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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À POLÓNIA
(16-23 DE JUNHO DE 1983)

SANTA MISSA DEDICADA A NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS
PADROEIRA DE VARSÓVIA

HOMILIA DO SANTO PADRE

Estádio «X Ano» de Varsóvia
17 de Junho de 1983

 

Seja louvado Jesus Cristo!

Dirijo-me com esta saudação a todos os habitantes de Varsóvia, capital da Polónia, reunidos nesta assembleia litúrgica, bem como a todos os Visitantes, vindos de fora de Varsóvia, da Arquidiocese de Varsóvia, e em particular:

Saúdo o Cardeal Primaz da Polónia na sua qualidade de Metropolita de Varsóvia, todos os Cardeais visitantes, Arcebispos e Bispos, de modo particular os que concelebram comigo esta Santa Missa.

Saúdo o Cabido Metropolitano e todo o Clero de Varsóvia e da Arquidiocese; os Vizinhos e os provenientes das outras partes da Polónia. Saúdo as Ordens Religiosas Masculinas e Femininas, os Seminários Eclesiásticos e os Ateneus Católicos aqui representados.

Saúdo-vos a todos, Irmãos e Irmãs! Meus Compatriotas!

2. Louvei Jesus Cristo com a antiga saudação polaca, e todos vós respondestes "pelos séculos dos séculos". Cristo é de facto "o mesmo ontem, hoje e sempre" (Heb. 13, 8). Cristo é "o Senhor do tempo futuro", como afirma a primeira leitura da liturgia de hoje, tirada do Livro do Apocalipse. É Ele, Cristo crucificado e ressuscitado, Aquele que deu inicio à "vida eterna" quer na história do cosmos quer na história da humanidade. É Ele, como Redentor do mundo, que prepara já "um novo céu e uma nova terra" (Apoc. 21, 1). É pela sua obra que João, o autor do Apocalipse, vê "a cidade santa, a nova Jerusalém, descer do céu, de junto de Deus, bela como uma esposa... para o seu esposo" (ibid. v. 2). É pela sua obra, de Cristo, que João, o autor do Apocalipse, ouve uma voz potente que diz: "Eis aqui o tabernáculo de Deus entre os homens! Habitará com eles, serão o Seu povo e o próprio Deus estará com eles. Ele enxugará as lágrimas dos seus olhos; não haverá mais morte, nem pranto, nem gritos, nem dor..." (ibid. v. 3-4).

É Ele, Cristo crucificado e ressuscitado, que fará com que, passadas as primeiras coisas (cf. ibid.), se realizem as palavras do livro: "Eis que faço novas todas as coisas" (ibid. v. 5).

Quando louvei o nome de Jesus Cristo respondestes: "pelos séculos dos séculos", atingindo com esta resposta não só todo o futuro, que está ainda diante de nós, o futuro do mundo temporal que passa, mas também toda aquela dimensão do "século futuro", ao qual o próprio Deus, por obra de Cristo, conduz no Espírito Santo o mundo e a humanidade.

3. Cristo, "pai do século futuro", é ao mesmo tempo "ontem e hoje". Quando estive na Polónia, no primeiro ano do meu serviço na sé romana de São Pedro, afirmei em Varsóvia, na Praça da Vitória, que é difícil compreender a história da nossa Pátria, o nosso histórico "ontem" e também o "hoje", sem Cristo.

Passados quatro anos, regresso novamente como peregrino a Jasna Góra, para participar no jubileu nacional desta bem-aventurada Efígie, na qual desde há seis séculos a Mãe de Cristo permanece no meio do nosso povo. O Evangelho da liturgia de hoje — o mesmo que se lê em Jasna Góra — compara esta permanência de Maria entre nós com a sua presença em Caná da Galileia. Ali foram também, juntamente com Ela, Jesus e os seus discípulos.

Se dizemos que não é possível compreender o nosso histórico "ontem" e também o "hoje", sem Cristo, vemos como o jubileu de Jasna Góra põe em relevo que esta presença, de Cristo na nossa história está — como em Caná da Galileia — unida de um modo admirável à presença da sua Mãe. É desta presença, a nós tão cara, que a Igreja na Polónia dá precisamente testemunho mediante, o jubileu de Jasna Góra, iniciado no ano passado e prolongado até ao corrente ano. Desejo também eu dar testemunho, juntamente convosco, desta mesma presença materna, e é por isso que venho à Pátria, agradecendo o convite a todas as componentes da sociedade.

