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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
AOS PARTICIPANTES NO SEMINÁRIO SOBRE O TEMA "EDUCATION: THE GLOBAL COMPACT"
PROMOVIDO PELA PONTIFICIA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Sala do Consistório
Sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

[Multimídia]


 

Estimados amigos!

Tenho o prazer de vos saudar por ocasião do Seminário promovido pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais sobre “Educação: o Pacto Global”. Apraz-me que reflitais sobre este tema, porque hoje é necessário unir esforços para alcançar uma ampla aliança educativa a fim de formar pessoas maduras, capazes de reconstruir, reconstruir o tecido das relações e criar uma humanidade mais fraterna (cf. Discurso ao Corpo Diplomático, 9 de janeiro de 2020).

A educação integral e de qualidade e os níveis de educação continuam a ser um desafio mundial. Apesar dos objetivos e metas formulados pela Organização das Nações Unidas (onu) e outros organismos (cf. Objetivo 4), e dos importantes esforços envidados por alguns países, a educação continua a ser desigual entre a população mundial. A pobreza, a discriminação, as mudanças climáticas, a globalização da indiferença e a coisificação do ser humano fazem murchar o florescimento de milhões de criaturas. Com efeito, para muitos elas representam um muro quase intransponível, que impede alcançar os objetivos e as metas de desenvolvimento sustentável e garantido que os povos se propuseram.

Hoje a educação primária é um ideal normativo em todo o mundo. Os dados empíricos que vós, senhores académicos, compartilhais indicam que foram alcançados progressos na participação de meninos e meninas na educação. Atualmente a matrícula de jovens no ensino primário é quase universal e observa-se que a diferença de género diminuiu. Trata-se de um feito louvável! Entretanto, cada geração deve reconsiderar como transmitir os seus conhecimentos e valores à geração seguinte, pois é através da educação que o ser humano atinge o seu máximo potencial, tornando-se um ser consciente, livre e responsável. Pensar na educação é pensar nas gerações vindouras e no futuro da humanidade; por conseguinte, é algo profundamente enraizado na esperança e requer generosidade e coragem.

Educar não é só transmitir conceitos, isto seria uma herança do iluminismo que deve ser superada, ou seja, não é apenas transmitir conceitos, mas é uma tarefa que exige que todos os responsáveis por ela — família, escola e instituições sociais, culturais, religiosas... — participem na mesma de modo solidário. Neste sentido, nalguns países diz-se que o pacto educativo se quebrou porque falta esta participação social na educação. Para educar é preciso buscar a integração da linguagem da cabeça com a linguagem do coração e a linguagem das mãos. Que um aluno pense no que sente e faz, sinta o que pensa e faz, faça o que sente e pensa. Integração total. Ao promover a aprendizagem da cabeça, do coração e das mãos, a educação intelectual e socioemocional, a transmissão dos valores e virtudes individuais e sociais, o ensino da cidadania engajada e solidária com a justiça, e a transmissão das competências e conhecimentos que formam os jovens para o mundo do trabalho e da sociedade, as famílias, as escolas e as instituições tornam-se veículos essenciais para o empowerment da próxima geração. Então sim, já não se fala de um pacto educacional quebrado. Este é o pacto!

Hoje o chamado “pacto educativo” está em crise, quebrou-se; o pacto educativo cria-se entre a família, a escola, a pátria e o mundo, a cultura e as culturas. Quebrou-se e está realmente quebrado; não pode ser recolado nem recomposto. Não pode ser reparado, a não ser através de um renovado esforço de generosidade e de acordo universal. Pacto educativo quebrado significa que tanto a sociedade, como a família e as diferentes instituições chamadas a educar delegam a tarefa educacional decisiva a outros, e assim as diferentes instituições básicas e os próprios Estados que renunciaram ao pacto educativo evitam esta responsabilidade.

