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MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
A TODOS OS LIBANESES

 

Caros Filhos e Irmãos do Líbano

Depois de ter ouvido, nestes mos dias, o testemunho qualificado dos Patriarcas Católicos do Libano e compartilhado com eles as suas preocupações, sinto a necessidade de manifestar mais uma vez a minha proximidade espiritual em relação a todos os que, no vosso caro país, conhecem ainda os horrores da guerra. É esta também para mim uma ocasião de chamar novamente a atenção do mundo para o destino de uma nação que, de há dez anos a esta parte, enfrenta as desastrosas consequências de uma violência endémica.

O profundo afecto que nutro desde há muito tempo por este país e pela sua população tão provada, autorizam-me, segundo creio, a dirigir uma palavra amiga a todos os Libaneses, católicos, cristãos e muçulmanos: estou certo de que ela entrará no seu coração!

Faço-o na luz incomparável da Páscoa, manifestação da Vida. De facto, se os Libaneses, nas presentes circunstâncias, tem necessidade de uma palavra, é certamente de uma palavra de ressurreição, de uma palavra para o futuro!

Estes longos anos de guerra não devem, com efeito, diminuir a vossa confiança no próprio Líbano. Ele constitui um valor de civilização precioso: basta pensar em tudo quanto a humanidade lhe deve desde a longínqua época dos Fenícios, sem esquecer o encontre de religiões, o diálogo cultural Oriente-Ocidente, e as iniciativas económicas. A liberdade, compreensão, a hospitalidade e a abertura de espírito eram valores sobre os quais se baseava o Líbano de ontem, e devem estar igualmente na base do Líbano de amanhã. Uma sociedade animada por um ideal democrático e pluralista é um património precioso que ninguém se pode resignar a ver desaparecer. Todos os países que amam a paz e a liberdade não podem deixar de oferecer o seu apoio para ajudar o Líbano a reencontrar a sua fisionomia original que será unicamente obra paciente e generosa dos próprios Libaneses.

É por isso que se impõe que cada cidadão Libanês tenha uma total confiança no homem. Pensai, de facto, caros Libaneses, em tudo aquilo que conseguistes construir em conjunto: uma sociedade de diálogo e de prosperidade que muitos invejam. É verdade que alguns factores internos e externos, que não podem ser subestimados, vieram desfigurar este país. Mas os fracassos, os rancores, os combates e até os massacres não poderão nunca, apagar completamente esta pequena chama que brilha no coração de cada homem, que se chama amor e que é o porquê do homem ser mais semelhante a Deus. Sei bem que a pavorosa cadeia de violência destes últimos anos criou um clima de dúvida e de suspeita que leva por vezes a anatematizar todo o que pensa de modo diferente do próprio, ou pertence a outra religião. Estou porém completamente convencido de que não é demasiado tarde para superar esta situação; aceitar encontrar-se como homens, olhar-se como irmãos, é já o início de uma solução, é já proclamar que as coisas não terminam num fracasso. Os Libaneses são crentes e sabem, portanto, que o Criador lhes confiou a sua terra para a tornar habitável e acolhedora para todos!

"A paz nasce de um coração novo", afirmei no início do presente ano, por ocasião do Dia Mundial da Paz. Como não sublinhar que é cada Libanês quem, em última análise, é responsável pelo futuro do seu país? Cada um deve estar pronto a fazer um exame de consciência, a renunciar a qualquer coisa, a pôr-se a si mesmo em questão para que prevaleçam os valores compartilhados por todos: a honestidade moral, a preocupação pela verdade, o sentido do homem, a verdadeira solidariedade, a defesa das liberdades e o respeito pelas tradições. E tudo isto tanto ao nível das pessoas como das comunidades. A arrogância, a sede de domínio, fanatismo, o desanimo ou o medo são germes mortais que não só enfraquecem o espírito nacional como podem também conduzir o vosso País à desagregação fatal. O Líbano de 1984 deve enfrentar o desafio da restauração moral e do futuro de uma sociedade fiel ao seu prestigioso património de civilização, e permanecer lúcido face ao seu futuro.