Juntamente convosco, caros Irmãos e Irmãs, desejo proclamar, no início desta minha peregrinação, que graças à particular presença de Maria na história da nossa Nação, o próprio Cristo, na sua Divindade e ao mesmo tempo na sua Humanidade, está-nos ainda mais próximo. Procuremos compreender a Cruz e a Ressurreição, procuremos compreender o mistério da Redenção, através do Coração da sua Mãe. Procuremos o acesso a Cristo através de Maria, como fizeram todas aquelas pessoas em Caná da Galileia. A característica cristocêntrica do nosso cristianismo uniu-se profundamente à característica mariana, materna. Digo-o aqui em Varsóvia, Capital da Polónia, cuja Padroeira é, desde há muito tempo, Nossa Senhora das Graças.

4. Digo-o também num momento histórico preciso. No ano de 1983, tendo diante de nós o nosso milénio polaco e os seiscentos anos de Jasna Góra, brilha com um luminoso reflexo a histórica data de há trezentos anos: o socorro a Viena, a vitória vienense! É este aniversário que nos une a todos nós. Polacos, bem como aos nossos vizinhos do sul e do oeste, tanto os mais próximos como os mais distantes. Tal como há trezentos anos nos uniu a ameaça comum, assim, passados trezentos anos, nos une o aniversário do combate e da vitória.

Este combate e esta vitória não abriram um abismo entre a Nação polaca e a turca. Provocaram, pelo contrário, respeito e estima. Sabemos que quando a Polónia desapareceu do mapa político da Europa, no final do século XVIII, o governo turco nunca reconheceu o facto da sua repartição. Na corte otomana —  segundo a tradição — durante as solenes recepções aos representantes dos demais Estados, perguntava-se com insistência: "Está presente o enviado do Lechistan?". A resposta "ainda não", foi dada durante muito tempo, até que chegou o ano de 1918, e o representante da Polónia independente se dirigiu de novo à capital da Turquia. Tive a possibilidade de o constatar durante a minha estadia na capital da Turquia, onde visitei o Patriarca de Constantinopla.

Era necessário recordar este pormenor curioso, para assim apreciar plenamente o valor do socorro a Viena em 1683 e a vitória do rei D. João III Sobieski.

5. O Rei informou a Sé Apostólica da vitória com estas significativas palavras: "Venimus, vidimus, Deus vicit" — chegámos, vimos, Deus venceu. Estas palavras do soberano cristão imprimem-se profundamente tanto no Milénio do nosso Baptismo, como no Jubileu de Jasna Góra deste ano. Com efeito, D. João III, durante a sua campanha vienense fez peregrinações a Jasna Góra e a outros santuários marianos.

As palavras do rei imprimiram no nosso "ontem" histórico a verdade evangélica acerca da vitória, da qual fala também a segunda leitura da liturgia de hoje. O homem é chamado a conseguir a vitória em Jesus Cristo. É esta a vitória sobre o pecado, sobre o "homem velho", radicado profundamente em cada um de nós.

Pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores... pela obediência de um só, muitos se tornariam justos" (Rom. 5, 19). São Paulo fala de Adão e de Cristo.

"Deus vicit" (Deus venceu): pela potência de Deus, que por obra de Cristo actua em nós através do Espírito Santo, o homem é chamado à vitória sobre si mesmo, à vitória sobre aquilo que domina a sua vontade livre e a submete ao mal. Uma tal vitória significa viver na verdade, significa rectidão de consciência, amor ao próximo, capacidade de perdoar, significa o desenvolvimento espiritual da nossa humanidade.

Recebi nos últimos meses muitas cartas de diversas pessoas, entre elas alguns internados. Estas cartas foram para mim em muitos casos um testemunho edificante exactamente de tais vitórias interiores, das quais se pode dizer: "Deus venceu" — Deus venceu no homem. De facto, o cristão é chamado à vitória em Jesus Cristo. Uma tal vitória é inseparável da fadiga e até do sofrimento, assim como a ressurreição de Cristo é inseparável da Cruz.

"E venceu já hoje, ainda que estivesse caído por terra, aquele que ama e perdoa — disse o Cardeal Stefan Wyszynski —, aquele que, como Cristo, dá o seu coração e por fim a própria vida pelos irmãos" (Homilia 24.6.1966).

6. No decurso da sua história, a Nação conseguiu vitórias, pelas quais se alegra, do mesmo modo que este ano se alegra pela vitória vienense.

