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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
 POR OCASIÃO DA REUNIÃO PRÉ-SINODAL COM OS JOVENS
NO PONTIFÍCIO COLÉGIO INTERNACIONAL

 "
MARIA MATER ECCLESIAE"

Segunda-feira, 19 de março de 2018

[Multimídia]


 

Discurso do Santo Padre

Perguntas dos Jovens e Respostas do Santo Padre

 


DISCURSO DO SANTO PADRE

Amados jovens, bom dia!

Saúdo todos os 15340! Espero que amanhã sejam mais neste nosso diálogo para fazer sair aquilo que cada um de vós e de nós temos no coração. Falar com coragem. Sem vergonha, não é. Aqui a vergonha deixa-se fora da porta. Fala-se com coragem: digo aquilo que sinto e se alguém está ofendido, peço perdão e vou por diante. Vós sabeis falar assim. Mas é preciso ouvir com humildade. Se alguém disser o que não me agrada, tenho que o ouvir mais, pois cada qual tem o direito de ser ouvido, assim como todos têm o direito de falar.

Obrigado por terdes aceite o convite para vir aqui. Alguns de vós tiveram que fazer uma longa viagem. Outros, em vez de ir dormir — porque onde vivem é hora de dormir — estão em ligação convosco. Passarão a noite a ouvir. Provindes de tantas partes do mundo e trazeis convosco uma grande variedade de povos, culturas e também de religiões: não sois todos católicos ou cristãos, nem sequer todos crentes, mas certamente estais todos animados pelo desejo de dar o melhor de vós. E eu não duvido disto. Saúdo também os que entrarem em ligação, e os que já o fizeram: obrigado pelo vosso contributo!

Quero agradecer de modo especial à Secretaria do Sínodo, ao Cardeal Secretário, ao Arcebispo Secretário e a todos, a todos os que trabalham na Secretaria do Sínodo. Trabalharam tanto para isto e tiveram uma capacidade de inventar coisas e uma grande criatividade. Muito obrigado, Cardeal Baldisseri, e a todos os vossos colaboradores.

Sois enviados porque o vosso contributo é indispensável. Precisamos de vós para preparar o Sínodo que reunirá em outubro os Bispos sobre o tema Os jovens, a fé e o discernimento vocacional. Em muitos momentos da história da Igreja, assim como em numerosos episódios bíblicos, Deus quis falar por meio dos mais jovens; penso, por exemplo, em Samuel, em David e em Daniel. Eu gosto muito da história de Samuel, quando ouve a voz de Deus. A Bíblia diz: “Naquele tempo não era costume ouvir a voz de Deus. Era um povo desorientado”. Foi um jovem que abriu aquela porta. Nos momentos difíceis, o Senhor faz ir em frente a história com os jovens. Dizem a verdade, não se envergonham. Não digo que são “sem-vergonha” mas que não têm vergonha e dizem a verdade. E David quando era jovens começa com aquela coragem. Até com os seus pecados. Porque é interessante, todos eles não nasceram santos, não nasceram justos, modelos dos outros. Todos são homens e mulheres pecadores e pecadoras, mas sentiram o desejo de fazer algo bom, Deus estimulou-os e foram em frente. E isto é muito bom. Nós podemos pensar: “Estas coisas são para as pessoas justas, para os sacerdotes e as religiosas”. Não, são para todos. E mais para vós, jovens, porque tendes tanta força para dizer as coisas, para sentir as coisas, para rir, até para chorar. Nós adultos, muitas vezes, tantas, esquecemos a capacidade de chorar, habituámo-nos: “O mundo é assim... que se arranjem”. E vamos em frente. Por isso vos exorto, por favor: sede corajosos nestes dias, dizei tudo o que sentis; e se errardes, outros vos corrigirão. Mas em frente, com coragem!

1. Falamos com frequência de jovens sem nos deixarmos interpelar por eles. Quando alguém quer fazer uma campanha ou alguma coisa, ah, louvam os jovens!, não é assim?, mas não permitem que os jovens os interpelem. Louvar é uma maneira de contentar as pessoas. Mas as pessoas não são tontas nem estúpidas. Não, não o são. As pessoas compreendem. Só os estultos não compreendem. Em espanhol há um ditado lindíssimo que diz: “Louva o estúpido e vê-lo-ás trabalhar”. Dar-lhe a palmadinha nas costas e ele ficará feliz, porque é tonto, não se dá conta. Mas vós não sois tontos! Até as melhores análises sobre o mundo juvenil, mesmo sendo úteis — são úteis — não substituem a necessidade do encontro face a face. Falam da juventude de hoje. Por curiosidade, vede em quantos artigos, em quantas conferências se fala da juventude de hoje. Gostaria de vos dizer uma coisa: a juventude não existe! Existem os jovens, histórias, rostos, olhares, ilusões. Existem jovens. Falar da juventude é fácil. Fazem-se abstrações, percentagens... Não. A tua face, o teu coração, o que diz? Dialogar, ouvir os jovens. Por vezes, evidentemente, vós não sois, os jovens não são o prémio Nobel para a prudência. Não. Por vezes falam “com a bofetada”. A vida é assim, mas é preciso ouvi-los.