Nesta exaltante aventura, os cristãos tem um papel específico a desempenhar. É precisamente a eles, presentes constantemente no meu coração e na minha oração de Pai, que desejo dirigir-me agora de modo particular.

Caros Filhos do Líbano de hoje, vós sois responsáveis pela esperança. Desta esperança que brota do túmulo aberto da Páscoa, de Cristo ressuscitado. "Nele Jesus venceu o ódio" (Ef. 2, 16): que boa nova para anunciar à vossa volta! Criai, nos locais em que viveis e trabalhais, por estes frutos do espírito pascal que são "o direito e a verdade" (1 Cor. 5, 3), um ambiente fraterno. Esforçai-vos sem ingenuidade, por confiar nos outros e sede criativos de modo a fazer triunfar a força regeneradora do perdão e da misericórdia. Gosto de vos repetir com São Paulo: "Não pagueis a ninguém o mal com o mal... Não vos deixeis vencer pelo mal, mas vencei o mal com o bem" (Rom. 12, 17.21). Não sejais porém nunca tímidos quando se tratar de defender as vossas liberdades e em modo particular a de proclamar e viver juntos os valores evangélicos. A Igreja inteira esta ao vosso lado; solidária tanto nas vossas provas como nas vossas aspirações, pois ela recorda-se de que foi na vossa região que pela primeira vez os discípulos de Cristo receberam o belo nome de "cristãos". Ela esta igualmente orgulhosa de todos os sacrifícios dos cristãos do Oriente em conservar intacta a fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e não se poderia pois resignar a ver enfraquecer no Líbano e era outras regiões esta presença adquirida pelo preço de tanta perseverança heróica.

Como membros de uma Igreja que, para lá das legítimas diversidades, tem a preocupação de reunir as suas energias, dai em conjunto o testemunho de uma comunidade unida, desejando superar as oposições artificiais criadas pela guerra. A Igreja no Líbano deve assumir, de modo profético, esta missão de diálogo e de reconciliação que tem a sua fonte no coração de Cristo que, como a Igreja recordou durante a Semana Santa, deu a sua vida por muitos.

Sob a orientação dos vossos Pastores, com os vossos tão dedicados sacerdotes, estimulados pelo testemunho dos vossos religiosos e religiosas, e com os vossos irmãos das demais Igrejas cristãs, participai sem hesitar em tudo aquilo que pode contribuir para o bem comum. Colaborai com os vossos concidadãos de boa vontade.— que são a maioria — para recompor a vida nacional e dar assim à nação libanesa uma estabilidade capaz de resistir de futuro às agitações internas e às pressões externas.

As gerações vindouras julgar-vos-ão pela vossa capacidade de superar as tensões presentes e o medo do amanha: "O futuro está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações de amanhã razões de viver e de esperar" (Gaudium et Spes, 31, 3). Para nós, a razão é Cristo, Redentor do homem!

São estas aspirações e estes votos que eu confio à Virgem Santa, invocada sob o nome de Nossa Senhora, do Líbano, a ala que, de braços abertos na colina de Harissa, oferece a todos os Libaneses o seu sorriso e a sua ternura, como a recordar que só o amor faz grandes coisas!

A todos os Libaneses, particularmente aos que choram a perda de seres queridos, aos doentes e aos feridos de guerra, aos jovens inquietos com o seu futuro, a todos os que aspiram a um Líbano livre e radiante, e aos cristãos que acabam de celebrar o mistério da Ressurreição do Senhor, envio de todo o coração minha paterna e afectuosa Bênção, penhor das consolações de Deus que nos chama à Vida!

Vaticano, 1 de maio de 1984

JOÃO PAULO II

 



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