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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
 AOS MISSIONÁRIOS DA MISERICÓRDIA

Sala Régia
Terça-feira, 10 de abril de 2018

[Multimídia]


 

Estimados Missionários!

Bem-vindos, obrigado, e espero que quantos foram nomeados bispos não tenham perdido a capacidade de “misericordiar”. Isto é importante!

Para mim é uma alegria encontrar-me convosco, depois da bonita experiência do Jubileu da Misericórdia. Como bem sabeis, no final daquele Jubileu extraordinário o vosso ministério deveria ter-se concluído. E no entanto, refletindo sobre o grande serviço que prestastes à Igreja, e sobre todo o bem que fizestes e oferecestes a tantos crentes com a vossa pregação e acima de tudo com a celebração do sacramento da Reconciliação, julguei oportuno que o vosso mandato pudesse ser prolongado por mais um pouco de tempo. Recebi numerosos testemunhos de conversões que se realizaram através do vosso serviço. E vós sois testemunhas disto. Devemos realmente reconhecer que a misericórdia de Deus não conhece confins e, com o vosso ministério, sois um sinal concreto de que a Igreja não pode, não deve e não quer criar barreira ou dificuldade alguma que impeça o acesso ao perdão do Pai. O “filho pródigo” não teve que passar pela alfândega: foi acolhido pelo Pai, sem obstáculos.

Estou grato a D. Fisichella pelas suas palavras de introdução e, aos colaboradores do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, por terem organizado estes dias de oração e de reflexão. Estendo o meu pensamento a quantos não puderam vir para que, contudo, se sintam partícipes e, não obstante a distância, cheguem também a eles o meu apreço e a minha gratidão.

Gostaria de compartilhar convosco algumas reflexões para dar maior apoio à responsabilidade que coloquei nas vossas mãos, e a fim de que o ministério da misericórdia, que sois chamados a viver de modo totalmente particular, possa manifestar-se do melhor modo, segundo a vontade do Pai, que Jesus nos revelou, e que à luz da Páscoa adquire o seu sentido mais completo. E com estas palavras — talvez o discurso seja um pouco longo — gostaria de ressaltar a doutrina do vosso ministério, que não é uma ideia — “façamos esta experiência pastoral, e depois veremos como corre” — não! É uma experiência pastoral que tem atrás de si uma verdadeira doutrina.

Uma primeira reflexão é-me sugerida pelo texto do profeta Isaías, onde se lê: «No tempo da graça, atender-te-ei; no dia da salvação, socorrer-te-ei [...] o Senhor consolou o seu povo, comoveu-se e teve piedade dos seus que viviam na aflição. Sião dizia: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me”. Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não sentir ternura pelo fruto das suas entranhas? E ainda que ela o esquecesse, Eu nunca te esqueceria» (Is 49, 8.13-15). Trata-se de um texto repleto do tema da misericórdia. A benevolência, a consolação, a proximidade, a promessa de amor eterno... são todas expressões que tencionam manifestar a riqueza da misericórdia divina, sem a poder esgotar num único aspeto.

Na sua segunda carta aos Coríntios, retomando este texto de Isaías, São Paulo atualiza-o parece desejar aplicá-lo precisamente a nós. Assim escreve: «Como seus colaboradores, exortamos-vos a não receber a graça de Deus em vão». Com efeito, Ele diz: «Ouvi-te no tempo favorável e ajudei-te no dia da salvação. Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação!» (6, 1-2). A primeira indicação oferecida pelo Apóstolo é que nós somos os colaboradores de Deus. É fácil averiguar como é intensa esta chamada. Alguns versículos antes, Paulo tinha expresso o mesmo conceito, dizendo: «Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em nome de Cristo, e é o próprio Deus quem exorta através de nós. Em nome de Cristo, nós vos rogamos — parece que se põe de joelhos — reconciliai-vos com Deus!» (5, 20). A mensagem que nós transmitimos como embaixadores em nome de Cristo é aquela de fazer as pazes com Deus. O nosso apostolado é um apelo a procurar e receber o perdão do Pai. Como se vê, Deus tem necessidade de homens que levem ao mundo o seu perdão e a sua misericórdia. Foi a mesma missão que o Senhor ressuscitado transmitiu aos discípulos, no dia seguinte à sua Páscoa. «Jesus disse-lhes mais uma vez: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou a mim, também Eu vos envio a vós”. Depois de ter pronunciado estas palavras, soprou sobre eles, dizendo-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem não os perdoardes, não lhes serão perdoados”» (Jo 20, 21-23). Esta responsabilidade posta nas nossas mãos — dela somos responsáveis! — exige um estilo de vida coerente com a missão que recebemos. É ainda o Apóstolo que o recorda: «A ninguém demos qualquer motivo de escândalo, para que o nosso ministério não seja criticado» (2 Cor 6, 3). Portanto, ser colaboradores da misericórdia pressupõe viver o amor misericordioso, que nós fomos os primeiros a experimentar. Não poderia ser de outro modo.

