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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS CASAIS PEREGRINOS
DAS EQUIPAS DE NOSSA SENHORA

Sala Paulo VI
Quinta-feira, 23 de
S
etembro de 1982
 

 

Caros Irmãos e Irmãs

Escolhestes como luz, para iluminar a vossa peregrinação a Roma, a palavra do Senhor: "Se conhecesses o dom de Deus!".

Fostes bem inspirados. Esta interrogação insistente e alegre penetra toda a Bíblia e atinge-nos a todos: "Se conhecesses o dom de Deus!". Se conhecesses, tu que procuras beber, incitado por uma sede terrestre, se conhecesses a fonte inesgotável! Está perto de ti, mas conseguirás tu reconhecê-la?

Esta pergunta diz respeito também a vós, esposos cristãos. Bem o sabeis, vós que mantendes e desenvolveis o cuidado de voltar à fonte do vosso amor e da vossa graça dentro das vossas Equipas, sob o patrocínio de Nossa Senhora, mãe do belo amor.

1. Desde as origens, o dom de Deus ao homem é a vida e o amor. E este dom, esta graça, exprime-se na graça de um rosto, de uma mulher, Eva, a mãe dos vivos, imagem bem imperfeita, mas imagem, apesar de tudo, da nova Eva, Maria, cheia de graça. A alegria de Adão, completada na sua expectativa, explode: "Esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Gén 2, 23). Ambos se extasiam diante do amor e da vida repartidas, quando lhes nasce o primeiro filho: "Gerei um homem com o auxilio do Senhor! (Gén 4, 1). Todavia não suspeitam a extensão nem a profundidade do dom de Deus (cf. Ef 3, 18-19).

Esta graça, este dom do amor e da vida não passa, com efeito, de uma etapa. O Senhor quer ligar-se à humanidade, "concordar" com ela. Estabelece aliança com o Seu povo escolhido: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fiz sair do Egipto... Não terás outro Deus além de Mim" (Ex 20, 2-3). Mas esta Aliança não é simples contrato nem aliança política: como o Senhor compromete nela a Sua Palavra e a Sua Vida, ela reclama amor e ternura. A aliança exprime-se através do sinal do matrimónio. Os profetas perscrutam este mistério da Aliança através da história tempestuosa da fidelidade de Javé e das infidelidades do Seu Povo, por vezes mesmo através da própria vida conjugal deles (cf. Os 2, 21-22), e Jeremias chega até a anunciar uma aliança nova (31, 31).

E, na verdade, "quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho nascido de uma mulher..." (Gál 4, 4). Cristo desposa a condição humana no seio da Virgem Maria. "O Verbo fez-se carne". Aliança indefectível, porque mais coisa nenhuma poderá separar o homem de Deus, unidos para sempre em Jesus Cristo (cf. Rom 8, 35-39). É ainda em termos de desposórios que se expressa o mistério: Jesus realiza o Seu primeiro sinal nas bodas de Caná (cf. Jo 2, 11); depois o Evangelho deixa entender que o verdadeiro esposo é Ele (cf. Jo 3, 29; Ef 5, 31-32). Jesus vai até ao extremo do amor (cf. Jo 15,13; 13,1), sela a Aliança no sangue da Sua cruz e "entrega o Seu Espírito (Jo 19, 30) à Igreja, Sua Esposa".

A Igreja aparece assim como o termo da Aliança: cheia do dom de Deus, ela é a Esposa amada e fecunda que gera novos filhos até ao fim dos tempos. "Sacramento universal da salvação" (cf. Gaudium et spes, 45, 1 e 42, 3; cf. também Lumen gentium, 1, 1 e 48), ela conduzirá pouco a pouco a humanidade, pelo anúncio da Palavra e pelos sacramentos, a viver plenamente o dom de Deus na Aliança que lhe é oferecida.

2. Os sacramentos são assim lugares da celebração e da realização da Aliança. A Eucaristia é-o a título eminente (cf. Presbyterorum ordinis, 5), mas o matrimónio "intimamente ligado" à Eucaristia (Familiaris consortio, 57), apresenta um laço particular com a Aliança. A antiga Aliança exprimiu-se no sinal do matrimónio dos homens; mas a realidade do matrimónio cristão é como que habitada e transfigurada pela Nova Aliança.

