLAS
 DOS JESUÍTAS NA ITÁLIA E NA ALBÂNIA

Aula Paulo VI
Sexta-feira 7 de Junho de 2013

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Publicamos em seguida o texto do discurso preparado, que o Pontífice resumiu improvisando, antes de estabelecer um diálogo com os jovens.

 


Queridos adolescentes
Prezados jovens

Estou feliz por vos receber com as vossas famílias, os educadores e os amigos da grande comunidade das Escolas dos jesuítas italianos e da Albânia. Dirijo a todos vós a minha carinhosa saudação: sede bem-vindos! Com todos vós, sinto-me verdadeiramente «em família». E é motivo de alegria especial a coincidência deste nosso encontro por ocasião da solenidade do Sagrado Coração de Jesus.

Gostaria de vos dizer antes de tudo algo que se refere a santo Inácio de Loyola, nosso fundador. No outono de 1537, vindo para Roma com um grupo dos seus primeiros companheiros, interrogou-se: se nos perguntarem quem somos, o que responderemos? A resposta veio-lhe espontaneamente: «Diremos que somos a “Companhia de Jesus”!» (Fontes Narrativi Societatis Iesu, vol. 1, págs. 320-322). Um nome importante, que queria indicar uma relação de amizade íntima, de um afecto total por Jesus, de quem queriam seguir os passos. Por que motivo vos narrei este acontecimento? Porque santo Inácio e os seus companheiros tinham compreendido que Jesus lhes ensinava como viver bem, como realizar uma existência que tenha um sentido profundo, que suscite entusiasmo, alegria e esperança; tinham entendido que Jesus é um grande mestre e modelo de vida, e que não só lhes ensinava, mas também os convidava a segui-lo por aquele caminho.

Caros jovens, se agora eu vos dirigisse esta pergunta: por que ides para a escola, o que me responderíeis? Provavelmente haveria muitas respostas, segundo a sensibilidade de cada um. Mas penso que se poderia resumir tudo, dizendo que a escola é um dos ambientes educativos no qual crescemos para aprender a viver, para nos tornarmos homens e mulheres adultos e maduros, capazes de caminhar, de percorrer a vereda da vida. Como vos ajuda a escola a crescer? Ajuda-vos não apenas no desenvolvimento da vossa inteligência, mas para uma formação integral de todos os componentes da vossa personalidade.

Seguindo aquilo que nos ensina santo Inácio, na escola o elemento principal consiste em aprender a ser magnânimo. A magnanimidade: esta virtude dos grandes e dos pequenos (Non coerceri maximo contineri minimo, divinum est), que nos faz fitar sempre o horizonte! O que quer dizer ser magnânimo? Significa ter um coração grande, ter grandeza de espírito, quer dizer ter grandes ideais, o desejo de realizar maravilhas para responder àquilo que Deus nos pede e, precisamente por isso, realizar bem as actividades de cada dia, todos os trabalhos quotidianos, os compromissos, os encontros com as pessoas; cumprir as pequenas tarefas de cada dia com um coração grande, aberto a Deus e ao próximo. Então, é importante cuidar da formação humana, destinada à magnanimidade. A escola não amplia apenas a vossa dimensão intelectual, mas também a humana. E penso que de modo particular as escolas dos Jesuítas estão atentas a desenvolver as virtudes humanas: a lealdade, o respeito, a fidelidade e o compromisso. Gostaria de meditar sobre dois valores fundamentais: a liberdade e o serviço. Em primeiro lugar, sede pessoas livres! O que quero dizer? Talvez pensemos que a liberdade consiste em fazermos tudo o que queremos; ou então, em aventurar-nos em experiências extraordinárias, para sentir a inebriação e vencer o tédio. Isto não é liberdade. Liberdade quer dizer saber ponderar sobre o que fazemos, saber avaliar o que é bem e o que é mal, quais são os comportamentos que nos fazem crescer, quer dizer escolher sempre o bem. Somos livres para o bem. E nisto não tenhais medo de ir contra a corrente, embora não seja fácil! Ser livre para escolher sempre o bem é algo exigente, mas fará de vós pessoas dotadas de espinha dorsal, que sabem enfrentar a vida, pessoas com coragem e paciência (parresia e ypomoné). A segunda palavra é serviço. Nas vossas escolas participais em várias actividades que vos habituam a não vos fechardes em vós mesmos, nem no vosso pequeno mundo, mas a abrir-vos aos outros, especialmente aos mais pobres e necessitados, a trabalhar para melhorar o mundo em que vivemos. Sede homens e mulheres com os outros e a favor dos outros, verdadeiros campeões no serviço ao próximo.