Neste contexto, voltam-me à mente as palavras que Paulo, no final da sua vida, já idoso, escrevia a Timóteo, seu fiel colaborador que ele deixará como seu sucessor na comunidade de Éfeso. O Apóstolo dá graças ao Senhor Jesus por o ter chamado para o ministério (cf. 1 Tm 1, 12); confessa que fora «blasfemo, perseguidor e injuriador»; e no entanto — diz — «alcancei misericórdia» (1, 13). Confesso-vos que muitas vezes, muitas vezes, medito sobre este versículo: “Fui tratado com misericórdia”. E isto fez-me bem, infunde-me coragem. Por assim dizer, sinto-o como o abraço do Pai, as carícias do Pai. Repetir isto, a mim pessoalmente, dá muita força, porque é a verdade: também eu posso dizer: “Fui tratado com misericórdia”. A graça do Senhor foi superabundante nele; agiu de maneira a levá-lo a compreender quanto fosse pecador e, a partir daqui, levá-lo a descobrir o núcleo do Evangelho. Por isso, escreve: «Eis uma verdade absolutamente certa e merecedora de fé por parte de todos: Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Se encontrei misericórdia, foi para que primeiro em mim Jesus Cristo manifestasse toda a sua magnanimidade» (1, 15-16). No fim da vida, o Apóstolo não renuncia a reconhecer quem era, não esconde o seu passado. Teria podido fazer o elenco de tantos sucessos, mencionar tantas comunidades que tinha fundado... mas prefere evidenciar a experiência que mais o impressionou e marcou na vida. A Timóteo indica o caminho a percorrer: reconhecer a misericórdia de Deus, antes de tudo na própria existência pessoal. Sem dúvida, não se trata de se conformar com o facto de ser pecador, como pretendendo justificar-se todas as vezes, anulando assim a força da conversão. Mas é necessário recomeçar sempre por este ponto firme: Deus tratou-me com misericórdia. Eis a chave para nos tornarmos colaboradores de Deus. Experimentamos a misericórdia e somos transformados em ministros da misericórdia. Em síntese, os ministros não se põe acima dos outros, como se fossem juízes em relação aos irmãos pecadores. O verdadeiro missionário da misericórdia reflete-se na experiência do Apóstolo: Deus escolheu-me; Deus confia em mim; Deus colocou a sua confiança em mim, chamando-me, não obstante eu seja um pecador, a ser seu colaborador para tornar a sua misericórdia real e eficaz, e levar a tocá-la com a mão.

Este é o ponto de partida, digamos assim. Vamos em frente.

Todavia, às palavras do profeta Isaías São Paulo acrescenta algo extremamente importante. Os que são colaboradores de Deus e administradores da misericórdia devem prestar atenção a não tornar vã a graça de Deus. Escreve: «Exortamos-vos a não receber a graça de Deus em vão» (2 Cor 6, 1). Eis a primeira admoestação que nos é dada: reconhecer a ação da graça e o seu primado na vida, tanto nossa como das pessoas.

Sabeis que gosto muito do neologismo “primerear”. Como a flor da amendoeira, assim se define o Senhor: “Eu sou como a flor da amendoeira”. Primerear. A primavera, primerear. E gosto deste neologismo para expressar exatamente a dinâmica do primeiro gesto com o qual Deus vem ao nosso encontro. O primerear de Deus nunca pode ser esquecido, nem considerado óbvio, caso contrário não se compreende plenamente o mistério da salvação levado a cabo mediante o ato da reconciliação que Deus realiza através do mistério pascal de Jesus Cristo. A reconciliação não é, como muitas vezes se pensa, uma nossa iniciativa particular, nem o fruto do nosso compromisso. Se fosse assim, cairíamos naquela forma de neopelagianismo que tende a sobrestimar o homem e os seus projetos, esquecendo que o Salvador é Deus, e não nós. Devemos reiterar sempre, mas sobretudo no que se refere ao sacramento da Reconciliação, que a primeira iniciativa é do Senhor; é Ele quem nos precede no amor, mas não de forma universal: caso por caso. Ele precede em todos os casos, com cada pessoa. Por isso, a Igreja «sabe dar o primeiro passo — deve fazê-lo — sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. O Evangelho diz-nos que a festa foi feita com eles (cf. Lc 14, 21). Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva» (Exort. Apost. Evangelii gaudium, 24).

