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DIÁLOGO DO PAPA FRANCISCO
COM OS ALUNOS DOS PONTIFÍCIOS COLÉGIOS
E INTERNATOS DE ROMA

Sala Paulo VI
Segunda-feira, 12 de Maio de 2014

 

Bom dia, e agradeço-vos muito esta presença. Agradeço ao Cardeal Stella as suas palavras, e peço desculpa pelo atraso. Sim, porque estão aqui os Bispos mexicanos em visita ad limina... e quando se está com os mexicanos, está-se tão bem, tão bem, que não nos damos conta do tempo que passa!

Aos 146 de vós que provindes de países do Médio Oriente, alguns também da Ucrânia, desejo dizer que estou muito próximo de vós neste momento de sofrimento: deveras, muito próximo, e na oração. Sofre-se tanto, na Igreja; a Igreja sofre tanto e a Igreja sofredora é também a Igreja perseguida nalgumas partes, e estou-vos próximo. Obrigado. E agora gostaria que... Havia perguntas, eu li-as, mas se as quiserdes trocar ou fazê-las de modo mais espontâneo, nenhum problema, com a máxima liberdade!

Bom dia, Santo Padre. Chamo-me Daniel, venho dos Estados Unidos, sou diácono e estou no Colégio Norte-Americano. Viemos a Roma sobretudo para uma formação académica e para assumir este compromisso. Como fazer para não descuidar uma formação sacerdotal integral, quer a nível pessoal quer comunitário? Obrigado.

Obrigado pela pergunta. É verdade: a vossa principal finalidade, aqui, é a formação académica: licenciar-se nisto, naquilo... Mas há o perigo do academicismo. Sim, os Bispos enviam-vos para cá para que obtenhais uma licenciatura, mas também para que regresseis à diocese. Mas na diocese deveis trabalhar no presbitério, como presbíteros, presbíteros formados. E se se cai neste perigo do academicismo, já não regressa o padre, mas o «doutor». E isto é perigoso. Há quatro pilares na formação sacerdotal: eu já disse isto muitas vezes, talvez o tenhais ouvido.

Quatro pilares: a formação espiritual, a formação académica, a formação comunitária e a formação apostólica. É verdade que aqui, em Roma, se acentua — foi para isto que viestes — a formação intelectual; mas os outros três pilares devem ser cultivados, e os quatro interagem entre si, e eu não posso entender um padre que vem formar-se aqui, em Roma, e que não tem uma vida comunitária, isso não é bom. Ou não cuida da vida espiritual — a Missa diária, a oração quotidiana, a lectio divina, a oração pessoal com o Senhor — ou da vida apostólica: no fim-de-semana é preciso fazer alguma coisa, mudar um pouco de ar, mas também de ar apostólico, fazer ali algo... É verdade que o estudo é uma dimensão apostólica; mas é importante que também os outros três pilares sejam cuidados! O purismo académico não faz bem, não faz bem. Por isso gostei da tua pergunta, porque me dá a oportunidade de vos dizer estas coisas. O Senhor chamou-vos a ser sacerdotes, a ser presbíteros: esta é a regra fundamental. E há outra coisa que gostaria de focalizar: se se vê só a parte académica, há o perigo de escorregar nas ideologias, e isto faz adoecer. Faz adoecer também o conceito de Igreja. Para compreender a Igreja é preciso compreendê-la com o estudo mas também com a oração, com a vida comunitária e apostólica. Quando escorregamos numa ideologia, e vamos por essa estrada, temos uma hermenêutica não cristã, uma hermenêutica da Igreja ideológica. E isto faz mal, é uma doença. A hermenêutica da Igreja deve ser a hermenêutica que a Igreja mesmo proporciona, que a Igreja nos dá. Compreender a Igreja com olhos de cristão; compreender a Igreja com mente de cristão; compreender a Igreja com coração de cristão; compreender a Igreja pela actividade cristã. De outro modo, não se compreende a Igreja ou então compreendemo-la mal. Por isso é importante frisar, sim, o trabalho académico, porque foi para isto que fostes enviados; mas não descuideis os outros três pilares: a vida espiritual, a vida comunitária e a vida apostólica. Não sei se isto responde à tua pergunta... Obrigado.