Para ser magnânimo com liberdade interior e espírito de serviço é necessária a formação espiritual. Queridos adolescentes e jovens, amai cada vez mais Jesus Cristo! A nossa vida é uma resposta à sua chamada, e vós sereis felizes e construireis bem a vossa vida, se souberdes responder a esta chamada. Senti a presença do Senhor na vossa vida. Ele está perto de cada um de vós como companheiro, como amigo, que sabe ajudar-vos e compreender-vos, que vos encoraja nos momentos difíceis e nunca vos abandona. Na oração, no diálogo com Ele, na leitura da Bíblia, descobrireis que Ele está verdadeiramente próximo. E aprendei também a interpretar os sinais de Deus na vossa vida! Ele fala-nos sempre, também através dos acontecimentos da nossa época e da nossa existência de cada dia; cabe a nós ouvi-lo.

Não quero demorar-me demasiado, mas gostaria de dirigir uma palavra específica inclusive aos educadores: aos Jesuítas, aos professores, aos responsáveis das vossas escolas e aos vossos pais. Não desanimeis diante das dificuldades apresentadas pelo desafio educativo! Educar não é uma profissão, mas uma atitude, um modo de ser; para educar é preciso sair de si mesmo e permanecer no meio dos jovens, acompanhá-los nas etapas do seu crescimento, pondo-se ao seu lado. Dai-lhes esperança, optimismo para o seu caminho no mundo. Ensinai-lhes a ver a beleza e a bondade da criação e do homem, que conserva sempre os vestígios do Criador. Mas sobretudo com a vossa vida, sede testemunhas daquilo que comunicais. Um educador — Jesuíta, professor, responsável, pai e mãe — transmite conhecimentos e valores com as suas palavras, mas só será incisivo sobre os jovens se acompanhar as palavras com o testemunho, com a sua coerência de vida. Sem coerência não é possível educar! Sois todos educadores, não há delegações neste campo. Então, a colaboração em espírito de unidade e de comunidade entre os vários componentes educativos é essencial e deve ser favorecida e alimentada. O colégio pode e deve ser catalisador, ser lugar de encontro e de convergência de toda a comunidade educadora, com a única finalidade de formar, ajudar a crescer como pessoas maduras, simples, competentes e honestas, que saibam amar com fidelidade, que saibam levar a vida como uma resposta à vocação de Deus, e a profissão futura como um serviço à sociedade. Além disso, gostaria de dizer aos Jesuítas que é importante alimentar o seu compromisso no campo educativo. As escolas constituem um instrumento inestimável, a fim de dar uma contribuição para o caminho da Igreja e da sociedade inteira. De resto, o campo educativo não se limita à escola convencional. Procurai com coragem novas formas de educação não convencionais, segundo «as necessidades dos lugares, dos tempos e das pessoas».

Enfim, dirijo uma saudação a todos os ex-alunos presentes, aos representantes das escolas italianas da Rede de Fé e Alegria, que conheço bem graças ao grande trabalho que leva a cabo na América do Sul, de modo especial entre as camadas mais pobres. E dirijo uma saudação particular à delegação do Colégio albanês de Shkodër, que depois dos longos anos de repressão das instituições religiosas, a partir de 1994 retomou a sua actividade, acolhendo e educando jovens católicos, ortodoxos, muçulmanos e até alguns alunos nascidos em contextos familiares agnósticos. Assim a escola torna-se um lugar de diálogo e de confronto tranquilo, para promover atitudes de respeito, escuta, amizade e espírito de colaboração.

Caros amigos, agradeço-vos a todos este encontro. Confio-vos à intercessão materna de Maria e acompanho-vos com a minha bênção: o Senhor está sempre próximo de vós, ergue-vos quando caís e impele-vos a crescer e a realizar escolhas cada vez mais altas, «con grande ánimo y liberalidad», com magnanimidade. Ad Maiorem Dei Gloriam!

 


Queridos alunos, queridos jovens!