Quando um penitente se aproxima de nós, é importante e consolador reconhecer que temos diante de nós a primícia do encontro já ocorrido com o amor de Deus que, com a sua graça, abriu o seu coração tornando-o disponível à conversão. O nosso coração sacerdotal deveria sentir o milagre de uma pessoa que encontrou Deus e que já experimentou a eficácia da sua graça. Não poderia existir verdadeira reconciliação, se ela não tivesse início na graça de um encontro com Deus, que precede aquele que teve connosco, confessores. Este olhar de fé permite delinear bem a experiência da reconciliação como acontecimento que tem a sua origem em Deus, o Pastor que, logo que se apercebe da ovelha tresmalhada, vai à sua procura até a encontrar (cf. Lc 15, 4-6).

A nossa tarefa — e este é um segundo passo — consiste em não tornar vã a ação da graça de Deus, mas em sustentá-la e em permitir que ela alcance o seu cumprimento. Às vezes, infelizmente, pode acontecer que um sacerdote, com o seu comportamento, em vez de aproximar o penitente, o afaste. Por exemplo, para defender a integridade do ideal evangélico, descuidam-se os passos que uma pessoa dá no dia a dia. Não é assim que se alimenta a graça de Deus! Reconhecer o arrependimento do pecador equivale a acolhê-lo de braços abertos, para imitar o pai da parábola, que recebe o filho quando volta para casa (cf. Lc 15, 20); significa nem sequer deixar que ele acabe de falar. Isto sempre me impressionou: o pai nem sequer o deixou falar, e abraçou-o. Ele tinha o discurso preparado, mas [o pai] abraçou-o. Significa nem sequer deixar que termine de pronunciar as palavras que tinha preparado para se desculpar (cf. v. 22), porque o confessor já entendeu tudo, consciente de que, também ele, é um pecador. Não há necessidade de fazer sentir vergonha a quem já reconheceu o próprio pecado e sabe que errou; não é preciso investigar — aqueles confessores que perguntam, perguntam por dez, vinte, trinta, quarenta minutos... “E como foi feito? E como?...” — não é necessário indagar, onde a graça do Pai já interveio; não é permitido violar o espaço sagrado de uma pessoa no seu relacionar-se com Deus. Um exemplo da Cúria romana: falamos muito mal da Cúria romana, mas aqui dentro existem santos. Um cardeal, Prefeito de uma Congregação, tem o hábito de ir confessar à igreja de Santo Espírito “in Sassia” duas, três vezes por semana — tem o seu horário fixo — e um dia, explicando, disse: «Quando me dou conta de que uma pessoa começa a ter dificuldade de falar, e eu compreendo do que se trata, digo: “Entendi. Vai”. E aquela pessoa “respira”». É um bom conselho: quando se sabe do que se trata, “entendi, vai”.

Aqui adquire todo o seu significado a bonita expressão do profeta Isaías: «No tempo da graça, atender-te-ei; no dia da salvação, socorrer-te-ei» (49, 8). Com efeito, o Senhor responde sempre à voz de quem clama a Ele com coração sincero. Quantos se sentem abandonados e sozinhos podem experimentar que Deus vem ao seu encontro. A parábola do filho pródigo narra que «ainda estava longe, quando o seu pai o viu e, movido de compaixão, correu ao seu encontro» (Lc 15, 20). E lançou-se-lhe ao pescoço. Deus não permanece ocioso, à espera do pecador: corre ao seu encontro, porque a alegria de o ver voltar é demasiado grande, e Deus tem esta paixão de rejubilar, de se alegrar quando vê chegar o pecador. Até parece que o próprio Deus tem um “coração inquieto”, enquanto não volta a encontrar o filho que se tinha perdido. Quando recebemos o penitente, temos necessidade de o fitar nos olhos e de o ouvir para lhe permitir sentir o amor de Deus que perdoa não obstante tudo, que o reveste com roupas de festa e lhe põe no dedo o anel, sinal de pertença à sua família (cf. v. 22).