Há quem pense que seria mais fácil manter-vos “à distância de segurança”, para não se sentirem provocados por vós. Mas não é suficiente trocar alguma pequena mensagem ou partilhar fotografias simpáticas. Os jovens devem ser levados a sério! Parece-me que estamos circundados por uma cultura que, se por um lado idolatra a juventude procurando nunca a fazer passar, por outro impede que muitos jovens sejam protagonistas. É a filosofia da maquilhagem. As pessoas crescem e procuram pintar-se para parecerem mais jovens, mas não deixa crescer os jovens. Isto é muito comum. Porquê? Porque não se deixa que sejam interpelados. É importante. Muitas vezes sois marginalizados da vida pública normal e vedes-vos obrigados e mendigar ocupações que não vos garantem um futuro. Não sei se isto acontece em todos os vossos países, mas em muitos... Se não erro a taxa de desemprego juvenil aqui na Itália, dos 25 anos para cima, é de cerca de 35%. Noutro país da Europa, confinante com a Itália, de 47%. Noutro país da Europa próximo da Itália, mais de 50%. O que faz um jovem que não encontra trabalho? Adoece — a depressão — cai no desespero, cai nas dependências, suicida-se — devemos refletir: as estatísticas de suicídio juvenil estão todas alteradas, todas — faz o rebelde — mas é um modo de se suicidar — ou apanha o avião e vai para outra cidade que não quero mencionar e alista-se no EI ou num destes movimentos guerreiros. Pelo menos a vida tem sentido e terá um ordenado mensal. E isto é um pecado social! A sociedade é responsável por isto. Mas eu gostaria que fôsseis vós a dizer as causas, os porquês, e não digais: “Nem sequer eu sei bem porquê”. Como viveis vós este drama? Ajudar-nos-ia muito. Demasiadas vezes sois deixados sozinhos. Mas também é verdade que sois construtores de cultura, com o vosso estilo e com a vossa originalidade. É um afastamento relativo, porque vós sois capazes de construir uma cultura que talvez não se veja, mas que vai em frente. Este é um espaço que nós queremos para ouvir a vossa cultura, a que estais a construir.

Na Igreja — disto estou convicto — não deve ser assim: fechar a porta, não ouvir. O Evangelho no-lo pede: a sua mensagem de proximidade convida a encontrar-nos e a confrontar-nos, a acolher-nos e a amar-nos a sério, a caminhar juntos e a partilhar sem receio. E esta Reunião pré-sinodal pretende ser sinal de algo grandioso: a vontade da Igreja de se colocar em escuta de todos os jovens, sem excluir nenhum. E isto não para fazer política. Não para uma artificial “jovem-filia”, não, mas porque precisamos de compreender melhor o que Deus e a história nos estão a pedir. Se vós faltardes, falta-nos uma parte do acesso a Deus.

2. O próximo Sínodo propõe-se em particular desenvolver as condições para que os jovens sejam acompanhados com paixão e competência no discernimento vocacional, ou seja, em «reconhecer e acolher a chamada ao amor e à vida em plenitude» (Documento preparatório, Introdução). Todos nós recebemos esta chamada. Vós, na fase inicial, sois jovens. Esta é a certeza fundamental: Deus ama todos e a cada um dirige pessoalmente uma chamada. É um dom que, quando o descobrimos, enche de alegria (cf. Mt 13, 44-46). Tende a certeza disto: Deus tem confiança em vós, ama-vos e chama-vos. E por seu lado ele nunca faltará, porque é fiel e crê deveras em vós. Deus é fiel. Aos crentes digo: “Deus é fiel”. Dirige-vos a pergunta que certa vez fez aos primeiros discípulos: «O que procurais?» (Jo 1, 38). Também eu, neste momento, vos dirijo a pergunta, a cada um de vós: “O que procuras? Tu, o que procuras na tua vida?”. Di-lo, far-nos-á bem ouvi-lo. Di-lo. Precisamos que o faças: ouvir o vosso caminho na vida. O que procuras? Convida-vos a partilhar a busca da vida com Ele, a caminhar juntos. E nós, desejamos fazer o mesmo, porque não podemos deixar de partilhar com entusiasmo a busca da verdadeira alegria de cada um; e não podemos conservar só para nós Aquele que mudou a nossa vida: Jesus. Os vossos coetâneos e os vossos amigos, mesmo sem o saberem, esperam também eles uma chamada de salvação.

3. O próximo Sínodo será também um apelo dirigido à Igreja, para que redescubra um renovado dinamismo juvenil. Pude ler alguns e-mails do questionário divulgado na rede pela Secretaria do Sínodo e fez-me admirar o apelo lançado por diversos jovens, que pedem aos adultos para estar ao seu lado e para os ajudar nas escolhas importantes. Uma moça frisou que aos jovens faltam pontos de referência e que ninguém os estimula a ativar os recursos que possuem. Depois, ao lado dos aspetos positivos do mundo juvenil, ressaltou os perigos, entre os quais o álcool, a droga, uma sexualidade vivida de maneira consumista. São dependências, não é? E concluiu quase com um grito: «Ajudai o nosso mundo juvenil que está cada vez mais arruinado». Não sei se o mundo juvenil está cada vez mais arruinado, não sei. Mas sinto que o grito desta jovem é sincero e exige atenção. Compete a vós responder a esta jovem, dialogar com esta moça. É uma de vós e tem que se ver esta “bofetada” que nos dá, onde nos leva. Também na Igreja devemos aprender novas modalidades de presença e de proximidade. É muito importante. Vem-me à mente quando Moisés quis dizer ao Povo de Deus qual é o âmago do amor de Deus. E diz: “Pensai: qual foi o povo que teve um Deus tão próximo?”. O amor é proximidade. E eles, os jovens de hoje pedem proximidade à Igreja. Vós, cristãos, vós que credes na proximidade de Cristo, vós católicos, estai próximos, não distantes. E vós sabeis bem que há tantas, muitas modalidades de se afastar, tantas. Educai todos, de luvas brancas, mas manter-se à distância para não sujar as mãos. Os jovens, hoje, pedem-nos proximidade: aos católicos, aos cristãos, aos crentes e aos não crentes. A todos. E a este propósito, um jovem contou com entusiasmo a sua participação nalguns encontros com estas palavras. Diz assim: «O mais importante foi a presença de religiosos no nosso meio como amigos que nos ouvem, nos conhecem e nos aconselham». Homens e mulheres consagrados que estão próximos. Ouvem, conhecem e a quem pede conselho, aconselham. Eu conheço alguns de vós que fazem isto.