Mas sofre também derrotas que lhe trazem sofrimento. Estas derrotas foram numerosas nos últimos séculos. Não diríamos toda a verdade se afirmássemos que elas foram apenas derrotas políticas, que culminaram com a perda da independência. Elas foram também derrotas morais: a decadência moral no tempo dos Saxões, a perda da sensibilidade pelo bem comum que levou a lamentáveis crimes contra a Pátria. Todavia, já na segunda metade do século XVIII se observam tentativas decisivas de um renovamento social, cultural e político. Basta recordar a Comissão de Educação e sobretudo a Constituição de 3 de Maio. No contexto destas tentativas, o golpe que infligiram à Primeira República os Estados que realizaram a repartição da Polónia, foi uma terrível injustiça da história, a violação dos direitos da Nação e da ordem internacional.

Do mesmo modo que um homem sente o dever de conseguir uma vitória moral se deseja que a sua vida tenha um.... sentido, assim também acontece com uma Nação, que é uma comunidade de homens. Por isso assistimos durante todo o século XIX a infatigáveis tentativas de reconstrução moral e de readquirir a independência política, o que se conseguiu a seguir à primeira guerra mundial. Falo de todas estas coisas, porque a história da Nação se inscreve no nosso jubileu nacional, dos seis séculos da presença de Maria, Rainha dá Polónia, em Jasna Góra. Também ali encontram uma profunda ressonância tanto as vitórias como as derrotas. É de lá que nos chega constantemente o apelo a não nos rendermos perante uma derrota, mas a procurarmos os caminhos da vitória. Cristo é, "o Pai do século futuro", e o Reino de Deus supera a dimensão das questões temporais. Ao mesmo tempo porém, Cristo é "ontem e hoje" e assim se encontra com o homem de cada geração, encontra-se também com a Nação, enquanto comunidade de homens. É deste encontro que provém aquela chamada à vitória na verdade, na liberdade, na justiça e no amor, da qual falou João XXIII na Encíclica Pacem in Terris.

7. Esta Encíclica foi publicada há vinte anos, e continha em si o profundo reflexo daqueles esforços, tendentes a manter a paz no mundo contemporâneo depois da terrível experiência da segunda guerra mundial. A Igreja participa nestes esforços da família humana, isto é, considera isso parte da sua missão evangélica.

Como sucessor de João XXIII e de Paulo VI na Sé de Roma, tive muitas ocasiões de me pronunciar sobre este tema. Pouco depois do meu regresso da Polónia, em 1979, fi-lo diante da Assembleia da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque. Será também para mim inesquecível a mensagem-oração, lançada de Hiroxima, em Fevereiro de 1981.

Não posso deixar de voltar hoje de novo ao mesmo tema durante a minha estadia em Varsóvia capital da Polónia, que no ano de 1944 foi reduzida a ruínas pelos invasores. Daqui renovo pois a minha mensagem de paz, a mesma que da parte da Sé Apostólica, chega constantemente a todas as Nações e a todos os Estados, especialmente àqueles sobre os quais pesa a maior responsabilidade pela causa da paz no mundo contemporâneo.

Também desta cidade, capital da Nação e do Estado, que a preço dos maiores sacrifícios combateu pela boa causa durante a última guerra mundial, quero recordar a todos que o direito da Polónia à soberania e também ao correcto desenvolvimento no campo cultural e no campo sócio-económico faz apelo à consciência de muitos homens e de muitas sociedades no mundo. A Polónia manteve até ao fim, aliás de modo total, os empenhos de aliada, assumidos durante as terríveis experiências dos anos 1939-1945. A sorte da Polónia no ano de 1983 não pode ser indiferente às Nações do mundo, especialmente da Europa e da América.

Meus caros Compatriotas! Irmãos e Irmãs! No ano de 1944 a capital da Polónia foi transformada num monte de ruínas. Depois da guerra, a mesma Varsóvia foi reconstruída assim, como a vemos hoje sobretudo daqui, deste lugar: antiga e moderna ao mesmo tempo. Não é esta mais uma Vitória moral da Nação? E muitas outras cidades e centros populacionais foram reconstruídos nos territórios polacos, sobretudo nas zonas setentrionais e ocidentais, que terei oportunidade de visitar durante a minha actual peregrinação, isto é, Wroclaw e Góra Swietej Anny.