Preparei este discurso para vo-lo dizer, mas… são cinco páginas! Torna-se um bocado chato... Vamos fazer o seguinte: eu farei um breve resumo e, depois, entrego o que está aqui escrito ao Padre Provincial – dá-lo-ei também ao Padre Lombardi – para que todos o tenhais por escrito. Em seguida, é possível que alguns de vós queiram fazer qualquer pergunta e podemos dialogar um pouco. Gostais assim ou não? Sim?! Então sigamos por esta estrada.

O primeiro assunto deste discurso escrito: na educação dada por nós, jesuítas, o ponto-chave – para o nosso desenvolvimento pessoal – é a magnanimidade. Devemos ser magnânimos, com um coração grande, sem medo. Há que apostar sempre em grandes ideais. Mas magnanimidade também nas pequenas coisas, nas coisas de todos os dias. O coração amplo, o coração grande. É importante encontrar esta magnanimidade com Jesus, na contemplação de Jesus. Jesus é aquele que nos abre as janelas no horizonte. Magnanimidade significa caminhar com Jesus, com o coração atento àquilo que Jesus nos diz. Nesta linha, queria dizer algo aos educadores, aos professores das escolas e aos pais. Educar. Na educação, há um equilíbrio a respeitar, há que equilibrar bem os passos: um passo firme na zona de segurança, mas o outro entrando na área de risco. E quando este risco se torna segurança, o passo seguinte procura outra zona de risco. Não é possível educar permanecendo só na área de segurança: não. Isto é impedir a personalidade de crescer. Mas também não se pode educar apenas na zona de risco: é demasiado perigoso. Importante este equilíbrio dos passos… fixai-o bem.

Chegámos à última página. A vós, educadores, quero encorajar-vos também a procurar formas de educação novas, não convencionais, segundo as necessidades dos lugares, dos tempos e das pessoas. Isto é importante na nossa espiritualidade inaciana: avançar sempre «mais», e não ficar tranquilos nas coisas convencionais. Procurar novas formas de acordo com os lugares, os tempos e as pessoas. Encorajo-vos a fazer isso.

E agora estou pronto a responder a algumas perguntas que queirais fazer: os alunos, os educadores. Estou à vossa disposição. Pedi ao Padre Provincial que me desse uma mão nisto.

Um aluno: Sou Francisco Bassani, do Instituto Leão XIII. Sou um aluno que – como escrevi na carta dirigida a ti, Papa – procura acreditar. Eu procuro... procuro (é verdade!) ser fiel. Mas tenho dificuldades. Às vezes surgem-me dúvidas, penso que isto seja normal na minha idade. Dado que és o Papa que, segundo creio, conservarei por mais tempo no coração, na minha vida, porque te encontro na minha fase da adolescência, do crescimento, queria pedir-te qualquer palavra que pudesse apoiar-me neste crescimento, apoiar-me a mim e a todos os alunos.

Papa Francisco: Caminhar é uma arte, porque, se caminhamos sempre acelerados, cansamo-nos e não podemos chegar ao fim, ao fim do caminho. Mas, se paramos e não caminhamos, também não chegamos ao fim. A arte de caminhar é precisamente fixar o horizonte, pensando para onde quero ir, mas é também suportar o cansaço do caminho. E, muitas vezes, o caminho é difícil, não é fácil. «Quero permanecer fiel a este caminho, mas não é fácil. Sabes?! Há a escuridão, há dias de escuridão, e mesmo dias de fracasso e também dias de queda: uma pessoa caiu, caiu». Fixai isto no pensamento: não tenhais medo dos fracassos, não tenhais medo das quedas. Na arte de caminhar, o que importa não é tanto não cair, como sobretudo não «ficar caído»: levantar-se depressa, logo, e continuar a caminhar. Isto é bom: esforçar-se todos os dias, eis o que é caminhar humanamente. Mas também é ruim caminhar sozinho, é mau e chato. Caminhai em comunidade, com os amigos, com aqueles que nos amam: isto ajuda-nos, ajuda-nos precisamente a chegar à meta para onde devemos ir. Não sei se respondi à tua pergunta. Estás de acordo? Não terás medo do caminho? Obrigado.

Uma aluna: Sou Sofia Grattarola do Instituto Maximiano Máximo. Queria perguntar-lhe: quando frequentavas a escola primária como todas as crianças, certamente tinhas amigos; agora, sendo Papa, ainda vês esses amigos?

