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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À ÁUSTRIA
[10-13 DE SETEMBRO DE 1983]

SANTA MISSA PARA OS REPRESENTANTES DO APOSTOLADO DOS LEIGOS
E DE DIVERSOS SERVIÇOS ECLESIAIS

HOMILIA DO SANTO PADRE

Catedral de Santo Estêvão, Viena
12 de setembro de 1983

 

1. Seja louvado Jesus Cristo!

Saúdo-vos no nome de Jesus Cristo, porque "não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar" (Act. 4, 12).

Saúdo-vos no Nome de Maria, que o Evangelho de hoje põe em realce, e cuja festa litúrgica teve início aqui, há trezentos anos.

Saúdo todos vós aqui reunidos na venerável Catedral consagrada a Santo Estêvão. Foi construída pela comunidade das Dietas com sacrifícios de dezenas de anos e, depois da sua destruição na Segunda Guerra Mundial, foi reconstruída com as ofertas dos cidadãos e das Províncias da Áustria. Como então, representa o testemunho da fé cristã, o centro da cidade de Viena e do Episcopado.

Hoje, nesta festiva ocasião, está reunido, nas pessoas dos próprios representantes, todo o apostolado leigo para celebrar a Santa Missa com o seu Cardeal, os bispos, os sacerdotes e os diáconos e com o sucessor de São Pedro. Estamos todos unidos por um comum passado cristão, do qual faz parte também a história da libertação da vossa Pátria. Ao mesmo tempo une-nos uma missão comum: a missão de proclamar a Salvação no mundo de hoje.

2. Caros Irmãos e Irmãs! "O anjo Gabriel foi enviado por Deus... a uma virgem... O nome da virgem era Maria" (Lc. 1, 26.27).

A descrição da Anunciação segundo Lucas fala do envio de Gabriel a Maria, a Virgem de Nazaré. Ao mesmo tempo este trecho revela-nos como foi enviado o Filho de Deus: Deus, o Pai, envia-O ao mundo dando-Lhe uma mãe terrena. A vinda do Filho de Deus realiza-se no Seu tornar-se homem. O Verbo, uno com o Pai, encarna; no seio da virgem faz-Se homem mediante o Espírito Santo. Maria acolhe o anúncio do Anjo com fé e pronuncia o seu "Fiat", o seu sim: deste modo torna-se a Mãe de Cristo.

Este acontecimento é o vértice da história da Salvação: tem início aqui a obra messiânica de Cristo entre os homens. "Será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo... e o Seu reinado não terá fim" (Lc. 1, 32, 33).

3. A missão de Cristo, que se realiza na cruz no Calvário, e que é confirmada pelo Pai através da Ressurreição, tem o seu seguimento. O Senhor ressuscitado dirá aos Apóstolos: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo. 20, 21). Envia-os como testemunhas do Evangelho, testemunhas da cruz e da ressurreição. Envia-os como embaixadores do reino de Deus. Envia-os para poder operar, daí por diante, com as palavras, as acções e os corações deles. Mediante o Espírito Santo completou-se e realizou-se a missão terrena do Filho de Deus; mediante o mesmo Espírito os Apóstolos devem cumprir a missão, que lhes foi confiada.

A segunda leitura da Liturgia de hoje mostra-nos os Apóstolos reunidos à espera do Espírito Santo "em companhia de algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus e de Seus irmãos" (Act. 1, 14). "Todos eles estavam reunidos em oração", em oração ao Espírito Santo.

Este primeiro núcleo da Igreja primitiva não é já a imagem do povo de Deus, formada hoje pelos bispos, sucessores dos Apóstolos, e pelos cristãos leigos, homens e mulheres? Em conformidade com a vontade manifestada por Deus e com a sua missão na história, a Igreja conhece efectivamente duas dimensões do apostolado: o apostolado do serviço que lhe deriva da sucessão apostólica dos bispos e o apostolado dos leigos que deriva da comum chamada de cada cristão.