Vem à minha mente a maravilhosa Mensagem aos jovens do Concílio Vaticano II. É também hoje um estímulo a lutar contra qualquer egoísmo e a construir com coragem um mundo melhor. É um convite a procurar novos caminhos e a percorrê-los com audácia e confiança, mantendo o olhar fixo em Jesus e abrindo-se ao Espírito Santo, para rejuvenescer o próprio rosto da Igreja. Pois é em Jesus e no Espírito que a Igreja encontra a força para se renovar sempre, realizando uma revisão de vida acerca da sua maneira de ser, pedindo perdão pelas suas fragilidades e lacunas, não poupando as energias para se pôr ao serviço de todos, unicamente com a intenção de ser fiel à missão que o Senhor lhe confiou: viver e anunciar o Evangelho.

4. Queridos jovens, o coração da Igreja é jovem precisamente porque o Evangelho é como uma linfa vital que a regenera continuamente. Compete a nós ser dóceis e cooperar para esta fecundidade. E todos vós podeis colaborar nesta fecundidade: quer sejais cristãos católicos, quer de outras religiões, ou não crentes. Pedimo-vos para colaborar na nossa fecundidade, para dar vida. Façamo-lo também neste caminho sinodal, pensando na realidade dos jovens de todo o mundo. Precisamos de nos reapropriar do entusiasmo da fé e do gosto da busca. Temos necessidade de reencontrar no Senhor a força de nos erguermos das falências, de ir em frente, de fortalecer a confiança no futuro. E precisamos de ousar veredas novas. Não vos assusteis: ousar veredas novas, mesmo se isso comporta riscos. Um homem, uma mulher que não arrisca, não amadurece. Uma instituição que faz escolhas sem arriscar permanece criança, não cresce. Arriscai, acompanhados pela prudência, pelo conselho, mas ide em frente. Sem arriscar, sabeis o que acontece a um jovem? Envelhece! Vai para a reforma aos 20 anos! Um jovem envelhece e também a Igreja envelhece. Digo isto com sofrimento. Quantas vezes eu encontro comunidades cristãs, até de jovens, mas velhas. Envelheceram porque tiveram medo. Medo de quê? De sair, de ir rumo às periferias existenciais da vida, de ir onde se joga o futuro. Uma coisa é a prudência, que é uma virtude, mas outra é o medo. Precisamos de vós jovens, pedras vivas de uma Igreja com o rosto jovem, mas não maquilhado, como disse: não rejuvenescido artificialmente, mas reavivado a partir de dentro. E vós nos provocais a sair da lógica do “mas sempre se fez assim”. E aquela lógica, por favor, é um veneno. É um veneno doce, porque te tranquiliza a alma e te deixa como que anestesiado e te impede de caminhar. Sair da lógica do “sempre se fez assim”, para permanecer de maneira criativa no sulco da autêntica tradição cristã, mas criativo. Eu, aos cristãos, recomendo que leiam o Livro dos Atos dos Apóstolos: a criatividade daqueles homens. Aqueles homens sabiam ir em frente com uma criatividade que se nós fizermos a tradução para o que significa hoje, assustamo-nos! Vós criais uma cultura nova, mas estai atentos: esta cultura não pode ser “desenraizada”. Um passo em frente, mas preservar as raízes! Não voltar às raízes, porque se acaba por ficar enterrado: dá um passo em frente, mas sempre com as raízes. E as raízes — isto, perdoai-me, tenho-o no coração — são os velhos, são os idosos bons. As raízes são os avós. As raízes são aqueles que viveram a vida e que são descartados por esta cultura do descarte, não servem, manda-os para fora. Os idosos têm este carisma de conservar as raízes. Falai com os idosos. “Mas o que direi?”. Tenta! Recordo-me certa vez em Buenos Aires que, falando com os jovens, disse: “Porque não ides a uma casa de repouso tocar viola para os idosos que lá estão?” — “Mas, padre...” — “Ide, só uma hora”. [Ficaram] mais de duas horas! Não queriam sair, porque os idosos que estavam assim [um pouco adormecidos], ouviram tocar viola e acordaram todos e começaram [a falar], e os jovens ouviram coisas que os comoveram. Receberam esta sabedoria e foram em frente. O profeta Joel expressa isto muito bem, tão bem. No terceiro capítulo. Para mim esta é a profecia de hoje: “Os idosos sonharão, e os jovens profetizarão. Nós precisamos de jovens profetas, mas estai atentos: nunca sereis profetas se não tiverdes em conta os sonhos dos idosos. E mais: se não fordes fazer sonhar um idoso que está ali entediado, porque ninguém o ouve. Fazei sonhar os idosos e estes sonhos vos ajudarão a ir em frente. Joel 3, 1. Lê isto, far-te-á bem. Deixai-vos interpelar por eles.

Para nos sintonizarmos no mesmo comprimento de onda das jovens gerações é de grande ajuda um diálogo intenso. Portanto, convido-vos nesta semana, a expressar-vos com franqueza e com toda a liberdade, já o disse e repito-o. Com “descaramento”. Sois os protagonistas e é importante que faleis abertamente. “Mas sinto vergonha, o cardeal ouve-me...”. Que ouça, está habituado. Garanto-vos que o vosso contributo será levado a sério. Já desde agora vos digo obrigado; e peço-vos, por favor, que não vos esqueçais de rezar por mim. E os que não puderem rezar, porque não sabem rezar, pelo menos que pensem bem em mim. Obrigado.

 


PERGUNTAS DOS JOVENS E RESPOSTAS DO SANTO PADRE

 

Blessing Okoedion, jovem nigeriana vítima do tráfico, narrou a sua experiência dramática e, fazendo seu o grito de ajuda e de libertação de muitas jovens, formulou três perguntas: como ajudar a juventude a adquirir consciência deste crime contra a humanidade; como ajudá-los a permanecer humanos, contrastando e superando uma mentalidade doentia que reduz a mulher a escrava, a propriedade do homem, a mercadoria, quer por lucro quer pelo próprio prazer egoísta; e, diante dos numerosos católicos, clientes da prostituição, perguntou: «A Igreja, ainda demasiado machista, consegue interrogar-se com verdade sobre esta grande procura dos clientes? Pode ser credível ao propor aos jovens caminhos de relacionamento, entre homem e mulher, livres e libertadores?».