Papa Francisco: Sou Papa há dois meses e meio. Os meus amigos estão a 14 horas de avião daqui, estão longe. Mas, quero dizer-te uma coisa: três deles vieram ver-me e saudar-me; vejo-os, escrevem-me, e amo-os muito. Não se pode viver sem amigos: isto é importante, é importante.

Uma menina: Sou Teresa. Francisco, querias ser Papa?

Papa Francisco: Tu sabes o que significa uma pessoa perder o amor a si mesma? Se uma pessoa quisesse, tivesse ambição de ser Papa, não se amaria a si mesma. Deus não abençoa isso. Não, eu não queria ser Papa. Entendido?

Uma senhora: Santidade, somos Mónica e Antonella do grupo coral dos Alunos do Céu do Instituto Social de Turim. Tendo sido educadas nas escolas dos jesuítas, muitas vezes fomos convidadas a reflectir sobre a espiritualidade de Santo Inácio; queria perguntar-lhe: no momento em que escolheu a vida consagrada, o que é que o levou a ser jesuíta em vez de padre diocesano ou de outra Ordem? Obrigado.

Papa Francisco: Estive hospedado várias vezes no Instituto Social de Turim. Conheço-o bem. O que mais me atraía na Companhia [de Jesus] era a missionariedade. Queria tornar-me missionário; e, quando estudava teologia, escrevi ao Geral, que era o Padre Arrupe, pedindo que me mandasse, me enviasse para o Japão ou outro lugar. Mas ele pensou um pouco e disse-me, com muita caridade: «Tu tiveste uma doença no pulmão, que não está bastante bom para um trabalho tão forte». E fiquei em Buenos Aires... Mas, foi tão bom o Padre Arrupe, que não me disse: «Tu não és suficientemente santo para te tornares um missionário». Era bom, tinha caridade. Enfim, o que mais me impeliu a tornar-me jesuíta foi a missionariedade: queria partir, ir para as missões anunciar Jesus Cristo. Penso que isto seja precisamente a nossa espiritualidade: partir, sair, sair sempre para anunciar Jesus Cristo, e não ficar de algum modo fechados nas nossas estruturas, muitas vezes estruturas caducas. Foi isto o que me moveu. Obrigado!

Uma senhora: Sou Catarina De Marchis do Instituto Leão XIII e não cesso de me perguntar: Por que motivo o senhor, isto é, tu renunciaste a todas as riquezas de um Papa, como um apartamento luxuoso ou um automóvel enorme, para, em vez disso, ires habitar num pequeno apartamento situado nas vizinhanças ou tomares o autocarro com os Bispos? Por que motivo renunciaste à riqueza?

Papa Francisco: Acho que não é questão apenas de riqueza; a meu ver, trata-se de algo ligado com a minha maneira pessoal de ser, a minha personalidade. A questão está aqui! Eu preciso de viver no meio da gente e, se tivesse de viver sozinho, provavelmente um pouco isolado, não me faria bem. A mesma pergunta me fez um professor: «Mas porque é que não vais morar para lá?» Respondi: «Pode crer-me, professor: por motivos psiquiátricos». É a minha personalidade. Aliás, senhora, não se aflija que o apartamento [do Palácio Pontifício] não é muito luxuoso… mas não posso viver sozinho, entende? Além disso, acho que é melhor assim: os nossos dias falam-nos de tanta pobreza no mundo, e isto é um escândalo. A pobreza do mundo é um escândalo. Num mundo onde há tantas, tantas riquezas, tantos recursos para dar de comer a todos, não se pode entender que hajam tantas crianças famintas, tantas crianças sem instrução, tantos pobres! Hoje, a pobreza é um grito. Todos nós devemos pensar se podemos tornar-nos um pouco mais pobres: isto mesmo… todos o devemos fazer. Como posso tornar-me um pouco mais pobre para me assemelhar melhor a Jesus, que era o Mestre pobre? Aqui está o ponto decisivo. Não se trata de um problema de virtude pessoal; é só que não posso viver sozinho. E o mesmo se diga acerca do automóvel: é assim, para não ter tantas coisas e tornar-se um pouco mais pobre.

Um aluno: O meu nome é Eugénio Serafini; sou do Instituto CEI, Centro Educativo Inaciano. Queria fazer-lhe uma pequena pergunta que se refere não ao momento de se tornar Papa, mas quando decidiu ser pároco, tornar-se jesuíta: Como fez? Não sentiu dificuldade em abandonar ou deixar a família, os amigos?