O texto do profeta Isaías ajuda-nos a dar mais um passo no mistério da reconciliação, onde diz: «Aquele que tem piedade deles guiá-los-á e conduzi-los-á rumo à nascente» (49, 10). Além disso a misericórdia, que exige a escuta, permite orientar os passos do pecador reconciliado. Deus liberta do medo, da angústia, da vergonha e da violência. O perdão é realmente uma forma de libertação para restituir a alegria e o sentido da vida. Ao brado do pobre que invoca ajuda, corresponde o clamor do Senhor que promete aos prisioneiros a libertação, e àqueles que estão nas trevas diz: «Vinde à luz!» (49, 9). Um convite a sair da condição de pecado, para retomar a veste de filhos de Deus. Em síntese, a misericórdia libertando restitui a dignidade. O penitente não hesita em lastimar-se pelo pecado cometido; e o sacerdote não o culpabiliza pelo mal do qual se arrependeu; ao contrário, encoraja a olhar para o futuro com olhos novos, conduzindo-o “rumo à nascente” (cf. 49, 10). Isto significa que o perdão e a misericórdia permitem voltar a olhar para a vida com confiança e engajamento. É como dizer que a misericórdia abre à esperança, cria esperança e se alimenta de esperança. A esperança é também realista, é concreta. O confessor é misericordioso até quando diz: “Vai em frente, vai, vai”. Dá-lhe esperança. “E se acontece algo?” — Volta, não há problema. O Senhor espera por ti sempre. Não tenhas vergonha de voltar, porque o caminho está cheio de pedras e de cascas de banana, que te fazem escorregar.

Santo Inácio de Loyola — permiti que faça um pouco de publicidade à família — tem um ensinamento significativo a este propósito, pois fala da capacidade de fazer sentir a consolação de Deus. Não há só o perdão, a paz, mas também a consolação. Assim escreve: «A consolação interior [...] afasta qualquer perturbação e atrai completamente ao amor do Senhor. Esta consolação ilumina alguns, a outros revela muitos segredos. Afinal, com ela todas as penas são prazer; todas as canseiras, descanso. Para quem caminha com este fervor, com este ardor e com esta consolação interior não há fardo tão grande que não pareça suave, nem penitência, nem pena alguma tão grande que não seja dulcíssima. Esta consolação revela-nos o caminho que devemos seguir e aquele que devemos evitar; repito: esta consolação revela-nos o caminho que devemos seguir e aquele que devemos evitar. É preciso aprender a viver em consolação. Ela — acrescenta Inácio — nem sempre está em nosso poder; ela vem em determinados momentos, segundo o desígnio de Deus. E tudo isto para a nossa utilidade» (Carta à irmã Teresa Rejadell, 18 de junho de 1536: Epistolário, 99-107). É bom pensar que precisamente o sacramento da Reconciliação pode tornar-se um momento favorável para fazer sentir e crescer a consolação interior, que anima o caminho do cristão. E quero dizer isto: nós, com a “espiritualidade das queixas”, corremos o risco de perder o sentido da consolação. Até de perder aquele oxigénio, que é viver em consolação. Às vezes é intensa, mas há sempre uma consolação mínima, que é concedida a todos: a paz. A paz é o primeiro grau de consolação. Não podemos perdê-lo, porque é precisamente o oxigénio puro, sem smog, da nossa relação com Deus. A consolação. Da mais alta à mais baixa, que é a paz.