Bom dia, Santo Padre. Chamo-me Tomás, da China. Sou seminarista do Colégio Urbano. Por vezes, viver em comunidade não é fácil: o que nos aconselha, partindo também da sua experiência, para fazer da nossa comunidade um lugar de crescimento humano e espiritual e de prática da caridade sacerdotal?

Uma vez, um bispo idoso da América Latina disse: «É muito melhor o pior seminário do que o não-seminário». Se uma pessoa se prepara sozinha para o sacerdócio, sem comunidade, isto faz mal. A vida do seminário, ou seja, a vida comunitária, é muito importante. É muito importante porque há a partilha entre os irmãos, que caminham rumo ao sacerdócio; mas há também problemas, há lutas; lutas de poder, de ideias, até lutas sub-reptícias; e verificam-se os pecados capitais: a inveja, o ciúme... Mas também coisas boas: a amizade, o intercâmbio de ideias, e isto é o importante da vida comunitária. A vida comunitária não é o paraíso, é pelo menos o purgatório — não, não é isso... [riem], mas não é o paraíso! Um santo jesuíta dizia que a maior penitência, para ele, era a vida comunitária. É verdade, não é? Por isso penso que devemos ir em frente, na vida comunitária. Mas como? Há quatro ou cinco coisas que nos ajudam muito. Nunca, nunca falar mal dos outros. Se tenho algo contra o outro, ou se não concordo: dizê-lo directamente! Mas nós clérigos temos a tentação de não falar directamente, de ser demasiado diplomáticos, aquela linguagem clerical... Mas, faz-nos mal! Recordo que uma vez, há 22 anos: acabado de ser nomeado bispo, tinha como secretário naquela «vigariaria» — Buenos Aires está dividida em quatro «vigariarias» — naquela «vigariaria» eu tinha como secretário um sacerdote jovem, ordenado de recente. E eu, nos primeiros meses, fiz algo, e tomei uma decisão um pouco diplomática — demasiado diplomática — e com as consequências que derivam destas decisões que não são tomadas no Senhor, não? E no fim, disse-lhe: «Mas repara, que problema, não sei como resolvê-lo...». E ele olhou para mim — um jovem! — e disse: «Vossa Excelência fez mal. Não tomou uma decisão paterna», e disse-me três ou quatro coisas fortes! Muito respeitoso, mas disse-as. E depois, quando foi embora, eu pensei: «Nunca o vou afastar do lugar de secretário: ele é um verdadeiro irmão!». Ao contrário, aqueles que te dizem coisas agradáveis na cara e depois, pelas costas, coisas não tão belas... Isto é importante... As indiscrições são a peste de uma comunidade; falemos directamente, sempre. E se não se tem a coragem de falar na cara, fala com o superior ou com o director, e ele ajudar-te-á. Mas não se deve ir pelos quartos dos companheiros para falar mal! Diz-se que mexerico é coisa de mulher, mas também dos homens, também nossa! Nós bisbilhotamos bastante! E isto destrói a comunidade. Depois, outra coisa é ouvir, escutar as opiniões diversas e discutir as opiniões, mas bem, procurando a verdade, a unidade: isto ajuda a comunidade. O meu padre espiritual, certa vez — eu estudava filosofia; ele era um filósofo, um metafísico, mas era um bom padre espiritual — fui ter com ele e apresentou-se o problema que eu sentia raiva de uma pessoa: «Mas, dele, porque isto, isso e aquilo...»; disse ao padre espiritual tudo o que tinha dentro. E ele fez-me uma só pergunta: «Diz-me, tu rezaste por ele?». Nada mais. E eu disse: «Não». E ele ficou em silêncio. «A conversa terminou», disse-me. Rezar, rezar por todos os membros da comunidade, mas rezar sobretudo por aqueles com os quais tenho problemas ou dos quais eu não gosto, porque não gostar de uma pessoa algumas vezes é natural, instintivo. Rezar, e o Senhor fará o resto, mas rezar sempre. A oração comunitária. Estas duas coisas — não queria falar tanto — mas garanto-vos que se vós fizerdes estas duas coisas, a comunidade vai em frente, pode-se viver bem, pode-se discutir bem, pode-se rezar bem juntos. Duas pequenas coisas: não falar mal dos outros e rezar por aqueles com os quais temos problemas. Posso dizer mais, mas penso que isto é suficiente.