Sublinhei na Exortação apostólica Familiaris consortio, consagrada à família, seguindo o Sínodo de 1980, a necessidade "de descobrir e aprofundar esta relação" (n. 57). O vosso peregrinar a Roma dá-me ocasião de abrir algumas pistas, as quais vos pertence explorar mais adiante.

A Eucaristia, com eieito, torna-nos acessível a Aliança, ao mesmo tempo o dom e Aquele que se dá: Sacramento por excelência da Aliança, ela é mistério de comunhão, de unidade, no respeito da pessoa de cada um: "Aquele que come a minha carne, fica em Mim e Eu nele" (Jo. 6, 56). "Da mesma maneira que... Eu vivo para o Pai, aquele que come a minha carne viverá também por Mim" (Jo. 6, 57). Ela manifesta a comunhão do Pai e do Filho no Espirito, levando para esta comunhão os fiéis, que se encontram assim em comunhão uns com os outros U Cor. 10, 17). Pela carne de Cristo ressuscitado opera-se a comunhão no Espirito: "Aquele que se une ao Senhor não é com Ele senão um espírito" (I Cor. 6, 17).

O cumprimento da Aliança na Eucaristia repercute-se na aliança conjugal. O sacramento do matrimónio não realiza acaso também uma comunhão em que a unidade na carne leva à comunhão do espírito? Como a Aliança de Cristo, a aliança conjugal leva os esposos a viver a fidelidade na "ternura e na misericórdia" ao mesmo tempo que "na justiça e no direito" (Os. 2, 21). "O matrimónio dos baptizados torna-se deste modo o símbolo real da Aliança nova e eterna, selada no sangue de Cristo. O Espírito, que o Senhor distribui, dá-lhes um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem como Cristo nos amou" (Familiaris consortio, 13). "É neste sacrifício da nova e eterna Aliança que os esposos cristãos encontram a fonte jorrante que modela interiormente e vivifica constantemente a aliança conjugal deles" (Familiaris consortio, 57). Junto do Senhor aprendem a amar "até ao fim", no dom e no perdão. E como Ele próprio vive uma Aliança indissolúvel, eles aprenderão assim a fidelidade sem desfalecimento à palavra e à vida dadas.

A Aliança não só inspira a vida do casal, mas realiza-se nela no sentido de que desdobra a sua energia própria na vida dos esposos: "modela-lhes" de dentro o seu amor: amam-se não só como Cristo amou, mas já, misteriosamente, como o amor mesmo de Cristo, porque o Seu Espirito é-lhes dado... na medida em que eles se deixam "modelar" por Ele (cf. Gdl. 2, 25; cf. Ef. 4, 23). Na Missa, pelo ministério do sacerdote, o Espírito do Senhor faz do pão e do vinho o corpo e o sangue do Senhor; no e pelo sacramento do matrimónio, o Espírito pode fazer do amor conjugal o amor mesmo do Senhor; se os esposos se deixarem transformar, poderão amar com "o coração novo" prometido pela Aliança Nova (cf. Jer. 31, 31; Familiaris consortio, 20).

"Apelo do corpo e do instinto, força do sentimento e da afectividade, aspiração do espírito e da vontade" (Familiaris consortio, 13), pelo dom do Senhor o amor dos homens pode ser totalmente irradiado pela Fonte do amor e manifestar verdadeiramente a Aliança nova e eterna que irradia nele.

Estamos muito longe aqui, é claro, de um simples impulso instintivo ou de um simples acordo temporário ligado aos interesses imediatos, apoiadas nos quais muitas pessoas, hoje, tendem a reduzir este dom do Senhor que é o amor!

3. Disse eu: "Se os esposos se deixarem transformar", porque o dom proposto por Deus não encontra apenas consentimento: desde as origens embate contra a recusa e o orgulho. As tentativas sempre a renascerem de um cristianismo sem sacrifício estão destinadas a gorarem-se: embatem contra a realidade do pecado. A missão de Cristo não é aperfeiçoamento do homem senão pela Sua morte e Sua ressurreição. A Eucaristia recorda-nos sem cessar que o sangue da Aliança nova e eterna é "derramado para remissão dos pecados" (Mt 26, 28). A Aliança é selada no sangue do Cordeiro.

