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 MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
 AOS PARTICIPANTES
NO ENCONTRO DE YAOUNDÉ
 SOBRE O LAICADO

 

Àqueles que se estão reunindo em Yaoundé de toda as partes da África para o encontro organizado por iniciativa do Pontifício Conselho para os Leigos

Tenho o prazer de saudar no meio de vós, juntamente com o Cardeal Opílio Rossi e o Cardeal Paul Zoungrana, as altas autoridades civis do país que vos está dando as boas-vindas. A minha cordial e respeitosa saudação vai para estas, como ela se dirige para cada um de vós presentes para este importante momento na vida da Igreja neste grande continente.

Saúdo especialmente os Bispos que estão entre vós. São os Presidentes das várias Comissões Episcopais de Leigos. Veneráveis Irmãos no Episcopado, desejo animar-vos em tudo o que fazeis com o fim de promover o apostolado dos leigos nos vossos países e a participação dos leigos na vida e na missão da Igreja.

Saúdo os sacerdotes que trabalham com os Bispos neste serviço vital entre os leigos. Por meio de vós renovo o meu apelo a todos os sacerdotes que vivem nos países desse continente. Continuai os vossos esforços para ajudar todos os baptizados a serem testemunhas das riquezas escondidas que eles trazem dentro de si. Descobrireis que, ao acompanhardes os leigos neste caminho, a vossa própria identidade sacerdotal se tornará ainda mais clara.

Do mesmo modo, saúdo aqueles que representam as Congregações e Institutos religiosos que existem entre vós. Tendes um papel indispensável para desempenhar no crescimento da Igreja na África, e, na verdade, no desenvolvimento integral dos países africanos. É claro que tendes um papel especial para desempenhar garantindo que a dimensão espiritual do dever cristão na vida social não será esquecida. No vosso trabalho de formação e apostolado sois chamados a dar testemunho profético ao mandamento do Evangelho: "Procurai primeiro o Reino de Deus". Oxalá Deus vos conserve na plenitude do chamamento que recebestes.

Saúdo, finalmente, os muitos leigos e muitas leigas presentes neste encontro, que nele tomam parte porque, pelas suas vidas, já expressam essa resposta à vocação laical que desejamos ouvir ao ecoar através de cada país e região. Os meus agradecimentos, o meu incitamento e as minhas assíduas orações acompanham-vos durante os dias que se aproximam.

Tenho estado a seguir os preparativos para o vosso encontro com profundo interesse e animei o Pontifício Conselho para os Leigos no seu trabalho. Recordo o Seminário Pan-Africano-Malgaxe em Accra, em 1971. Como Arcebispo de Cracóvia e consultor do Conselho para os Leigos em Roma, tive a oportunidade de seguir esse acontecimento histórico bem de perto, ainda que não tenha podido estar presente. Em Maio de 1980, quando se realizou a visita por mim estimada a um número de países na África, tive ocasião, estando em Accra, de me referir a esse memorável Seminário e dirigir uma mensagem de fraternal solidariedade e instrução pastoral aos leigos católicos em cada país da África. Desejaria, por ocasião do presente encontro, levar-vos a recordar uma coisa que eu disse nessa ocasião, uma vez que ela se refere directamente às importantes questões que ides discutir: "Vós que sois leigos na Igreja e possuis a fé — o maior de todos os recursos — tendes uma oportunidade única e uma responsabilidade crucial. Por meio das vossas vidas entre as actividades diárias do mundo, mostrais o poder que a fé tem para transformar o mundo e renovar a família humana. Estando embora oculto e inadvertido, como o fermento ou o sal da terra de que fala o Evangelho, o vosso papel como leigos é indispensável para a Igreja no cumprimento da sua missão recebida de Cristo".

O que eu disse então relaciona-se directamente com o tema escolhido para este encontro, que é: "A vocação dos leigos: a influência deles na sociedade contemporânea, a dimensão espiritual do dever que têm".