Bom dia, Santo Padre.

Bom dia.

Chamo-me Charbel, sou um seminarista do Líbano e estou a formar-me no Colégio Sedes Sapientiae. Antes de formular a pergunta, gostaria de agradecer a Vossa Santidade a proximidade ao nosso povo no Líbano e em todo o Médio Oriente. A minha pergunta é esta: no ano passado, Vossa Santidade deixou a sua terra e a sua Pátria. Que nos recomenda para gerir melhor a nossa chegada e estadia em Roma?

Mas, é diferente... a sua chegada a Roma, em relação à transferência de diocese que se deu comigo: é um pouco diferente, mas está bem... Recordo a primeira vez que deixei [a minha terra] para vir estudar aqui... Primeiro há a novidade, é a novidade das coisas, e devemos ser pacientes connosco. Os primeiros tempos é como um tempo de noivado: tudo é belo, ah, as novidades, as coisas...; mas isto não deve ser repreendido, é assim! Acontece isto a todos, acontece a todos que as coisas sejam assim. E depois, voltando a um dos pilares, antes de tudo a integração na vida da comunidade e na vida do estudo, directamente. Vim para isto, para fazer isto. E depois, procurar um trabalho para o fim-de-semana, um trabalho apostólico, é importante. Não ficar fechado e não ser dispersivo. Mas os primeiros tempos são a fase da novidade: «Gostaria de fazer isto, de visitar aquele museu, de ver este filme, ou isto e aquilo...». Mas em frente, não vos preocupeis, é normal que isto aconteça. Mas depois, levar a sério. O que vim fazer? Estudar. Estuda a sério! E aproveita das muitas oportunidades que esta estadia te proporciona. A novidade das universalidades: conhecer pessoas de tantos lugares diferentes, de muitos países diversos, de tantas culturas diferentes; a oportunidade do diálogo entre vós: «Mas como é isto na tua pátria? E aquilo? E na minha é...»; este intercâmbio faz muito bem, muito bem. Penso que simplesmente não falaria mais. Mas não vos assusteis com aquela alegria das novidades: é a alegria do primeiro noivado, antes que comecem os problemas. E em frente. Depois, levar a sério.

Bom dia, Santo Padre. Chamo-me Daniele Ortiz e sou mexicano. Aqui em Roma vivo no Colégio Maria Mater Ecclesiae. Em fidelidade à nossa vocação precisamos de um discernimento constante, vigilância e disciplina pessoal. Como fez Vossa Santidade quando era seminarista, quando era sacerdote, quando foi bispo e agora que é Pontífice? E que nos aconselha a este propósito? Obrigado.