O Concilio Vaticano II explicou eficazmente estas duas dimensões, no seu valor autêntico, independentes mas em estreita relação entre si. Aqui encontramos o fundamento teológico constante para cada realização concreta destas duas formas de apostolado nos nossos dias. O apostolado dos religiosos e o dos leigos não estão em contraste, mas integram-se profundamente entre si. Na Igreja primitiva, em Jerusalém, não havia uma "Igreja que está no alto" e uma "Igreja que está em baixo": "em companhia de algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus e dos Seus irmãos, todos os Apóstolos estavam reunidos em oração".

4. Irmãos e Irmãs! Esta catedral, onde se respira a história e a fé constante da vossa Pátria, recorda-nos que uma vez homens e mulheres corajosos trouxeram para este País a Mensagem de Jesus Cristo. Juntamente com os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, inumeráveis leigos de todas as camadas sociais e de todas as condições económicas trouxeram o Evangelho, implantaram-no, ocuparam-se dele e fizeram-no florescer. Só Deus conhece quanta fé, quanta esperança e quanto amor estes homens viveram e despertaram nos outros.

Também hoje a Igreja não se cansa de distribuir o dom da misericórdia de Deus. Ao mesmo tempo prodiga-se incansavelmente para que o terreno árido se torne fértil. Para que isto possa realizar-se, podeis dar o vosso contributo na vossa específica missão de leigos. O leigo é ao mesmo tempo sinal de salvação no mundo e ponte entre a Igreja e o mundo. Muitas vezes estais em contacto muito mais estreito com as condições de vida, as necessidades, as esperanças e as contradições espirituais do nosso tempo, do que os sacerdotes e os religiosos. Só com o apostolado generoso dos leigos, em união com os pastores da Igreja, vivificado pela Graça sacramental, a Igreja é verdadeiramente Igreja (cf. Ad gentes, 21).

Como Sucessor de São Pedro quereria exprimir-vos o meu sentido agradecimento pelo serviço que prestais nesta missão, que o Filho do Pai confiou à Sua Igreja. Servis o evangelho em diversos modos: cada um no seu campo e em conformidade com a própria vocação pessoal — mas todos em estreita colaboração entre si. Fostes vós a seguir esta vocação e a assumir estes compromissos. Ao mesmo tempo, porém, fostes escolhidos por Deus e repletos da Sua graça.

5. Estais portanto conscientes de que toda a vossa obra no apostolado leigo é, afinal, o serviço do anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo. Isto vale em especial modo para aqueles que estão comprometidos directamente no serviço da transmissão da fé. Refiro-me aqui aos professores de religião nas escolas, e a todos aqueles que, noutros campos, educam à fé, sobretudo na preparação para o Baptismo, para a Crisma, para a Confissão e a Comunhão e para o Matrimónio.

O Evangelho de João revela-nos que em Jesus o Verbo divino fez-se homem (Jo. 1, 14). Deus é verdade; e foi-nos concedido descobrir esta verdade na nossa vida, repeti-la, divulgá-la e isto na nossa língua, com palavras e frases nossas. Daqui o compromisso da Igreja em enunciar e divulgar a fé com Dogmas claros. Isto corresponde também à natureza do homem, que possui o dom regal do intelecto para escutar, reflectir e aprender. Muitas correntes espirituais exigem a instrução na catequese: "praticando a verdade, cresceremos em todas as coisas pela caridade" (Ef. 4, 15) respondemos com o Apóstolo Paulo. Não vos canseis, pois, de servir e ensinar a verdade, a fim de que "a verdade do Evangelho perdure para vós" (Gál. 2, 5). A Sagrada Escritura chama ao inimigo de Deus "pai da falsidade" (Jo. 8, 44); chama, por outro lado, à nossa colaboração "Espírito de Verdade" (Jo. 4, 23).

Sei que o vosso serviço na catequese está cheio de obstáculos. Mas confiemos que o Espírito de Deus vive na Igreja com a Sua verdade e não permitamos que aqueles que nos foram confiados vivam a solidão de uma interpretação subjectiva da fé. Procuremos utilizar todos os justos métodos, para que a verdade seja transmitida de modo compreensível (cf. Col. 3, 2). Ao mesmo tempo, porém, tenhamos presente a advertência do Apóstolo: "Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente" (2 Tim. 4, 2).