Nos próximos dias entregar-vos-eis a considerar colectivamente como tornar esta vocação conhecida, valiosa e aceita por cada leigo na Igreja da África. Mas há um traço nisto que é muito notável e por mim considerado da maior importância: ides trabalhando juntos — Bispos, sacerdotes, religiosos e leigos. Por causa do Baptismo e da Confirmação que são comuns a todos, sois imagem da Igreja, o Povo de Deus em que há diferentes ministérios e carismas mas uma só dignidade participada, uma responsabilidade participada. Estardes juntos de todas as partes desse continente para expressar e aprofundar o dever diante da vossa vocação cristã — e chamar todos os membros da Igreja a viverem esta vocação plenamente — é brilhante testemunho da missão vital de todas as pessoas baptizadas na Igreja que, em união com os seus pastores e sob a direcção deles, estão a edificar o Reino de Deus. Reunirdes-vos significa respeito pelos diversos encargos e ministérios na Igreja; dá testemunho de uma responsabilidade e dignidade genuinamente partilhada. Uma colaboração desta natureza não ofusca a distinção entre ministérios e carismas; aclara até a distinção e mostra a complementaridade de cada um na vida e missão da Igreja. Todos juntos constituem o povo de Deus, e os vários dons e responsabilidades de cada um formam, pelo dom do único Espírito Santo, essa comunhão em Cristo que é característica da Igreja e da sua missão.

Um conhecimento desta comunhão de todos no Espírito de Cristo educa verdadeiramente e sustenta os leigos e as leigas em responder à sua vocação e à sua missão diária, como cristãos baptizados, para evangelizarem a sociedade em que vivem e trabalham. Como foi dito durante o Seminário de 1971 em Accra, o leigo africano deve ser construtor da história, contribuindo ao mesmo tempo para a dilatação da Igreja e para o desenvolvimento integral da África.

Agora tocamos nesse elemento do vosso tema que é intitulado "a dimensão espiritual do dever do leigo". Entre as muitas coisas que a África tem para oferecer ao mundo, está toda a missão espiritual circundante, que penetra na sua cultura. Há uma "concepção do mundo em que o sagrado ocupa lugar central; profunda consciência do laço existente entre o Criador e a Natureza; grande respeito por toda a forma de vida; sentido da família e da comunidade que se manifesta no acolhimento e na hospitalidade com abertura e prazer; reverência pelo diálogo como meio para solucionar contrastes e partilhar os pontos de vista; espontaneidade e alegria de viver, expressas em linguagem poética, canto e dança" (Discurso durante a visita ao Presidente do Gana, 8 de Maio de 1980).

É a vocação cristã que leva a tudo isto a presença de Cristo, que é o fermento, o sal e a luz da história. Segue-se dever cada cristão não só conhecer o povo e ser-lhe sensível, como também à cultura e aos sinais dos tempos em que ele vive, mas deve também conhecer Cristo de modo íntimo e estar profundamente unido a Ele. Neste caminho a fé e a vida devem interpenetrar-se entre si. A este propósito, gostaria de recordar-vos as solenes palavras do Concílio Vaticano II: "O divórcio, entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos, deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo... O cristão, que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna" (Gaudium et Spes, 43).

Meus queridos irmãos e irmãs em Cristo, daquilo que eu disse vereis que, formar cristãos leigos para a única e insubstituível tarefa deles, constitui uma das maiores necessidades da Igreja hoje. As vossas orações, reflexões e debates durante os próximos dias terão todas esta formação e esta missão como a força motivante.

Vós ireis também discutir, durante o encontro, que as estruturas de coordenação para o apostolado leigo hão-de ser julgadas necessárias ou desejáveis nos níveis nacional, regional e continental. Isto é ainda elemento central dos vossos debates, porque está directamente relacionado com os benefícios efectivos e duráveis para as Igrejas locais que resultarão dos vossos debates. Os modos como os temas do vosso encontro serão mais tarde discutidos e postos em execução, aos níveis regional e nacional, constituirão os frutos das vossas deliberações presentes.

Com esta finalidade, especialmente quando a Igreja celebra o Nascimento de Jesus Cristo da Virgem Maria, invoco eu Maria — pedindo a sua intercessão para vós, para as vossas famílias e para as associações apostólicas, para as vossas Congregações religiosas, para as vossas paróquias, dioceses e países —, invoco a graça de nosso Senhor Jesus Cristo sobre vós, e com profundo afecto dou-vos a minha Bênção Apostólica.

Do Vaticano, 31 de Dezembro de 1981

JOÃO PAULO PP. II



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