Papa Francisco: A pergunta é sem anestesia, mas é a realidade, a realidade. No ano passado visitei uma das casas das jovens que foram libertadas desta escravidão: é inacreditável! Uma foi raptada na Moldávia e levada de carro, no porta-bagagens, amarrada, uma noite inteira, até Roma; e ameaçaram matar os seus pais, se tivesse escapado. Depois, para aqueles que resistem — ouvimo-lo na primeira intervenção sobre a África — há os dias do abrandamento — em espanhol dizemos el ablande: espancam, torturam e no fim vencem. Em seguida — diziam-me as moças — começam a trabalhar e naquele momento, para se defenderem, fazem aquilo ao que chamo — não sei se é cientificamente assim, mas a isso eu chamo — uma esquizofrenia defensiva: isolam o coração e a mente, dizendo apenas: “Este é o meu trabalho”, mas nada fazem para salvar o que podem da sua dignidade interior, mas a dignidade exterior e social está arrasada. Defendem-se assim. Mas sem qualquer esperança. Algumas conseguem fugir, mas a máfia e os conluios perseguem-nas; encontram-nas e às vezes vingam-se. Por exemplo, aquelas que vêm da África ou de um país da Europa — pelo menos é o que sei — são enganadas com a promessa de um trabalho, não só raptadas, mas algumas enganadas: [prometem] um trabalho de hostess ou de assistente de voo, e são imediatamente inseridas nesta vida. Mas quando se libertam, não têm a coragem de voltar para casa, porque há a dignidade da família, nem de dizer a verdade, não podem. E não porque são cobardes, mas porque amam de tal modo a família que isto impede que os seus pais, irmãos e irmãs sejam manchados por esta história. Não podem voltar. E ficam sem paradeiro, à procura de outro trabalho... Uma das jovens disse que quando por duas vezes não entregou a quantia que devia naquele dia, cortaram-lhe a orelha; outros partem-lhes os dedos, e coisas deste tipo, torturas, se não o fizerem. Esta é uma escravidão de hoje. E creio que aqui na Itália, falando dos clientes, acho — faço um cálculo sem fundamento, mas julgo que seja provável — 90 por cento deles são batizados, ou seja, como dizias, católicos. Penso no nojo que estas moças devem sentir, quando estes homens lhes fazem tais coisas... Recordo que certa vez houve um acidente numa discoteca de Buenos Aires, e morreram 200 pessoas; fui ao hospital visitar os feridos e na terapia intensiva havia dois idosos: tinham perdido os sentidos, tiveram um AVC. Disseram-me: “Trouxeram estes dois do prostíbulo”. Idosos, jovens... estas moças suportam tudo... Falei com elas — um bonito encontro — numa das casas de padre Benzi, um sacerdote que realizou um grande trabalho para resgatar estas jovens; eles têm um método. As jovens são vigiadas; um deles aproxima-se e começa a falar, aparentemente para tratar o preço, mas em vez de lhe dizer: “Quanto custas?”, perguntam: “Quanto sofres?”. A jovem ouve, ele fala-lhe brevemente, dá-lhe um bilhetinho: “Levamos-te embora, ninguém te encontrará”, com um número de telefone. E 80 por cento das jovens liga. “Muito bem, fica tranquila: que dia é mais seguro para ti?” — “Tal dia” — “Naquela esquina, a tal hora”, passam de carro... e levam-na para fora de Roma. Dispõem de casas, e ali começa a terapia. Fazem uma bonita terapia. E depois são inseridas. É uma das obras que se fazem aqui em Roma, que eu conheço e na qual me comprometi; mas há muitas. Depois falarei do fenómeno, mas eu quis começar com este [aspeto] positivo. É interessante: naquela reunião participaram o capelão e dois voluntários. Quando uma jovem contou a sua história, o voluntário que estava ao lado, um daqueles que a tinha ajudado a recuperar-se... era o marido! Apaixonaram-se e casaram. E outro era o namorado de outra. Vi uma reinserção muito bonita! Mas volto àquilo que me disseste: é um crime contra a humanidade, um delito contra a humanidade, e nasce de uma mentalidade doentia: a mulher deve ser explorada. E nos dias de hoje não há feminismo que tenha conseguido tirar isto da consciência, do inconsciente mais profundo ou, digamos assim, do imaginário coletivo. A mulher deve ser explorada, de um modo ou de outro. Assim se explica esta... doença da humanidade; é a enfermidade de um modo de pensar social, um crime contra a humanidade.

Falei dos métodos [para te ajudar]. Quem é capaz de assistir melhor estas moças são as mulheres, as religiosas. Mas existem também mulheres que as vendem! Tomei conhecimento da história de uma jovem da África, que tinha concluído uma parte dos estudos universitários e queria trabalhar; e uma senhora, não me recordo se era uma consagrada de uma paróquia, ou uma senhora da Ação católica daquela paróquia, interessou-se por ela: “Sirvo de intermediária para tudo...”; esperaram-na no aeroporto, e ela passou do aeroporto para o trabalho. Foi enganada. Depois foi resgatada por um destes grupos e levaram-na para uma casa, a fim de se recuperar. Chegou a superiora: “Não!”, gritou [aquela jovem]; viu uma freira e disse: “Não!”, porque tinha sido vendida. Não sei se por uma religiosa, talvez... ela falava de uma senhora, uma leiga, uma católica, mas da paróquia. E no fim permaneceu ali e ajudou muito. E até pessoas que se dizem católicas... talvez uma minoria delas... é uma doença: a mulher deve ser explorada! Alegra-me saber que os jovens lutam por esta causa. Esta é uma das lutas que vos peço, jovens, que enfrenteis: pela dignidade da mulher. Pela dignidade, que é mais do que aquilo que a mulher pode fazer ou não, pode tornar-se isto ou não: é digna, é filha de Deus! E mais: na narração da criação, foi ela quem surpreendeu o homem: ah, a beleza, a beleza da mulher! E depois, acaba assim. Alguns governos procuram fazer pagar multas aos clientes, mas segundo os dados de que disponho, isto não funciona muito. O problema que disseste é grave, muito grave, e gostaria que vós lutásseis por isto. Os jovens. E, por favor, se um jovem tiver este hábito, que o abandone! É um criminoso. Quem faz isto é um criminoso. “Mas Padre, não se pode fazer amor?” Não, não, isto não é fazer amor. Isto é torturar uma mulher. Não confundamos os termos. Isto é um crime. Mentalidade doentia. E quero aproveitar este momento, porque falaste de batizados, cristãos, para pedir perdão a vós e à sociedade, por todos os católicos que cometem este ato criminoso.