A evangelização confiada aos leigos realiza-se sobretudo no ambiente deles. Justamente dizemos que os pais são os primeiros catequistas dos próprios filhos, que o trabalhador é o primeiro apóstolo dos trabalhadores, que os jovens escutam mais facilmente os seus coetâneos do que os adultos. Onde quer que vivais como católicos crentes, confirmados no Baptismo e na Crisma, ali sois os autênticos mensageiros da fé, com a tarefa de libertar os homens mediante a verdade (cf. Jo. 8, 32).

Será uma grande ajuda neste sentido criar comunidades. A Igreja sempre demonstrou uma força inexaurível, todas as vezes que se criaram comunidades de vida espiritual e de apostolado, no caminho secular da sua existência. Algumas têm vida breve, outras permanecem vivas e vitais no decurso dos séculos.

Eu saúdo todas estas comunidades! Conheço o vosso empenho pela formação da vida social e religiosa, que até agora assumistes e que também hoje vos é requerido. Esforçai-vos, por conseguinte, por uma constante renovação das fontes, que nos vêm do ensinamento da Igreja e do exemplo de homens santos. A Eucaristia deve representar o ponto de referência fundamental, do qual deveis haurir a força para o vosso apostolado.

Há muito tempo também no vosso País muitas pessoas são disponíveis a coadjuvar directamente bispos e sacerdotes na cura das almas. Sobretudo as assistentes na cura das almas, realizaram uma obra de pioneiros num serviço que hoje, nas comunidades, é cada vez mais reconhecido na profissão da Assistente pastoral. Penso também com gratidão em tantos outros homens e mulheres que servem o Reino de Deus na Igreja a tempo integral: sacristães e organistas, juristas e administradores. Sobretudo os colaboradores da Cáritas católica, e todos aqueles que, em espírito cristão, prestam a sua obra nas diversas organizações assistenciais, são o reflexo do rosto amável e da mão estendida de Cristo. Todo o vosso agir será a prova da misericórdia de Deus para com os aflitos. A comunhão com quem sofre, no nome de Jesus, deve ser a razão de todo o compromisso social da Igreja.

Para um oportuno coordenamento de todos estes serviços no âmbito da Igreja, existem também no vosso País conselhos paroquiais e instituições similares a nível mais alto. Todas estas organizações põem em evidência a realidade de todo o povo de Deus. Colaboram para que sacerdotes e leigos possam procurar caminhos comuns para a evangelização; permitem à Igreja do vosso País fazer ouvir melhor a própria voz.

Por fim, quereria nomear também aqueles que prestam o seu serviço no silêncio. Tem a sua importância que o edifício de uma igreja seja cuidado e ornado com amor; tem a sua importância quem se ocupa da paróquia; é importante o espírito com que se enfrentam os variados pequenos encargos numa comunidade, que podem ser grandes aos olhos de Deus. Também estas coisas abrem o caminho ao Evangelho, se são executadas com convicção e com o coração.

6. Caros irmãos e irmãs! Para que a vossa obra nos vários campos do apostolado leigo possa ser verdadeiramente eficaz, deveis estar profundamente convictos e animados pelo Espírito de Cristo. Por conseguinte, exorto-vos a santificar a vossa vida. No vosso País viveram e actuaram Santos cuja memória é inesquecível. Pensamos sobretudo, aqui em Viena, em São Clemente Maria Hofbauer. Houve entre eles sacerdotes e leigos, homens e mulheres, religiosos e religiosas. E também em tempos mais recentes houve homens para os quais olhamos com gratidão e esperança embora ainda não tenham sido elevados às honras dos altares.