Volto às palavras de Isaías. Ali encontramos também os sentimentos de Jerusalém, que se sente abandonada e esquecida por Deus: «Sião dizia: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-me”. Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não sentir ternura pelo fruto das suas entranhas? E ainda que ela o esquecesse, Eu nunca te esqueceria» (49, 13-15). Por um lado, parece estranha esta repreensão dirigida ao Senhor, de ter abandonado Jerusalém e o seu povo. Com muito mais frequência, lê-se nos profetas que é o povo quem abandona o Senhor. Jeremias é muito claro a tal propósito, quando diz: «O meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água» (2, 13). É pecado abandonar Deus, virar-lhe as costas e olhar só para nós mesmos. Uma dramática confiança em si, que está cheia de imperfeições e não é capaz de dar estabilidade e consistência à vida. Sabemos que esta é a experiência quotidiana que vivemos pessoalmente. E no entanto, há momentos em que realmente sentimos o silêncio e o abandono de Deus. Não apenas nas grandes horas obscuras da humanidade de todas as épocas, que fazem surgir em muitos a interrogação acerca do abandono de Deus. Penso agora na Síria de hoje, por exemplo. Acontece que até nas vicissitudes pessoais, inclusive nas dos santos, se possa fazer a experiência do abandono.

Como é triste a experiência do abandono! Ela tem vários graus, até à separação definitiva quando chega a morte. Sentir-se abandonado leva à desilusão, à tristeza, por vezes ao desespero, e às diversas formas de depressão de que hoje muitos sofrem. E contudo, cada tipo de abandono, por mais paradoxal que possa parecer, está inserido na experiência do amor. Quando se ama e se experimenta o abandono, então a provação torna-se dramática e o sofrimento adquire traços de violência desumana. Se não estiver inserido no amor, o abandono torna-se insensato e trágico, porque não encontra esperança. Portanto, é necessário que aquelas expressões do profeta sobre o abandono de Jerusalém por parte de Deus sejam colocadas na luz do Gólgota. O brado de Jesus na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mc 15, 34), dá voz ao abismo do abandono. Porém, o Pai não lhe responde. As palavras do Crucificado parecem ressoar no vazio, porque para o Filho este silêncio do Pai é o preço a pagar a fim de que mais ninguém se sinta abandonado por Deus. O Deus que amou o mundo a ponto de dar o seu próprio Filho (cf. Jo 3, 16), a ponto de o abandonar na Cruz, nunca poderá abandonar ninguém: o seu amor estará sempre ali, perto, será maior e mais fiel do que qualquer abandono.

Depois de ter reiterado que Deus não se esquecerá do seu povo, Isaías conclui afirmando: «Eis que estás gravado na palma das minhas mãos» (49, 16). Incrível: Deus “tatuou” o meu nome na sua mão. É como um selo que me dá certeza, com o qual promete que nunca se afastará de mim. Estou sempre diante dele; cada vez que Deus olha para a sua mão, recorda-se de mim, porque ali gravou o meu nome! E não nos esqueçamos de que, enquanto o profeta escreve, Jerusalém é realmente destruída; o templo já não existe; o povo é escravo no exílio. E no entanto, o Senhor diz: «Tenho sempre sob os meu olhos as tuas muralhas» (ibid.). Na palma da mão de Deus as muralhas de Jerusalém são sólidas como uma fortaleza inexpugnável. A imagem é válida também para nós: enquanto a vida se destrói sob a ilusão do pecado, Deus mantém viva a sua salvação e vem ao nosso encontro com a sua ajuda. Na sua mão paterna volto a encontrar a minha vida renovada e projetada para o futuro, cheia do amor que somente Ele pode concretizar. Volta à mente também o livro do amor, o Cântico dos Cânticos, onde encontramos uma expressão semelhante àquela evocada pelo profeta: «Põe-me como um selo no teu coração, como um selo nos teus braços» (8, 6). Como se sabe, a função do selo era impedir que algo de íntimo pudesse ser violado; na cultura antiga era considerado uma imagem para indicar que o amor entre duas pessoas era tão sólido e estável, a ponto de continuar depois da morte. Continuidade e perenidade estão na base da imagem do selo que Deus pôs em si mesmo para impedir que alguém possa pensar que foi abandonado por Ele: «Eu nunca te esquecerei» (Is 49, 15). Selo. Tatuagem.

E concluo. É esta certeza típica do amor que somos chamados a amparar em quantos se aproximam do confessionário, para lhes dar a força de acreditar e esperar. A capacidade de saber recomeçar de zero, não obstante tudo, porque Deus nos pega sempre pela mão e nos leva a olhar em frente. A misericórdia pega pela mão e infunde a certeza de que o amor com o qual Deus ama derrota todas as formas de solidão e de abandono. Desta experiência, a qual insere numa comunidade que recebe todos e sempre, sem qualquer distinção, que sustém quem quer que esteja em necessidade e em dificuldade, que vive a comunhão como fonte de vida, os Missionários da Misericórdia são chamados a ser intérpretes e testemunhas.