Maxime Rassion, francês, presidente da Junior Consulting do Institut Catholique de Paris, apresentou ao Pontífice o problema da orientação profissional e, sobretudo, uma das dificuldades fundamentais que tocam o coração dos jovens: a busca do «profundo sentido a dar à nossa vida». Como não-católico, confidenciou a Francisco todas as suas preocupações: «Gostaria de entender quem sou eu, em relação a Deus e ao mundo», e acrescentou: «Gostaria de construir uma fortaleza no meu coração, mas não sei por onde começar. Que caminho devemos empreender?».

Papa Francisco: Digo-te: com isto já começaste. O perigo é não deixar que as perguntas surjam. O que vejo é que tu as deixas vir à tona, para as ver. Já começaste; iniciaste deixando que as perguntam nasçam, sem as anestesiar! As nossas interrogações fortes — e isto é importante, observai — podem passar pelo processo de ser diminuídas no tom, um pouco anestesiadas, um pouco, um pouco ou totalmente. Há um modo “educado” de anestesiar as interrogações, e isto não é social. Trata-se da técnica que acaba na corrupção com luvas brancas! Começa-se assim. A lealdade a si mesmo deve ter a coragem de dizer as verdades cruas, como elas são, formulando perguntas diretas, como elas são, sem anestesia. Je pense avoir besoin de discernement face à ce vide. É verdade. Todos nós temos necessidade do discernimento. É por isto que no tema do Sínodo há esta palavra, não é assim? E quando há este vazio, esta inquietação, é necessário discernir. Sobre este assunto, devemos dizer que muitas comunidades eclesiais ou não o sabem fazer, ou não têm a capacidade de discernimento. É um dos problemas que nós temos, mas não se deve ter medo. [Os jovens] vivem esta inquietação, algumas preocupações, que muitas vezes são moralmente rejeitadas. [Ao contrário] não te assustes: assume-a, acompanha-a, ajuda a discernir. Discernir, acompanhar e procurar fazer com que a pessoa externe tudo, e ela mesma procure encontrar o caminho. Por exemplo, aqui tereis facilitadores nos grupos: é um modo de ajudar a fazer com que as perguntam sobressaiam. Ajudam a discernir. O diálogo, o diálogo para discernir. Fazer com que te ajude. Isto a propósito do besoin de discernement face à ce vide. Pois existe um vazio interior. Na vida é preciso ter sempre duas coisas: primeiro, ter a coragem de falar daquilo que acontece; mas não podemos falar de tudo com todos; existem situações que dizem respeito à nossa identidade mais profunda. Procuras alguém que te inspire confiança? Pode ser um idoso, uma pessoa sábia, um jovem sábio: até os jovens possuem sabedoria! Pensa em Salomão. Os jovens têm sabedoria. Alguns jovens. Procura uma pessoa sábia. O sábio é alguém que não tem medo de nada, que sabe ouvir e tem o dom do Senhor para dizer a palavra certa no momento certo. Deixa que ele seja interpelado pela tua inquietude e deixa-te interpelar por ele: o diálogo, não? Mas aquilo que disseste, Maxime, é algo do que mais precisamos. Tu és Presidente da Junior Consulting do Institut Catholique de Paris. Ali, tens a experiência do modo como fazer isto e como se ajudar em tudo isto. É importante, porque quando o jovem não encontra este caminho de discernimento — não apenas vocacional, pois discernimento quer dizer muitas coisas, daquilo que tu sentes, não? — fecha-se de maneira negativa. E fechar-se assim na vida significa trazer um tumor dentro de si. Algo fechado na alma que, mais cedo ou mais tarde, se transforma num peso, tirando-te a liberdade. É importante abrir tudo, não disfarçar os sentimentos, não camuflar os sentimentos. Os pensamentos que vêm à tona sejam [levados] ao discernimento, com alguém. Acho que aquilo que dizes, que tu gostarias de choisir et avancer, julgo que esta vontade tão profunda é exatamente o início de um processo de discernimento que deve ir em frente, e dura a vida inteira. Mas é bom, quando se tem uma pessoa com a qual falar sobre estas realidades. Deixar sobressair os sentimentos, sem os anestesiar, nem os diminuir. Procurar alguém que me inspire confiança para falar sobre isto e fazer o discernimento. Esta é a minha resposta à toi, Maxime.

A argentina Maria de la Macarena Segui deu o testemunho da mudança de vida pela qual passou, graças ao encontro com Scholas Occurrentes, e pediu um conselho sobre o modo de abrir ao mistério os processos educacionais que hoje estão demasiado ligados a cânones racionalistas.

Papa Francisco: [em espanhol] Maria Macarena disse-me: “Scholas mudou a minha vida!”. Uma das coisas que disse criticamente, a propósito de um sistema educativo, é aquilo que educa sobre a verdade construída a partir da razão que debilita o sentido de transcendência, enfraquece a dúvida e a admiração. Pensai nas estruturas escolares — existem muitas — onde se cresce em grande medida no conhecimento. São extraordinárias, de altíssimo nível, mas no fim perderam a capacidade de se admirar. Perderam a capacidade de se surpreender. Isto deriva diretamente do Iluminismo — não é verdade? — que chegou a este tipo de escola educativa, que hoje é muito criticada, e contra a qual se reage. Com efeito, a experiência de Scholas no Paraguai está muito radicada — como, sem dúvida, será evidenciado no grupo, sobretudo por parte dos paraguaios — e chegou a inverter esta tendência, até a nível do ministério da educação nacional. Não é verdade? E isto é deveras importante! Porque [o contrário] elimina a maravilha, e isto exclui também a capacidade de contemplar a beleza e de se abrir ao mistério do outro. E foi boa a síntese que ouvimos.