Papa Francisco: Senti. É sempre difícil, sempre. Para mim, foi difícil. Não é fácil. Há momentos estupendos, e Jesus ajuda-te, dá-te um pouco de alegria. Mas há também momentos difíceis, em que te sentes sozinho, te sentes árido, sem alegria interior. Há momentos escuros, momentos de escuridão interior. Há dificuldades, é verdade! Mas é tão bom seguir Jesus, caminhar pela estrada de Jesus, que tu vês que vale a pena e segues em frente. E depois chegam momentos ainda mais belos. Mas ninguém deve pensar que, na vida, não haja dificuldades. Agora gostaria eu de fazer uma pergunta: Como pensais avançar, com as dificuldades? Não é fácil. Mas devemos ir para diante com coragem e confiança no Senhor. Com o Senhor, pode-se tudo.

Uma jovem: Salve! O meu nome é Frederica Iaccarino e venho do Instituto Pontano de Nápoles. Gostava de pedir uma palavra para os jovens de hoje, sobre o futuro dos jovens de hoje, já que a Itália se encontra numa situação de grande dificuldade. Queria pedir uma ajuda para conseguirmos fazê-la melhorar, uma ajuda para nós, para poder guiar estes alunos, nós e os alunos.

Papa Francisco: Tu dizes que a Itália está num momento difícil. É verdade, há uma crise. Mas eu diria: não só a Itália... todo o mundo, num momento, se encontrou em crise. A crise! A crise não é uma coisa ruim; é verdade que nos faz sofrer, mas devemos – principalmente vós, jovens – saber ler a crise. Que significa esta crise? Que devo fazer para ajudar a sair da crise? A crise, que estamos a viver neste momento, é uma crise humana. Dizem: é uma crise económica, é uma crise de trabalho. Sim, é verdade! Mas porquê? Este problema do trabalho, este problema na economia é consequência do grande problema humano. Aquilo que está em crise é o valor da pessoa humana, e nós devemos defender a pessoa humana. Neste momento, recordo... – eu já contei isto três vezes, mas fá-lo-ei uma quarta – recordo a história que li uma vez, a história contada por um rabino medieval do ano 1200. Este rabino explicava aos judeus daquele tempo a história da Torre de Babel. Construir a Torre de Babel não era fácil: tinham-se de fazer os tijolos. E como se fazem os tijolos? Tinha-se de procurar o barro e a palha, misturá-los e levá-los ao forno: era um trabalhão. Com este trabalho todo, um tijolo tornava-se um verdadeiro tesouro! Depois havia que levar os tijolos lá para cima, para a construção da Torre de Babel. Se um tijolo caía, era uma tragédia; castigavam o trabalhador que o deixara cair... era uma tragédia! Mas, se porventura caía um homem, não acontecia nada! Esta é a crise que estamos a viver hoje: esta é a crise da pessoa. Hoje a pessoa não conta; contam os euros, conta o dinheiro. Ora Jesus, Deus deu o mundo, deu toda a criação, não ao dinheiro, mas à pessoa, ao homem e à mulher, para que a fizessem progredir. É uma crise da pessoa... está em crise, porque hoje a pessoa – atenção, isto é verdade – é escrava! E nós temos de nos libertar destas estruturas económicas e sociais que nos escravizam. Esta é a vossa tarefa.

Uma criança: Olá! Sou Francisco Vin, e venho do Colégio Santo Inácio de Messina. Queria saber se já estiveste na Sicília.

Papa Francisco: Não. Posso dizer de duas formas: não; ou: ainda não.

A criança: Se vieres, lá te esperamos!

Papa Francisco: Mas digo-te uma coisa: conheço um filme muito belo sobre a Sicília; um filme que vi há dez anos e que se chama Kaos, com o «k»: Kaos. Trata-se de um filme feito a partir de quatro histórias de Pirandello; é um filme muito lindo. Pude ver todas as belezas da Sicília. Isto é tudo o que conheço da Sicília. Mas é linda!