Obrigado. Tu pronunciaste a palavra vigilância. Esta é uma atitude cristã: a vigilância. A vigilância sobre ti mesmo: o que acontece no meu coração? Porque o meu tesouro está onde o meu coração estiver. O que acontece ali? Os Padres orientais dizem que se deve conhecer bem se o meu coração é uma turbulência ou se está tranquilo. Primeira pergunta: vigilância sobre o coração: está em turbulência? Se está em turbulência, não se pode ver o que tem dentro. Como o mar, não é? Não se vêem os peixes, quando o mar está assim... O primeiro conselho, quando o coração está turbulento, é o conselho dos Padres russos: ir sob o manto da Santa Mãe de Deus. Recordai-vos que a primeira antífona latina é precisamente esta: em tempos de turbulência, procurar refúgio sob o manto da Santa Mãe de Deus. É a antífona «Sub tuum presidium confugimus, Sancta Dei Genitrix»: é a primeira antífona latina de Nossa Senhora. É curioso, não é? Vigiar. Há turbulência? Antes de tudo, ir lá, e esperar lá que haja um pouco de calma: com a oração, com a entrega a Nossa Senhora... Algum de vós dir-me-á: «Mas, Padre, neste tempo de tanta modernidade boa, da psiquiatria, da psicologia, nestes momentos de turbulência penso que seria melhor ir ao psiquiatra para que me ajude...». Não digo que não, mas antes de tudo ir ter com a Mãe: porque a um sacerdote que se esquece da Mãe, e sobretudo nos momentos de turbulência, falta-lhe algo. É um padre órfão: esqueceu-se da sua mãe! É nos momentos difíceis que a criança procura a mãe, sempre. E nós somos crianças, na vida espiritual, nunca esqueçamos isto! Vigiar sobre como está o meu coração. Tempo de turbulência, ir procurar refúgio sob o manto da Santa Mãe de Deus. Assim dizem os monges russos, e na realidade é assim. Depois, que faço? Procuro compreender o que acontece, mas sempre em paz. Compreender em paz. Depois volta a paz e posso fazer a discussio conscientiae. Quando estou em paz, não há turbulência: «Que aconteceu hoje no meu coração?». E isto é vigiar. Vigiar não significa ir à sala de torturas, não! Significa olhar para o coração. Nós devemos ser donos do nosso coração. Que sente o meu coração, o que procura? O que me faz hoje feliz e o que não me fez feliz? Nunca findar o dia sem fazer isto. Uma pergunta que faço, como bispo, aos sacerdotes é: «Diz-me, como vais dormir?». «Oh, destruído, Padre, porque há tanto trabalho, a paróquia, tanto... Depois janto algo, como depressa e vou para a cama, vejo televisão e descontraio-me um pouco...». «E antes não passas pelo tabernáculo?». Há coisas que nos mostram onde está o nosso coração. Nunca, nunca — e isto é vigilância! — findar o dia sem ir ali um pouco, diante do Senhor; olhai e perguntai: «Que aconteceu no meu coração?». Nos momentos tristes, nos momentos felizes: como era aquela tristeza, como era aquela alegria? Isto é vigilância. Vigiar também sobre as depressões e entusiasmos. «Hoje sinto-me abatido, não sei o que acontece». Vigiar: porque me sinto abatido? Talvez convenha que vás falar com alguém que te ajude?... Isto é vigilância. «Oh, sinto-me contente!». Mas por que me sinto contente, hoje? Que aconteceu no meu coração? Isto não é uma introspecção estéril, não, não! É conhecer o estado do meu coração, a minha vida, como caminho pela via do Senhor. Porque, se não há vigilância, o coração disperde-se; e a imaginação vai atrás: «vai, vai...»; e depois pode acabar mal. Gosto da pergunta sobre a vigilância. Estas não são coisas antigas, não são coisas superadas. São coisas humanas, e como todas as coisas humanas, são eternas. Levá-las-emos sempre connosco. Vigiar sobre o coração era precisamente a sabedoria dos primeiros monges cristãos; ensinavam isto, a vigiar sobre o coração.

Posso fazer um parêntese? Por que falei de Nossa Senhora? Aconselho-vos o que vos disse há pouco, procurar refúgio... Um bom relacionamento com Nossa Senhora; relação com Nossa Senhora ajuda-nos a ter um bom relacionamento com a Igreja: as duas são Mães... Conheceis o lindo trecho de santo Isaac, abade da Estrela: o que se pode dizer de Maria pode dizer-se da Igreja e também da nossa alma. As três são femininas, as três são mães, as três dão vida. A relação com Nossa Senhora é uma relação de filho... Vigiar sobre isto: se não tivermos um bom relacionamento com Nossa Senhora, haverá um pouco de orfandade no meu coração. Recordo-me, uma vez, há 30 anos, estava no Norte da Europa: tinha que ir lá para a educação da Universidade de Córdova, da qual naquele momento eu era vice-chanceler. E convidou-me uma família de católicos praticantes; aquele era um país secularizado demais. E no jantar, tinham muitos filhos, eram católicos praticantes, ambos professores universitários, e também catequistas. A um certo ponto, falando de Jesus Cristo — entusiastas de Jesus Cristo, falo de há trinta anos — disseram: «Sim, graças a Deus superámos a etapa de Nossa Senhora...». E que significa isto, perguntei. «Sim, porque descobrimos Jesus Cristo, e já não precisamos dela». Senti-me um pouco contristado, não compreendi bem. E falámos um pouco sobre este aspecto. Não é esta a maturidade! Não é maturidade, esquecer a mãe é mau... E, dizendo de outro modo: se não quiseres Nossa Senhora por Mãe, sem dúvida tê-la-ás por sogra! E isto não é bom! Obrigado.