Repito algo que me agrada dizer, mas que para mim é evidente. Para ter uma educação completa é necessário usar três linguagens. A linguagem da cabeça, ou seja, aprender a pensar bem. Não somente pensar em coisas. Pensar, conhecer coisas. Isto é importante. Mas também pensar e progredir com o pensamento. Liberdade de pensamento. Procurar com o pensamento. É a isto que chamo pensar bem. Eis a linguagem da cabeça, a primeira das três.

Segunda: linguagem do coração. Aprender a sentir bem. Há um problema, que é antigo. O problema não é de agora, mas hoje pelo menos fala-se disto, a problemática do bullying, a questão do bullying nas escolas é o problema de não sentir bem. Falei apenas de um exemplo, mas existem muitas situações. Aprender a sentir bem as coisas. Educar o sentimento, e isto não é muito comum nas escolas herdeiras do Iluminismo.

E a terceira é a linguagem das mãos: fazer. Porque também ela é uma herança que recebemos de Deus. Ser artesãos e criadores. A arte nasce inclusive daqui. A engenharia nasce disto. A capacidade de construir nasce daqui.

E estas três linguagens, da cabeça, do coração e das mãos, harmonizadas. A ponto que eu pense no que sinto e no que faço; que eu sinta o que penso e o que faço; e que eu faça o que sinto e o que penso. A harmonia das três linguagens. E esta é a experiência de Scholas. Percorrer este caminho e avançar numa educação total e comunitária. Evidentemente, quando se vai por este caminho, a educação é pessoal, como a pessoa que, necessariamente, precisa da comunidade para progredir. Não é verdade?

Diria outra coisa. Digo-o porque critico muito o mundo virtual. Mas não pelo facto de eu ser um velho retrógrado, mas porque ele tem os seus perigos. Por exemplo, num jantar em família, o pai e a mãe veem televisão e cada jovem tem nas mãos o telefone e fala com os amigos, mas se deve dizer algo ao pai ou a alguém, envia-lhe uma mensagem com o telemóvel. Por outras palavras, o mundo virtual pode levar-te a um nível de alienação muito grande que te torna não líquido, como afirmava o grande Bauman, mas gasoso! Sem enraizamento. Por esta razão critico o mundo virtual. Mas não o demonizemos. Porque é uma riqueza, devemos saber usá-lo e não permitir que nos escravize afastando-nos do concreto. Então para salvar o que é bom do mundo virtual, só uma palavra, o concreto. Em italiano “concretitude”. Acostumar-se a ir direto ao ponto. Sim, poder usar o virtual, mas com os pés no chão e sem deixar sorver, não gasosamente, não de forma líquida, mas de maneira sólida. É uma ajuda. E ali devemos voltar para trás.

Sábado celebrei um matrimónio em Santa Marta e encontrei-me com uma senhora jovem, uma moça que é música, compositora, artista e durante a sua carreira de professora tinha medo do mundo virtual, constatava o mal que causava aos jovens e há alguns anos decidiu lutar contra este exagero do mundo virtual para que tenha o lugar que lhe compete, mas concretamente, e ofereceu-me um boneco de pelúcia. Perguntei-lhe: “O que é isto?”. “Com ele recupero de maneira artesanal a capacidade que os jovens têm de brincar entre si”. Do jogo ilusório, virtual, ela desce ao jogo real e a partir dali começa a trabalhar com os jovens. Por conseguinte, é preciso tentar salvar as pessoas da realidade gasosa, do líquido da virtualidade para que a virtualidade seja enraizada no concreto.

Uma virtualidade enraizada é muito boa. Mas quando se prescinde de estar com os pés no chão, ali tudo se desmorona, não amadurece. Veem como esta mulher durante a sua experiência pedagógica, como professora, descobriu que a única maneira consistia em retomar o jogo? E o jogo é concreto.

O mundo virtual tem outro defeito, falando claramente de Scholas, no concreto de Scholas, que te pode tirar a dimensão do amateur, não sei como explicar, amador. Por exemplo, nos nossos dias o jogo, o desporto, perderam o sentido de amateur, e transformaram-se em algo comercial, ou seja como for, inclusive o jogo perde. O jogo perde sempre. Num mundo líquido, sem raízes, o jogo perde sempre. O verdadeiro jogo. O jogo gratuito. A capacidade dos jovens que vemos num campo e que encontramos mais limpos do que estes, e que são capazes de organizar uma seleção de futebol com duas traves para a baliza e o guarda-redes voador que avança, que vai e marca golo, ou seja, liberdade concreta. Uma coisa é liquidez e gasosidade, outra é liberdade concreta. O concreto dá-te liberdade, o líquido e o gasoso tiram-te a liberdade. Scholas empreendeu este caminho de unir as três linguagens, a nível social. Assisti às conclusões no Paraguai, no porto onde atualmente se situa o bairro San Francisco — por isso mencionei o Paraguai — de um encontro de jovens de Scholas sobre gravidez em adolescentes. Digo-vos que nem sequer numa reunião da Câmara dos deputados argentina ouvi reflexões como as destes jovens, porque são educados a pensar de maneira concreta, com o coração e a cabeça. Isto é maravilhoso. Este é o caminho da educação. Obrigado.

A quarta pergunta foi colocada por Yulian Vendzilovych, seminarista do instituto do Espírito Santo de Lviv, que pertence à Igreja greco-católica ucraniana. «Na sua opinião — questionou — o que deveria fazer um jovem, que se está a preparar para o sacerdócio e quer ser aberto à juventude e à cultura hodierna, para compreender o que há de precioso na cultura e o que é falso?». E deu como exemplo o uso das tatuagens «que é difícil entender».