8. "Venimus, vidimus, Deus vicit": as palavras do Rei pronunciadas depois da vitória vienense imprimiram-se no conteúdo do nosso milénio, e deste jubileu de Jasna Góra, no qual exprimimos o nosso agradecimento pelos seis séculos da presença particular da Mãe de Deus na nossa história.

O desejo da vitória, de uma nobre vitória, conseguida mesmo à custa da fadiga e da cruz, de uma vitória obtida até através de derrotas, faz parte do programa de vida do homem cristão, e também da vida da Nação.

A minha presente visita à Pátria realiza-se num período difícil. Difícil para muitos homens, difícil para toda a sociedade. Como são grandes estas dificuldades! Como são grandes estas dificuldades, vós próprios, caros Compatriotas, sabei-lo melhor do que eu, se bem que também eu viva profundamente toda a experiência, dos últimos anos, desde Agosto de 1980. Esta experiência é de resto importante para muitas sociedades da Europa e do mundo. Não faltam em todo o lado homens que se apercebem disso. Não faltam sequer aqueles que, especialmente desde Dezembro de 1981, ajudam a minha Nação. Por tudo isto, também eu me sinto grato a todos.

Todavia, a Nação deve viver sobretudo com as suas próprias forças e desenvolver-se com elas. Ela deve conseguir esta vitória por si própria, vitória que a Providência Divina lhe dá como tarefa neste momento histórico. Todos sabemos que não se trata de uma vitória militar, como há trezentos anos, mas de uma vitória de natureza moral. É exactamente uma tal vitória que constitui a substância do renovamento proclamado por várias vezes. Trata-se de restabelecer uma ordem equilibrada, tanto ao nível da vida nacional como da vida do Estado, na qual sejam respeitados os direitos fundamentais do homem. Somente uma vitória moral pode levar a sociedade a eliminar a divisão e a reencontrar a unidade. Uma tal ordem pode ser também ao mesmo tempo uma vitória dos governantes e dos governados. Torna-se necessário construi-la pela via do diálogo recíproco e do acordo, a única estrada que permitirá à Nação usufruir plenamente dos direitos civis e de estruturas sociais correspondentes às suas justas exigências, capazes de desenvolver o consenso, do qual o Estado tem necessidade para desempenhar as suas funções, e mediante o qual a Nação exprime a sua soberania concreta.

Repito aqui as palavras da Carta Pastoral do Episcopado polaco para o dia 29 de Agosto de 1982;

"A nação polaca tem necessidade de um verdadeiro renovamento moral e social, para que possa encontrar de novo a fé em si mesma, no seu futuro, a confiança nas suas próprias forças. Torna-se necessário acordar as energias morais e a generosidade social para poder enfrentar a grande fadiga do trabalho e as renúncias necessárias que estão diante de todos nós. Constitui uma urgente necessidade a reconstituição da confiança entre a sociedade e o poder, para construir na base de um esforço comum melhor futuro para a Pátria, e assegurar os interesses da Nação e do Estado".

9. Caros Irmãos e Irmãs! Participantes nesta Liturgia do Papa peregrino, vosso compatriota, na capital da Polónia! Daqui, de Varsóvia, parto para Jasna Góra, à qual o defunto Cardeal Stefan Wyszynski costumava chamar "Jasna Góra da vitória" ("Claro Monte da vitória").

Desejo levar ali este dom particular que, no ano do jubileu de Jasna Góra, foi a elevação aos altares do mártir polaco de Oswiecim, São Maximiliano Maria. Agradeço à Providência divina por me ter permitido proceder a esta canonização no dia 10 de Outubro do ano de 1982.

Partindo de Varsóvia para Jasna Góra, integro-me espiritualmente no cortejo dos peregrinos que, desde 1711, desde há portanto 272 anos, se dirige cada ano da capital da Polónia para a capital da Rainha da Polónia: a peregrinação de Varsóvia.

Desejo apresentar-me diante da Mãe de Deus e do seu Divino Filho, Jesus Cristo, o "Pai do século futuro", e que é ao mesmo tempo "ontem e hoje". Em particular é o "ontem" e o "hoje" das gerações que passaram e passam através da nossa Pátria. Desejo levar ali todos os sofrimentos da minha Nação, juntamente com aquele desejo de vitória, que não a abandona mesmo no meio de todas as derrotas e das experiências da história.

"E quero dizer:

Toma sob a tua protecção toda a Nação, que vive para a tua glória. Que ela se torne esplêndida, ó Maria!".

 



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