Viva Jesus, viva Maria! Obrigado, Santo Padre, pelas suas palavras sobre Nossa Senhora. Chamo-me Inácio e venho de Manila, Filipinas. Estou a fazer a pós-graduação em mariologia na Pontifícia Faculdade Teológica Marianum, e resido no Pontifício Colégio Filipino. Santo Padre, a minha pergunta é: a Igreja precisa de pastores capazes de guiar, governar, comunicar como o mundo de hoje exige. Como se aprende e se exerce a liderança na vida sacerdotal, assumindo o modelo de Cristo que se abaixou até à cruz, e morte de cruz? Obrigado.

Mas o teu bispo é um grande comunicador!

É o Cardeal Tagle...

A liderança... é este o centro da pergunta... Há um só caminho — depois falarei dos pastores — mas no respeitante à liderança há um só caminho: o serviço. Não existe outro. Se possuíres muitas qualidades — comunicar, etc. — mas não fores um servo, a tua liderança decairá, não serve, não é capaz de convocar. Só o serviço: estar ao serviço... Recordo-me de um padre espiritual muito bom, o povo procurava-o, a ponto que às vezes não podia recitar todo o breviário. E à noite, ia diante do Senhor e dizia: «Senhor, repara, não fiz a tua vontade, mas nem sequer a minha! Fiz a vontade dos outros!». Assim, ambos — o Senhor e ele — consolavam-se. O serviço consiste em fazer, muitas vezes, a vontade dos outros. Um sacerdote que trabalhava num bairro muito pobre — muito pobre! — uma «vila miséria», uma favela, disse: «Precisaria de fechar todas as janelas, todas as portas, porque a um certo ponto é demais, é muito o que me vêm pedir: esta coisa espiritual, esta coisa material, que no fim teria vontade de fechar tudo. Mas isto não é do Senhor», dizia. É verdade: quando não há serviço, não se pode guiar um povo. O pastor deve ajudar o povo a crescer, a caminhar. Ontem, na Leitura fiquei curioso porque se lia no Evangelho a palavra «impelir»: o pastor impele as ovelhas para que vão procurar a erva. Fiquei curioso: fá-las sair, fá-las sair à força! O original tem um certo tom disto: fá-las sair, mas à força. É como escorraçar: «vai, vai!». O pastor que faz crescer o seu povo e o seu povo que caminha sempre com o seu pastor. Algumas vezes, o pastor deve ir à frente, para indicar o caminho; outras, no meio, para ver o que acontece; muitas vezes, atrás, para ajudar os últimos e também para seguir o faro das ovelhas que sabem onde está a erva boa. O pastor... Santo Agostinho, retomando Ezequiel, diz que deve estar ao serviço das ovelhas e frisa dois perigos: o pastor que explora as ovelhas para comer, para ganhar dinheiro, por interesse económico, material, e o pastor que explora as ovelhas para se vestir bem. A carne e a lã. Diz santo Agostinho. Lede aquele lindo sermão De pastoribus. É preciso lê-lo e voltar a lê-lo. Sim, são os dois pecados dos pastores: o dinheiro, tornam-se ricos e fazem as coisas por dinheiro — pastores de negócios — e a vaidade, são os pastores que se julgam num estado superior ao seu povo, indiferentes... pensemos, os pastores-príncipes. O pastor-comerciante e o pastor-príncipe. São estas as duas tentações que santo Agostinho, retomando aquele trecho de Ezequiel, menciona no seu sermão. É verdade, um pastor que se procura a si mesmo, tanto pela via do dinheiro como pela via da vaidade, não é um servo, não possui uma liderança verdadeira. A humildade deve ser a arma do pastor: humilde, sempre ao serviço. Deve procurar o serviço. E não é fácil ser humilde, não, não é fácil! Dizem os monges do deserto que a vaidade é como a cebola: tu, quando pegas numa cebola, começas a descascá-la, e sentes-te vaidoso e começas e desfolhar a vaidade. E uma, e duas, e outra folha, e outra ainda, outra, outra... no fim, obténs... nada. «Ah, graças a Deus, descasquei a cebola, descasquei a vaidade». Se fizeres assim, terás o cheiro da cebola! Assim dizem os Padres do deserto. A vaidade é assim. Certa vez ouvi um jesuíta — bom, um homem bondoso — mas era tão vaidoso, tão vaidoso... E todos lhe dizíamos: «Tu és vaidoso!», mas ele era tão bondoso que todos o perdoavam. E foi fazer os exercícios espirituais, e quando voltou disse-nos, a nós, na comunidade: Que exercícios bons!». Fiz oito dias de Céu, e achei que eu era tão vaidoso! Mas graças a Deus, venci todas as paixões!». A vaidade é assim! É muito difícil fazer com que um padre perca da vaidade. Mas o povo de Deus perdoa muitas coisas: perdoa se tiveste uma queda afectiva, perdoa. Perdoa se escorregaste com um pouco de vinho, perdoa. Mas não perdoa se fores um pastor apegado ao dinheiro, se fores um pastor vaidoso que não trata bem o povo. Porque o vaidoso não trata bem as pessoas. Dinheiro, vaidade e orgulho. Os três degraus que nos conduzem a todos os pecados. O povo de Deus compreende as nossas debilidades, e perdoa-as; mas estas duas, não as perdoa! Não perdoa o apego ao dinheiro no pastor. E não perdoa se não é tratado bem. É curioso, não é? Estes dois defeitos, devemos lutar para não os ter. Depois, a liderança deve ser no serviço, mas com um amor pessoal pelo povo. Certa vez ouvi o seguinte acerca de um pároco: «Aquele homem conhecia o nome de todas as pessoas do seu bairro, até dos cães!». É bonito! Estava próximo, conhecia cada um, sabia a história de todas as famílias, sabia tudo. E ajudava. Estava tão próximo... Proximidade, serviço, humildade, pobreza e sacrifício. Recordo os velhos párocos de Buenos Aires, quando não havia o telemóvel, a secretaria telefónica; dormiam com o telefone ao seu lado. Ninguém morria sem os Sacramentos. Chamavam-nos a todas as horas: levantavam-se e iam. Serviço, serviço. E quando eu era bispo, sofria quando telefonava para uma paróquia e me respondia uma secretaria telefónica... Assim não há liderança! Como podes guiar um povo se não o ouves, se não estás ao seu serviço? São estas as coisas que me vêm assim, um pouco... não em ordem, mas para responder à tua pergunta...