Nas semanas passadas, impressionou-me particularmente uma Coleta do tempo quaresmal (Quarta-feira da 4ª semana) que, de certo modo, parece fazer uma síntese destas reflexões. Partilho-a convosco, para que ela se torne nossa oração, nosso estilo de vida:

«Ó Pai, que dais
a recompensa aos justos
e não rejeitais o perdão
aos pecadores arrependidos,
ouvi a nossa súplica:
a humilde confissão
das nossas culpas
nos obtenha
a vossa misericórdia».
Amém!

E gostaria de concluir com dois episódios de dois grandes confessores, ambas ocorridas em Buenos Aires. O primeiro, um sacramentino, que tinha desempenhado trabalhos importantes na sua congregação, foi provincial, mas encontrava sempre tempo para ir ao confessionário. Não sei quantos, mas a maioria do clero de Buenos Aires ia confessar-se com ele. Inclusive quando São João Paulo II esteve em Buenos Aires e pediu um confessor, da Nunciatura foi a ele que chamaram. Era um homem que te dava a coragem de ir em frente. Vivi esta experiência, porque me confessei com ele na época em que eu era provincial, para não o fazer com o meu diretor jesuíta... Quando começava, dizia: “Bem, bem, está bem”, e animava-te: “Vai, vai!”. Como era bondoso! Faleceu com 94 anos e confessou até um ano antes, e quando não estava no confessionário, tocavam a campainha e ele descia. Certo dia, eu era vigário-geral e saí do meu quarto, onde estava o fax — como eu fazia todos os dias de manhã cedo, para ver as notícias urgentes — era Domingo de Páscoa e havia um fax: “Ontem, meia hora antes da vigília pascal, veio a falecer o padre Aristi”, este era o seu nome... Fui almoçar na casa de repouso para sacerdotes onde passei a Páscoa com eles e, no regresso, fui à igreja situada no centro da cidade, onde havia o velório. Lá estava o caixão e duas velhinhas que recitavam o rosário. Aproximei-me e não havia nem sequer uma flor. Pensei: mas ele é o confessor de todos nós! Isto impressionou-me. Senti como a morte é horrível! Saí e caminhei 200 metros, onde havia um quiosque de flores, daqueles que existem nas ruas; comprei algumas flores e voltei. E, ao colocar as flores ali, perto do caixão, vi que nas suas mãos havia o rosário... O sétimo mandamento reza: “Não roubarás”. O rosário ficou ali, mas enquanto eu fazia de contas que arrumava as flores, fiz assim e peguei na cruz. E as velhinhas, aquelas velhinhas, olhavam. Trago comigo aquela cruz desde aquele momento e peço a ele a graça de ser misericordioso; trago-a sempre comigo. Isto deve ter ocorrido mais ou menos no ano de 1996. Peço-lhe esta graça. Como são grandes os testemunhos destes homens!

Depois há outro caso. Este está vivo, tem 92 anos. É um capuchinho, e tem uma fila de penitentes, de todas as cores, pobres, ricos, leigos, sacerdotes, alguns bispos, religiosas... todos, nunca acaba. É um grande perdoador, mas não alguém de “mangas largas”, um grande perdoador, um grande misericordioso. E eu sabia disto, conhecia-o, fui duas vezes ao santuário de Pompeia, onde ele confessava em Buenos Aires, e saudei-o. Agora tem 92 anos. Naquela época, quando veio ter comigo, talvez tivesse 85. E disse-me: “Quero falar contigo, porque tenho um problema. Tenho um grande escrúpulo: às vezes desejo perdoar demais”. E explicava-me: “Não posso perdoar uma pessoa que me vem pedir o perdão e diz que gostaria de mudar, que fará tudo, mas não sabe se conseguirá... E contudo eu perdoo! E por vezes sinto uma angústia, tenho um escrúpulo...”. E eu disse-lhe: “Que fazes, quando te vem este escrúpulo?”. E ele respondeu-me assim: “Vou à capela, à capela interna do convento, diante do Tabernáculo e, sinceramente, peço desculpa ao Senhor: “Senhor, perdoai-me, hoje perdoei demasiado. Perdoai-me... Mas prestai atenção, porque fostes Vós que me destes o mau exemplo!”. Assim rezava aquele homem.

 



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