Nada pois de espantar que o sacramento do matrimónio comprometa os esposos a seguirem um caminho em que eles encontrarão a cruz. Cruz no interior do casal, sacrifício do egoísmo de cada um, recusa, fraquezas, decepções que requerem o perdão, e rupturas. Cruzes vindas dos filhos, dos seus limites, das suas enfermidades e das suas infidelidades. Cruzes dos lares estéreis. Cruzes daqueles cuja fidelidade à aliança suscita zombarias, ironia ou mesmo perseguições. Não vivemos num mundo inocente! O amor, como qualquer realidade humana, precisa de ser salvo, resgatado. Mas a frequência da Eucaristia permite aos esposos fazer das suas provas um caminho de comunhão, uma participação no sacrifício do Senhor, uma nova maneira de viver a Aliança e, para além da cruz, para além dê todas as formas que lhes alinham a existência, chegar à alegria: o matrimónio cristão é uma Páscoa.

4.O sacrifício do Senhor, com efeito, leva-O à ressurreição e ao dom do Espírito. Vem a dar na acção de graças e no louvor do Pai. É bem o sentido original da palavra "Eucaristia" em que tomamos o "cálice de bênção" (2 Cor 10, 16). A bênção da aliança de Adão e Eva termina na bênção do novo Adão e da nova Eva. Mergulhada na aliança de Cristo e da Igreja (cf. Ef 5, 25 ss.), a aliança conjugal vem a dar também na alegria, na gratidão e na acção de graças. Neste sentido igualmente cada família cristã é chamada a tornar-se uma "igrejinha", lugar em que retine o louvor e a adoração (cf. Ef 5, 19). Os esposos exercem nela o seu sacerdócio de baptizados. Lares das Equipas de Nossa Senhora, vós contribuístes para repor em honra a oração no lar, e prestastes deste modo um serviço apreciável. O "reconhecimento", a acção de graças e a alegria fundadas não sobre a ilusão, mas sobre a verdade do dom e do perdão, têm também um papel para desempenhar no mundo: inquieto com aquilo que obtém, corre o risco de perder o sentido do gratuito. Fecha-se então à gratidão, à acção de graças, fontes da alegria, esquecendo que é não somente "digno e justo" dar graças, mas também "salutar"!

5.Acabo de evocar o serviço prestado à Igreja pela oração das Equipas. Desejo insistir na dimensão eclesial da vossa vocação conjugal. A Aliança nova e eterna é oferecida à "multidão" (Mt 26, 27). Por mais pessoal que seja o encontro eucarístico de cada cristão, diz respeito ao Corpo inteiro. "A Igreja faz a Eucaristia, mas a Eucaristia faz a Igreja". Para além das diversidades de raça, de nação, de sexo e de classe, a Eucaristia faz desaparecer as fronteiras, o corpo eucarístico de Cristo constrói o seu Corpo místico que é a Igreja. A celebração da Aliança nova e eterna dá plena consistência à Assembleia cristã: esta "faz corpo" no corpo de Cristo (cf. 1 Cor 10, 17). Mas longe de o encerrar no intimismo de alguma câmara alta, a Eucaristia faz que se expanda pelos quatro cantos do mundo. O Espírito de Cristo ressuscitado assegura ao mesmo tempo a Comunhão e a Missão (cf. Act 1, 13; 2, 4; Mt. 28, 18-20).

"No dom eucarístico da caridade, a família cristã encontra o fundamento e a alma da sua 'comunhão' e da sua 'missão': o pão eucarístico faz dos diferentes membros da comunidade familiar um só corpo..." e ao mesmo tempo alimenta o "dinamismo missionário e apostólico" (Familiaris consortio, 57). Sacramento da Aliança, a Igreja doméstica, que é o foco, viverá intensamente a comunhão, uma comunhão não dobrada no intimismo, mas bem aberta à missão. Célula de Igreja aberta às outras comunidades, a família cristã não é capela fechada, cenáculo. Por isso deveis ter o cuidado de trabalhar em comunhão estreita com os vossos bispos e os pastores da Igreja, a começar pelos vossos párocos.