Bom dia, Santo Padre.

Bom dia.

Chamo-me Sèrge, venho dos Camarões. A minha formação está a ser feita no Colégio de São Paulo Apóstolo. Eis a pergunta: quando regressarmos às nossas dioceses e comunidades, seremos chamados a novas responsabilidades ministeriais e a novas tarefas formativas. Como podemos fazer conviver de modo equilibrado todas as dimensões da vida ministerial: a oração, os compromissos pastorais, as tarefas formativas sem descuidar nenhuma delas? Obrigado.

Há uma pergunta à qual eu não respondi: passou despercebida, talvez — o inconsciente é desonesto! — e quero relacioná-la com esta. Perguntavam-me: «Como faz Vossa Santidade, como Papa, estas coisas?». Também a tua... Responderei à tua, contando, com muita simplicidade, o que faço para não descuidar as coisas. A oração. Procuro, de manhã, recitar as laudes e também rezar um pouco, a lectio divina, com o Senhor. Quando me levanto. Primeiro leio os «cifrados», e depois faço isto. Em seguida, celebro a Missa. Depois, começa o trabalho: o trabalho que um dia é de um tipo, outro dia de outro... procuro fazê-lo seguindo uma ordem. Ao meio-dia, almoço, depois um pouco de sesta; a seguir, às três — desculpai — recito as Vésperas às três... Se não as recito àquela hora, já não as recito! Sim e também a leitura, o Ofício da leitura do dia seguinte. Depois o trabalho da tarde, as coisas que devo fazer... A seguir faço um pouco de adoração e recito o Rosário; jantar, e acaba. Este é um bom esquema. Mas certas vezes não se pode fazer tudo, porque me deixo levar por exigências imprudentes: demasiado trabalho, ou pensar que se não faço isto hoje não o farei amanhã... não se faz a adoração, nem a sesta, nem isto... E também aqui, a vigilância: vós regressareis à diocese e acontecerá convosco o que acontece comigo: é normal. O trabalho, a oração, um pouco de tempo para repousar, sair de casa, caminhar um pouco, tudo isto é importante... mas deveis regulá-lo com a vigilância e também com os conselhos... O ideal é chegar cansado ao fim do dia: isto é o ideal. Não precisar de comprimidos: acabar cansado. Mas com um bom cansaço. Com um bom cansaço, não com um cansaço imprudente, porque isto faz mal à saúde, e com o tempo paga-se caro. Olho para a cara do Sandro, que ri e diz: «Mas Vossa Santidade não faz isto!». É verdade. Este é o ideal, mas nem sempre o faço, porque também eu sou pecador, e nem sempre sou tão organizado. Mas é isto que deves fazer...