Papa Francisco: Afinal, és um colega! Agradeço-te. Estás a falar de “testemunha vivo de Cristo”. É verdade, um sacerdote que não é testemunha de Cristo faz muito mal, muito mal. Tanto mal, erra, desorienta as pessoas, danifica. Mas quem deve ser testemunha de Cristo é a comunidade: o sacerdote é testemunha de Cristo por ser membro daquela comunidade. O pobre sacerdote, numa comunidade que não é testemunha de Cristo, não sei se conseguirá ir em frente. Sim, ele poderá testemunhar, mas o apoio da comunidade é o testemunho, e o primeiro trabalho a ser feito é que as comunidades sejam testemunhas de Cristo, comunidades cristãs. Caso contrário, o sacerdote estará sozinho, e pobrezinhos, os padres sozinhos, a sós sob o ponto de vista afetivo, porque a comunidade não os acompanha no testemunho, tornam-se apenas sacerdotes funcionais: a comunidade vai à igreja, “aluga” uma Missa, pede uma sepultura, a primeira Comunhão, e depois deixa-o sozinho. É um isolado numa comunidade que não é testemunha de Cristo. A primeira coisa que te digo é que te questiones: “Como é a tua comunidade, ou a comunidade do teu irmão, daquele outro...? Se uma comunidade não for testemunha de Cristo, ali deve intervir o bispo, ajudar o sacerdote e não o deixar sozinho. “Comê-lo-ão vivo”, porque não se pode ser testemunha sozinhos: há sempre necessidade da comunidade, e os grandes santos — pensemos em Francisco — procuraram imediatamente alguns companheiros, sem demora! A comunidade, Filipe Neri, imediatamente. Porque não se pode ser testemunhas de Cristo se não houver uma comunidade que testemunhe. Tu és testemunha numa comunidade de testemunhas de Cristo. Nisto consiste a relação entre o sacerdote e a comunidade: também a relação deve ser testemunhal. Porque existe uma doença muito grave, isto é, o clericalismo, e nós devemos sair desta enfermidade. Alguns de vós não são católicos, outros não são crentes, mas eu digo-vos com muita humildade: é uma das piores doenças da Igreja. O clericalismo. Quando uma comunidade procura um sacerdote e não encontra um pai, um irmão, mas um doutor, um professor ou um príncipe... E esta é uma das doenças que fazem muito mal à Igreja. Estou preocupado com isto, porque se confunde o papel paterno do sacerdote, reduzindo-o a um cargo de gerente: o “boss”. O boss da empresa, o dirigente... E preocupa-me também as atitudes não paternas, não fraternas do sacerdote que na relação com a comunidade não o deixam ser testemunha de Cristo. Por exemplo, o espiritualismo exagerado: quando encontrares estes padres que pensam estar sempre no céu, que são incapazes de compreender, acham que com uma atitude deste tipo — como digo — “com a cara da beata Imelda” [ri, riem] assim não, não dá... Neste caso, se cometerdes um deslize na vida, vais contá-lo a ele? Mas não, porque tens medo! Não encontras nele o testemunho da misericórdia de Cristo. Ou por exemplo quando vês um sacerdote que é rígido, que vai sempre em frente com rigidez, mas como pode a comunidade ir ter com ele? Falta o testemunho. E quando vês um sacerdote mundano, não é bom, é pior. Rezai por ele a fim de que o Senhor o converta, porque os sacerdotes mundanos causam tanto mal, tanto mal às comunidades. Mas também as comunidades: devem ser comunidades-testemunhas. Um dos vícios da comunidade é a bisbilhotice. Um cardeal simpático contou-me que conhecera um sacerdote com um grande sentido de humor e que na paróquia havia uma mulher muito tagarela, que falava de todos e de tudo. Mas morava tão próximo da paróquia, que da janela da sua casa podia ver o altar. Ia à Missa todos os dias e depois, durante as outras horas girava pela paróquia, falando mal das outras. Um dia estava doente, chamou o sacerdote e disse: “Padre, estou acamada com uma gripe forte, por favor, pode-me trazer a Comunhão?” — “Não se preocupe: a senhora, com a língua que tem, da sua janela chega ao tabernáculo”. Mas diga-me, numa paróquia onde os fiéis mexericam todo o dia contra eles mesmos e contra o sacerdote, o pobre padre está sozinho, sem o testemunho a Cristo da comunidade. E eu menciono apenas a tagarelice, porque para mim é uma das piores coisas das comunidades cristas. Mas, sabem que os mexericos são um terrorismo? Um terrorismo, as bisbilhotices? Sim, porque um bisbilhoteiro se comporta como um terrorista: aproxima-se, fala com um, lança a bomba da tagarelice, destrói e vai-se embora. Tranquilo. Tu és testemunha do sacerdote com a comunidade e da comunidade com o sacerdote.

Por fim, a tua última pergunta, sobre a cultura. Não te assustes com as tatuagens: os eritreus, desde há anos, faziam-se a cruz aqui [indica a testa], também nos nossos dias os vemos. Tatuavam-se a cruz. Sim, há exageros, hoje vejo que alguns... acho que eles têm tantas tatuagens que não podem doar o sangue, não é?, se não me engano é algo do género, porque há perigo de intoxicação... Não, quando se exagera... mas é um problema de exagero, não de tatuagem. A tatuagem indica pertença. Tu, jovem, que te tatuaste assim, o que estás a procurar? Qual pertença exprimes? E começar a dialogar com isto, e a partir dali chegamos à cultura dos jovens. É importante. Mas não te assustes: nunca nos devemos assustar com os jovens, nunca! Pois há sempre, mesmo atrás das coisas não muito boas, algo que nos fará chegar a qualquer verdade. E nunca te esqueças disto: o duplo testemunho juntos, o do sacerdote e o da comunidade com o sacerdote. Obrigado.

Teresina Chaoying Cheng, chinesa, é uma religiosa da Congregação Mãe do Senhor de Daming-Hebeis, que está na Itália para estudar teologia. Lamentando uma formação cultural das irmãs, geralmente, muito superficial, perguntou como se podem equilibrar vida espiritual e relação com a cultura dominante da sociedade. A religiosa ofereceu depois um cachecol vermelho ao Papa Francisco.