A vossa vocação de "construtores" da Igreja começa por um dom generoso da vida (mesmo na Igreja, muitos lares não sabem já que "os filhos são o dom mais excelente do matrimónio" (Gaudium et spes, 50). Ela continua nas actividades mútuas que pode exercer cada casal segundo a sua vocação própria, da catequese à animação litúrgica ou à acção apostólica sob todas as suas formas. Cada lar aprenderá a discernir a sua vocação própria confrontando os seus gostos, os seus talentos e as suas possibilidades com as necessidades e os apelos da Igreja e do mundo. Porque o serviço missionário mais urgente ultrapassa as fronteiras da Igreja. Este mundo envelhecido (Familiaris consortio, 6) já não crê na vida, no amor, na fidelidade e no perdão; precisa de sinais da Aliança nova e eterna, que lhe revelem não só o amor autêntico mas também a fidelidade até mesmo à cruz, a alegria da vida e a força do perdão; precisa de reaprender o preço de uma palavra dada e mantida, numa vida oferecida. Através da fidelidade dos esposos, poderá entrever a fidelidade do Deus vivo.

6. A Eucaristia, por fim, anuncia e prepara a volta do Senhor e o cumprimento definitivo da Aliança. A Eucaristia é alimento para o caminho: prepara o tempo em que ela mesma já não será necessária porque "nós O veremos como Ele é" (1 Jo 3, 2). Longe de nos conduzir a desprezar o tempo que passa, ela permite-nos fazer o eterno com o temporal, mas ao mesmo tempo evita que nos atolemos no presente, recordando-nos a nossa condição de nómadas nesta terra (Heb 11, 9-11; Fil 3, 20; 1 Ped 2, 11). Povo da aliança, nós somos o povo da Páscoa, da Passagem. Caminhamos para a Cidade de Deus, para a Jerusalém celeste, em que seremos enchidos com o dom de Deus.

Esta perspectiva escatológica da Eucaristia jorra até no matrimónio. Este leva a marca do efémero: "passa a aparência deste mundo" (1 Cor 7, 31). Todavia o corpo é mais que o corpo, é o sinal do espírito que o habita (cf. Discurso na audiência geral de 28 de Julho de 1982), o matrimónio cristão é mais que a carne. "O amor é mais que o amor" (Paulo VI, Discurso às Equipas de Nossa Senhora, 4 de Maio de 1970, n. 6). Transfigurado pelo Espírito, o amor constrói eternidade porque o amor não passa nunca" (1 Cor 13, 8). Mas ao mesmo tempo um amor conjugal autêntico, formado no entanto de ternura e fidelidade, impede que se detenha no seu cônjuge muna adoração indevida: conduz da aliança conjugal à Aliança divina e da imagem à sua Fonte. Por isso reconhece que é inseparável de outro sinal da Aliança: o celibato "para o Reino" (Mt 19, 12; cf. Discurso na audiência geral de 30 de Junho de 1982). Este recorda a todos que o dom por excelência de Deus não é uma criatura, por mais amada que seja, mas o próprio Senhor: "O teu esposo é o teu Criador" (Is 54, 5). O verdadeiro Esposo das núpcias definitivas é Cristo, e a Esposa é a Igreja (cf. Mt 22, 1-14). A virgindade consagrada, sinal do mundo que há-de vir (cf. Familiaris consortio, 16), ressoa como apelo no coração de todos os lares cristãos. Não é nem medo nem repressão, mas o apelo de um maior amor (cf. Discurso na audiência geral de 21 de Abril de 1982). Desejei recordar que, neste sentido, "a Igreja... sempre defendeu a sua superioridade em relação com o matrimónio" (Familiaris consortio, 16), mesmo que isto seja mal compreendido hoje. Equivale a mostrar-vos a importância que a Igreja atribui a um certo clima nas famílias cristãs para que nelas floresça, na liberdade e na alegria, o apelo a abandonar tudo por Cristo.

7. "Se soubesses o dom de Deus!". Toda a vossa vida conjugal. Irmãos e Irmãs, não bastará para explorardes o incomensurável dom de Deus que vos é feito no vosso sacramento da aliança. A Igreja não terá tempo suficiente no seu caminho terrestre para explorar o dom de Deus, "a altura e a profundidade, o comprimento e a largura do amor de Deus que excede todo o conhecimento" (cf. Ef 3, 18-19). Razão a mais para se aplicar a isso desde já, no lar, nas Equipas e na Igreja.

Contudo este recordar a ambição de Deus, acerca do matrimónio dos seus filhos, poderia talvez esmagar-vos: como assumir tal missão entre os homens e as mulheres de hoje?