Bom dia Santo Padre, eu sou Fernando Rodriguez, sou um sacerdote novo, do México, fui ordenado há um mês, e vivo no Colégio mexicano. Vossa Santidade recordou-nos que a Igreja precisa de uma nova evangelização. Na Evangelii gaudium, Vossa Santidade analisou a preparação da pregação, a homilia e o anúncio como forma de um diálogo apaixonado entre pastor e o seu povo. Poderia voltar a falar sobre este tema da nova evangelização? E também nos perguntamos, Santidade, como deveria ser o sacerdote para a nova evangelização. Qual ou quais deveriam ser as suas características? Obrigado.

Quando são João Paulo II — eu pensava que era a primeira vez, mas depois disseram-me que não era — falou da nova evangelização, foi em Santo Domingo em 1992. E ele disse que tinha de ser nova na metodologia, no fervor, no zelo apostólico, e a terceira não me recordo... Quem se recorda? A expressão! Procurar uma expressão que se sintonize com a unicidade dos tempos. E, para mim, no Documento de Aparecida é muito claro! Este Documento de Aparecida desenvolve bem isto. Para mim a evangelização exige sair de si mesmo; requer a dimensão do transcendente: o transcendente na adoração de Deus, na contemplação, e o transcendente para com os irmãos, para com o povo. Sair de si, sair! Para mim isto é como o nó da evangelização. Sair significa chegar, ou seja, proximidade. Se não saíres de ti mesmo, não terás proximidade! Proximidade. Estar próximo das pessoas, próximo de todos, de todos aqueles aos quais devemos estar próximos. Todo o povo. Sair. proximidade. Não se pode evangelizar sem proximidade. Proximidade, mas cordial; proximidade no amor, também proximidade física; estar próximo. E tu relacionas a homilia com isto. O problema das homilias tediosas — por assim dizer — o problema das homilias tediosas é que não há proximidade. É na homilia que se mede a proximidade do pastor ao seu povo. Se na homilia, imaginemos, te prolongas por 20, 25, 30 ou 40 minutos — não são fantasias, isto acontece — e falares de coisas abstractas, de verdades da fé, não fazes uma homilia, fazes escola! É uma coisa diferente! Não estás próximo do povo. Por isso a homilia é importante: para calibrar, para conhecer bem a proximidade do sacerdote. Penso que normalmente as nossas homilias não são boas, não são precisamente do género literário homilético: são conferências, lições ou reflexões. Mas a homilia — e isto perguntai-o aos professores de teologia — a homilia na Missa, a Palavra é Deus forte, é um sacramental. Para Lutero era quase um sacramento: era ex opere operato, a Palavra pregada; para outros é ex opere operantis, apenas. Mas penso que está no centro, um pouco das duas. A teologia da homilia é quase um sacramental. É diverso do dizer duas palavras sobre um tema. É outra coisa. Supõe oração, estudo, conhecimento das pessoas às quais falarás, supõe proximidade. Na homilia, para se fazer uma boa evangelização, devemos progredir bastante, estamos atrasados. É um dos pontos da conversão dos quais hoje a Igreja precisa: preparar bem as homilias, para que o povo compreenda. E depois de oito minutos, a atenção distrai-se. Uma homilia que dura mais de oito, dez minutos não é boa. Deve ser breve, forte. Aconselho-vos dois livros, dos meus tempos, mas são bons, para este aspecto da homilia, porque vos ajudarão muito. O primeiro, «Teologia da pregação», de Hugo Rahner. Não de Karl, de Hugo. Pode-se ler bem Hugo, Karl é difícil de ler. Este é uma jóia: «Teologia da pregação». E o outro é do padre Domenico Grasso, que nos introduz no que consiste uma homilia. Penso que tem o mesmo título: «Teologia da pregação». Ajudar-vos-á bastante. A proximidade, a homilia... Há outra coisa que queria dizer... Sair, proximidade, a homilia como medida de como estou próximo do povo de Deus. E outra categoria que gosto de usar é das periferias. Quando se sai não se deve chegar só a meio caminho, mas ir até ao fim. Alguns dizem que se deve começar a evangelização pelos mais distantes, como fazia o Senhor. É isto que a tua pergunta suscita em mim. Mas este aspecto da homilia é verdadeiro: para mim é um dos problemas que a Igreja deve estudar e converter-se. As homilias, as homilias: não são fazer escola, não são conferências, são outra coisa. Agrada-me quando os sacerdotes se reúnem duas horas para preparar a homilia do domingo seguinte, porque se cria um clima de oração, de estudo, de intercâmbio de opiniões. Isto é bom, faz bem. Prepará-la com outro, muito bem.