Hoje somos chamados, de vários modos, a renovar e reintegrar o compromisso de todos — pessoas e instituições — na educação, a refazer um novo pacto educativo, porque só assim a educação pode mudar. É por isso que temos necessidade de integrar os conhecimentos, a cultura, o desporto, a ciência, o entretenimento e a recreação; é por isso que temos necessidade de construir pontes de ligação, superar, permiti-me a expressão, superar as “frivolidades” que nos fecham no nosso pequeno mundo, e de ir ao largo no mar global, respeitando todas as tradições. As novas gerações devem compreender claramente a própria tradição e cultura — isto não se negocia, é inegociável — em relação às outras, de modo a desenvolver a própria autocompreensão, enfrentando e aceitando a diversidade e as mudanças culturais. Desta forma será possível promover uma cultura de diálogo, uma cultura de encontro e de compreensão mútua, de forma pacífica, respeitadora e tolerante. Uma educação que permita identificar e promover os verdadeiros valores humanos numa perspetiva intercultural e inter-religiosa.

É necessário que a família seja valorizada no novo pacto educativo, pois a sua responsabilidade começa já no ventre materno, no momento do nascimento. Mas as mães, os pais — os avós — e a família como um todo, no seu papel educacional primário, precisam de ajuda para compreender, no novo contexto global, a importância desta fase inicial da vida, e a fim de estar preparados para agir consequentemente. Uma das formas fundamentais para melhorar a qualidade da educação a nível escolar é alcançar uma maior participação das famílias e das comunidades locais nos projetos educativos. Elas fazem parte desta educação integral, oportuna e universal.

Neste momento, gostaria também de prestar homenagem aos professores — sempre mal remunerados — porque, diante do desafio da educação, eles vão em frente com coragem e dedicação. Eles são os “artífices” das futuras gerações. Com o seu conhecimento, paciência e abnegação, transmitem um modo de ser que se transforma em riqueza, não material mas imaterial, criando o homem e a mulher de amanhã. É uma grande responsabilidade! Portanto, no novo pacto educativo, a função dos professores, como agentes da educação, deve ser reconhecida e apoiada com todos os meios possíveis. Se o nosso objetivo consistir em oferecer a cada indivíduo e a cada comunidade o nível de conhecimento necessário para ter a própria autonomia e ser capaz de cooperar com os outros, é importante focar na formação de educadores com os mais altos padrões de qualidade, em todos os níveis académicos. Para apoiar e promover este processo, é necessário que eles disponham de recursos nacionais, internacionais e particulares adequados para que, em todo o mundo, possam cumprir a sua tarefa de maneira eficaz.

Neste Seminário sobre “Educação: o Pacto Global” vós, académicos de algumas das universidades mais conceituadas do mundo, identificastes novos instrumentos para fazer com que a educação seja mais humana, equitativa, satisfatória e importante para as diversas necessidades das economias e sociedades do século xxi. Entre outras coisas, examinastes a nova ciência da mente, o cérebro e a educação, a promessa da tecnologia de alcançar as crianças que atualmente não têm oportunidades de aprendizagem, e o tema deveras importante da educação de jovens refugiados e imigrantes em todo o mundo. Abordastes os efeitos da desigualdade crescente e das mudanças climáticas sobre a educação, assim como os instrumentos para inverter os efeitos de ambos e fortalecer as bases para uma sociedade mais humana, saudável, justa e feliz.

Falei sobre as três linguagens: da mente, do coração e das mãos. E falando das raízes e valores, podemos falar da verdade, bondade e criatividade. Mas não quero terminar este discurso sem falar da beleza. Não se pode educar sem induzir à beleza, sem induzir o coração à beleza. Forçando um pouco o discurso, ouso dizer que a educação não é eficaz se não souber criar poetas. O caminho da beleza é um desafio que deve ser enfrentado.

Encorajo-vos nesta vossa tarefa tão importante e apaixonante: colaborar para a educação das futuras gerações. Não se trata de uma questão de amanhã, mas de hoje. Ide em frente, que Deus vos abençoe. Rezo por vós e vós fazei-o por mim. Obrigado!

 



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