Papa Francisco: De Papa ela fez-me de novo cardeal! [riem] Disse que é uma tradição deles, que o cachecol dá cor e que na China o vermelho é a cor da alegria; deseja que isto dê calor ao Papa e alegria. É bonito! Veem, duas coisas que são “de casa”, duas coisas que constituem a relação entre a mãe, o pai e a criança: dar calor e dar alegria. Estes chineses sabem onde estão as raízes! Obrigado.

A tua pergunta era mais longa, li-a ontem. Tu falas sobre a formação; penso que é importante o que dizes. Antes de tudo, aquilo que dizes acerca da entrada na congregação. É verdade, há uma primeira fase de vida espiritual para compreender bem a dimensão espiritual; mas depois, não se pode ir em frente assim sem uma formação de tipo humano, intelectual... Mas, diria, a verdadeira formação religiosa na vida consagrada — isto diz respeito às congregações que têm jovens e também aos sacerdotes — deve ter quatro pilares: formação para a vida espiritual, formação para a vida intelectual — devem estudar — formação para a vida comunitária — devem aprender a resolver os problemas comunitários e a conviver de forma comunitária — e a formação para a vida apostólica — devem aprender a fazer o anúncio evangélico. E se uma de vós, como dizias aqui, desenvolver somente a vida espiritual e depois for enviada para ensinar numa escola ou para fazer catequese, será psicologicamente imatura. Isto representa um problema desta mentalidade. Por que se faz isto? Para proteger do mundo. Mas proteger do mundo “podando” potencialidades? Potencialidades afetivas, potencialidades intelectuais, potencialidades comunicativas? Esta não é proteção, isto significa anular; permito-me usar uma palavra um pouco forte da psiquiatria: isto é “castrar” a pessoa. A verdadeira proteção faz-se ao longo do crescimento. Uma mãe que hiperprotege a criança, anula-a, não a deixa crescer, não a deixa ser livre. E deste modo encontramos na vida tantos, tantos solteirões e solteironas que não souberam encontrar uma vida de amor, de matrimónio, porque foram obrigados à dependência materna ou não tinham liberdade de escolha. Mas é perigoso, podem perder a vocação! Eu prefiro que um jovem, uma jovem, percam a vocação em vez de serem um religioso ou uma religiosa doentios que depois podem causar mal. Ou quando lemos — é necessário falar claramente — sobre casos de abusos: quantos destes foram anulados no desenvolvimento, na liberdade, na educação afetiva e acabaram assim? Não sei, cada um tem a própria história, mas podemos imaginar que as pessoas que acabaram a sua vida assim não foram educadas para a afetividade. Por esta razão, eu diria, quando fores superiora geral ou algo semelhante [ri, riem], procura mudar esta mentalidade. A educação espiritual, intelectual, comunitária e apostólica. Mas desde o início. Conforme as doses de cada etapa, mas sem descuidar alguma. Isto é muito importante, muito importante. E é válido para os sacerdotes e as irmãs, é valido também para os leigos. A maioria de vós vai casar, terá filhos, mas por favor, educai-os bem, deste modo, com todas estas potencialidades. Não anular. Não hiperproteger: isto não é bom, é muito ruim, e tornamo-nos psicologicamente imaturos.

Além disso, há outra coisa... na China, por exemplo: “o que torna difícil o desenvolvimento do germe da vocação presente nos jovens é o facto de eles estarem imersos num ambiente onde o confronto com os outros impele a empreender uma corrida para obter cada vez mais bens materiais”. É verdade. Pensemos no encontro de Jesus com o rico, com aquele jovem rico. Narra o Evangelho que Jesus o amou. Ele tinha uma vida perfeita, mas era tão agarrado ao dinheiro, tão apegado ao dinheiro. Isto faz mal. E quando — dado que falaram um sacerdote e uma religiosa, aproveito a oportunidade — um sacerdote ou uma freira são apegados ao dinheiro, é o pior de tudo. Não vos esqueçais que o diabo entra pelos bolsos. Sempre. É o primeiro degrau. Também a vaidade, a soberba, pensas que és tudo, e a partir dali começam todos os pecados. Lembro-me — para vos fazer rir — da ecónoma de uma congregação, uma mulher forte, idosa, uma alemã, na Argentina, filha de alemães, da migração alemã; ela tinha setenta anos, mas estava em forma! Administrava um colégio enorme... Era muito apegada ao dinheiro, não para ela, para o Instituto, mas o dinheiro era a coisa principal, pobre mulher, era boa, contudo não tinha sido educada neste sentido. E um certo dia durante o intervalo do café, durante o “break” com os professores, desmaiou. Todos começaram a dizer: “irmã, irmã, irmã”, e não reagia. E uma professora disse: “Alguém tem uma nota de 100? Passemo-la debaixo do seu nariz, talvez reaja”. Este é o comentário das pessoas quando veem um sacerdote ou uma freira apegados ao dinheiro. Por favor, é melhor passar fome do que ser agarrado ao dinheiro.

“A este ponto, Santo Padre — tinhas escrito inicialmente uma longa pergunta — gostaria de lhe apresentar a seguinte questão: perante as culturas que não dão espaço a Deus, diante da sociedade que adora a supremacia da matéria, nós jovens religiosas como podemos equilibrar a nossa formação cultural e a nossa vida espiritual?”. Por favor, protegei o desenvolvimento das irmãs, mas protegei-o com a vida, através do diálogo com esta vida que não procura Deus, que está apegada somente aos bens materiais. Que aprendam a avançar assim, mas não as protejais como o tomate no inverno dentro de estufas, por favor, não. Porque quando chegar o verão e saírem dali, não servirão, não terão sabor. É bom protegê-las, tendo em conta os riscos do ambiente, mas é necessário protegê-las bem. Proteger significa acompanhar, ensinar, ajudar e, sobretudo, amar. Isto é o principal.

Penso que isso é suficiente para a China. Obrigado.

E obrigado pelo cachecol!

 



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