Louvado seja Jesus Cristo! Chamo-me Voicek, vivo no Pontifício Colégio Polaco, estudo teologia moral. Santo Padre, o ministério presbiteral ao serviço do nosso povo a exemplo de Cristo e da sua missão, o que nos recomenda para permanecermos bem dispostos e alegres no serviço ao povo de Deus? Quais qualidades humanas nos aconselha e recomenda que cultivemos para sermos imagem do Bom Pastor e viver aquela a que Vossa Santidade chamou «mística do encontro»?

Falei de algumas coisas que se devem fazer, principalmente na oração. Mas parto da tua última palavra para dizer algo, que se deve acrescentar a todas as que já disse, que foram ditas e que conduzem precisamente à tua pergunta. Disses-te «mística do encontro». O encontro. A capacidade de se encontrar. A capacidade de procurar juntos o caminho, o método, muitas coisas. Este encontro. E significa também não se assustar, não se apavorar com as coisas. O bom pastor não se deve assustar. Talvez sinta receio dentro, mas nunca se assusta. Sabe que o Senhor o ajuda. O encontro com as pessoas das quais te deves ocupar na cura pastoral; o encontro com o seu Bispo. É importante o encontro com o Bispo. É importante também que o Bispo se deixe encontrar. É importante... porque algumas vezes se ouve: «Disseste isto ao teu Bispo? Sim, pedi audiência, mas já passaram quatro meses. Estou à espera!». Isto não é bom, não. Ir ter com o Bispo e que o Bispo se deixe encontrar. O diálogo. Mas sobretudo gostaria de dizer uma coisa: o encontro entre os sacerdotes, entre vós. A amizade sacerdotal: ela é um tesouro, um tesouro que se deve cultivar entre vós. A amizade entre vós. A amizade sacerdotal. Nem todos podem ser amigos íntimos. Mas como é bonita uma amizade sacerdotal! Quando os sacerdotes, como dois, três, quatro irmãos, se conhecem, falam dos seus problemas, das suas alegrias, das suas expectativas, de muitas coisas... Amizade sacerdotal. Procurai isto, é importante. Ser amigos. Penso que isto ajuda muito a levar a vida sacerdotal, a viver a vida espiritual, a vida apostólica, a vida comunitária e também a vida intelectual: a amizade sacerdotal. Se encontrasse um sacerdote que me diz: «Nunca tive um amigo», pensaria que este sacerdote não teve uma das alegrias mais agradáveis da vida sacerdotal, a amizade sacerdotal. É o que desejo a cada um de vós. Desejo que sejais amigos daqueles que o Senhor põe no vosso caminho para a amizade. Desejo isto na vida. A amizade sacerdotal é uma força de perseverança, de alegria apostólica, de coragem, também de sentido do humorismo. É belo, muito belo! Eis o que penso. Agradeço-vos a paciência! E agora podemos rezar a Nossa Senhora, pedir a bênção...

Regina caeli...



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