Tendes razão para reconhecer os vossos limites: a humildade é o primeiro passo para a santidade. Mas não deveis por isso diminuir as ambições de Deus sobre vós; como poderia subsistir o amor se não reflectisse a santidade da sua fonte, na fidelidade e na fecundidade? "Se o matrimónio cristão é comparável a uma altíssima montanha que eleva os esposos à vizinhança imediata de Deus, é bem preciso reconhecer que a sua ascensão exige muito tempo e muito sacrifício. Mas seria isso razão para suprimir ou rebaixar esse cume? (Homilia em Quinxassa, 3 de Maio de 1980, n. 1).

O desnível que reconheceis, entre a expectativa do Pai e as vossas pobres respostas, não vos deve paralisar mas tornar-vos mais dinâmicos ainda. Sabeis por experiência que uma verdadeira mãe não se torna cúmplice das recusas de comer, de trabalhar ou de amar dos seus filhos! Mas insiste que eles andem pelo caminho da vida, sem fraqueza nem rispidez, mas com terna e misericordiosa exigência. Mas sabeis também por experiência que um pai, que ama, não oprime os filhos por eles crescerem devagar! Na exortação apostólica falei não da "gradualidade da lei", pois as exigências da criação e da redenção do corpo nos dizem respeito a todos desde hoje, mas da gradualidade da "marcha pedagógica do crescimento" (n. 9). Não é toda a nossa vida cristã que deve ser pensada em termos de marcha?

Em cada um dos campos em que chocais com obstáculos, no amor e nas suas expressões, reticências e renovações, nos difíceis problemas da regulamentação dos nascimentos — para chegar a relações conjugais "dominadas e respeitadoras da natureza e das finalidades do acto matrimonial" (O meu discurso aos membros do CLER, 3 de Novembro de 1979) e manter sempre uma relação absoluta da vida humana — e do mesmo modo para o que é do vosso papel na Igreja e no mundo, remeto-vos ao que vos dizia Paulo VI no célebre discurso que vos dirigiu em 1970: "O encaminhamento dos esposos, como toda a vida humana, conhece muitas etapas, e as fases difíceis e dolorosas... têm também nele o seu lugar. Mas é preciso dizê-lo bem alto: nunca a angústia nem o temor deveriam encontrar-se nas almas de boa vontade, porque afinal o Evangelho não é acaso uma boa nova também para os lares, e uma mensagem que, se é exigente, não é por isso menos profundamente libertadora?" (n. 15).

Os vossos combates espirituais, e mesmo o arrependimento dos vossos pecados, confiados ao Senhor no sacramento da reconciliação (cf. Familiaris consortio, 58), têm ainda um papel para desempenhar: podem tornar-vos mais fraternos para com os vossos irmãos provados pelos reveses de toda a espécie, pelo abandono de um cônjuge, a solidão ou os desequilíbrios, e ajudar-vos, sem nada renegar da vocação dos casais à santidade a acompanhar estes irmãos e a tornar a metê-los na estrada.

8. Estas últimas reflexões não nos afastaram da Eucaristia, pelo contrário reconduzem-nos a ela: a Eucaristia não é um viático para aqueles que vão caminhando? Não é o encontro com Aquele que é a Verdade e a Vida, e ao mesmo tempo o Caminho (cf. Jo 14, 6)?

Então, Irmãos e Irmãs muito amados, vivei no coração do sacramento da Aliança, estando alimentado o vosso matrimónio da Eucaristia e estando a Eucaristia iluminada pelo vosso sacramento do matrimónio; disso depende o futuro do mundo. Apesar dos vossos limites e das vossas fraquezas, humildemente e briosamente ao mesmo tempo, brilhe a vossa luz na face dos homens. Os homens do nosso tempo apressam-se à volta de tantas nascentes poluídas! A vossa vida inteira os conduza ao poço de Jacob, a vossa vida de casal e de família os interrogue: "Se conhecesses o dom de Deus!". Vendo-vos viver, entrevêem o "sim" entusiasta do Senhor ao amor autêntico! A vossa vida inteira faça-lhes ouvir o apelo de Cristo: "Quem tem sede, venha a Mim, e beba quem crê em Mim. Como diz a Escritura, do Seu seio brotarão rios de água viva" (Jo 7, 37-38).

Nossa Senhora a todos obtenha acolherdes o Dom de Deus e dá-lo aos homens como ela fez!

E eu, de todo o coração, a cada um dos vossos lares, a todos os membros das Equipas de Nossa Senhora, sobretudo àquelas pessoas que têm a experiência da provação, e também aos sacerdotes e às religiosas que seguem o vosso reflectir, dou a rainha Bênção Apostólica.

 

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

 



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