Um Santo é, na vida e na morte, a tradução do Evangelho para o seu País e o seu tempo. Cristo não hesita em chamar os seus discípulos para a sucessão e para a perfeição (cf. Mt. 5, 48). O Sermão da Montanha é um ensinamento exemplar para a santidade. Não tenhais medo desta palavra, não tenhais medo da verdade de uma vida santa! É verdade que a Igreja necessita das vossas grandes instituições, estruturas e meios financeiros. A fonte da sua vida, porém, é o Espírito de Deus, que quer manifestar-se concretamente no homem.

Portanto tende o hábito da oração, sobretudo da oração individual. Muitas das vossas igrejas são magníficas obras de arte, mas não devem tornar-se museus. A fé constante da oração silenciosa de muitos homens diante do tabernáculo faz com que estas igrejas mantenham a sua autêntica destinação e a sua dignidade.

Daí novamente vida nas vossas comunidades ao sacramento da confissão. Com a parábola do fariseu e o publicano (cf. Lc. 18, 10) o Senhor diz claramente com que atitude cada um deve entrar na igreja. Sem o arrependimento aumentam as acusações e destas acusações nascem as inimizades, as inquietações e até a guerra. O nosso arrependimento diante de Deus não serve apenas para a salvação pessoal, mas serve também para a salvação do mundo que nos rodeia. Assim, tornar-nos-emos sinal vivo da esperança no meio dos homens, que renegam as suas culpas ou são esmagados por elas.

Pedi a Deus que vos conceda a graça de poder levar a vossa Cruz. Com frequência a nossa vida está em perigo e muitos planos falham. Há muitos homens — também no vosso País — que já não encontram sentido algum na própria vida. Sede vós, com a vossa humilde força, a dar-lhes nova coragem para levarem a própria cruz. Sereis então para eles um exemplo de libertação; em vós verão o caminho para chegar, juntamente com o nosso Redentor, ao Monte das Oliveiras e à Ressurreição.

E para concluir: vivei com coragem toda a vossa vida pessoal, mesmo que vos pareça insignificante. A grande mestra das pequenas coisas, Teresa de Lisieux, demonstrou-nos nos breves anos da sua vida como são grandes diante de Deus as pequenas e normais incumbências. Queremos recordar também Charles de Foucauld, que reconheceu como um grande exemplo a vida oculta de Jesus em Nazaré. Há uma santidade muito evidente de alguns homens; mas há também a santidade desconhecida da vida quotidiana.

Em tudo isto seja Maria o vosso exemplo. "Ao entrar em casa dela o Anjo" saudou-a como "cheia de graça". "Ave Maria, gratia plena", assim a saudou a Igreja no decurso dos séculos. O Senhor está com Ela. Sim, o Senhor esteja também convosco na santidade das vossas vidas e no vosso serviço apostólico. Este é o voto do Papa, e este é o serviço sacerdotal dos vossos bispos, sacerdotes e diáconos, à vossa vocação.

7. Para terminar quereria voltar ainda às palavras da liturgia de hoje. A primeira leitura, tirada do livro do Sirácide fala da sabedoria que "saiu da boca do Altíssimo" (24, 2).

Caros irmãos e irmãs! Queiramos amar esta sabedoria. Então encontraremos os nossos amigos num apostolado que está ao serviço desta sabedoria divina.

Graças a este serviço de tantas gerações, a sabedoria "deitou raízes no meio de um povo glorioso", "na partilha do Senhor", na sua "herança" (24, 16). Graças a este serviço os mensageiros da sabedoria divina da geração presente podem deitar raízes no mundo de hoje.

Cultivemos este eterno desejo da sabedoria divina. Abramos-lhe o nosso coração. Transmitamo-la aos homens e às coisas que nos circundam. Aplanemos-lhe o caminho para a moral e a cultura, para a vida social, política e económica.

A sabedoria divina é a luz que invade toda a criação.

Abraça no seu amor o Criador e a criação, Deus e a humanidade.

Irmãos e irmãs! Caminhemos ao longo do caminho desta sabedoria. Tornemo-nos os seus mensageiros! Sirvamos a salvação, que Deus mesmo deu à humanidade em Jesus Cristo. Amém.

 



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