Um professor: Sou professor de espanhol, porque sou espanhol: sou de San Sebastian. Mas sou professor também de religião, e posso dizer que nós, os mestres, os professores, o amamos muito. Pode ter a certeza. Não falo em nome de ninguém, mas ao ver tantos ex-alunos, muitos deles autoridades, e também nós, adultos, professores, educados pelos jesuítas, interrogo-me sobre o nosso compromisso político, social, na sociedade, como adultos nas escolas jesuítas. Dê-nos alguma ideia: Como pode hoje o nosso compromisso, o nosso trabalho na Itália, no mundo, ser jesuíta, como pode ser evangélico?

Papa Francisco: Muito bem. Para o cristão, é uma obrigação envolver-se na política. Nós, cristãos, não podemos «jogar a fazer o Pilatos», lavar as mãos. Não podemos! Devemos envolver-nos na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. E os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ás: «Não é fácil!» Também não é fácil tornar-se padre. Não há coisas fáceis na vida. Não é fácil; a política está muito suja; e ponho-me a pergunta: Mas está suja, porquê? Não será porque os cristãos se envolveram na política sem espírito evangélico? Deixo-te esta pergunta: É fácil dizer que «a culpa é de fulano», mas eu que faço? É um dever! Trabalhar para o bem comum é um dever do cristão! E, muitas vezes, a opção de trabalho é a política. Há outras estradas: professor, por exemplo, é outra estrada. Mas a actividade política em prol do bem comum é uma das estradas. Isto é claro.

Um jovem: Santo Padre, chamo-me Tiago. Na realidade, não estou aqui sozinho hoje, mas trago comigo um grande número de alunos que são os da Liga Missionária de Estudantes. É um movimento de algum modo transversal, pelo que, na Liga Missionária de Estudantes, temos um pouco de todos os Colégios. Assim, Santo Padre, em primeiro lugar o nosso agradecimento, o meu e o de todos os alunos que ouvi mesmo nestes dias: é que, finalmente, consigo encontramos aquela mensagem de esperança que, antes, nos víamos obrigados a encontrar vagando pelo mundo. Agora, ao ouvi-lo na nossa casa, sentimos algo de muito forte em nós. Sobretudo, Santo Padre – deixe-mo dizer –, esta luz acendeu-se precisamente no ponto onde nós, jovens, começávamos realmente a perder a esperança. Por isso, obrigado, porque nos tocou verdadeiramente no íntimo. A minha pergunta é esta: Santo Padre, nós, como bem sabe pela sua experiência, aprendemos a experimentar, a conviver com vários tipos de pobreza, que são a pobreza material – penso na pobreza da localidade com que nos geminamos no Quénia – a pobreza espiritual – penso na Roménia, penso nas chagas das vicissitudes políticas, penso no alcoolismo. Nesta linha, Santo Padre, quero perguntar-lhe: Como podemos, nós jovens, conviver com esta pobreza? Como devemos comportar-nos?

Papa Francisco: Antes de mais nada, gostava de dizer uma coisa a todos vós, jovens: não deixeis que vos roubem a esperança! Por favor, não vo-la deixeis roubar! E quem é que te rouba a esperança? O espírito do mundo, as riquezas, o espírito da vaidade, a soberba, o orgulho. Todas essas coisas roubam-te a esperança. Onde encontro a esperança? Em Jesus pobre, em Jesus que Se fez pobre por nós. Tu falaste de pobreza. A pobreza chama-me a semear esperança, para ter, também eu, mais esperança. Isto pode parecer um pouco difícil de entender, mas recordo que uma vez o Padre Arrupe escreveu uma boa carta aos Centros de pesquisa social, aos Centros sociais da Companhia. Lá explicava como se deve estudar o problema social. Mas concluía, dizendo a todos nós: «Olhai, não se pode falar de pobreza, sem fazer experiência com os pobres». Tu falaste da geminação com o Quénia: a experiência com os pobres. Não se pode falar de pobreza, de pobreza abstracta... esta não existe! A pobreza é a carne de Jesus pobre, na criança que tem fome, na pessoa que está doente, nas estruturas sociais que são injustas. Ide, vede nos fundos marginalizados a carne de Jesus; mas não deixeis que vos roube a esperança o bem-estar, o espírito do bem-estar que, no fim, faz de ti um nada na vida! O jovem deve apostar em altos ideais: este é o meu conselho. Mas a esperança, onde a encontro? Na carne de Jesus sofredor e na verdadeira pobreza. As duas estão interligadas. Obrigado.

Agora dou a todos... a vós, às vossas famílias, a todos a Bênção do Senhor.

 




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