Index   Back Top Print

[ FR  - IT  - PT ]

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II A LOURDES
[14-15 DE AGOSTO DE 1983]

ENCONTRO COM AS RELIGIOSAS

DISCURSO DO SANTO PADRE

Segunda-feira, 15 de Agosto de 1983

Minhas queridas Irmãs

1. Acabo de lembrar aos sacerdotes o ministério que têm, sublime e exigente, de reconciliação dos pecadores com Deus, o qual completa o próprio ministério eucarístico. Vós não tendes a vocação de dispensar estes ministérios, embora tendes às vezes uma grande função na preparação das almas para os receber.

Lembro com frequência aos leigos, aos baptizados, a própria missão profética e real de manifestarem a sua fé nos ambientes familiar, social, profissional, político, artístico e científico, e de imprimirem os valores do Evangelho no coração destas complexas realidades humanas. Baptizadas, vós também recebestes esta missão, sobretudo se sois religiosas de vida activa. Neste caso, cada vez mais é repetido a vós: representais para a Igreja consideráveis forças vivas; ela conta convosco para completardes e apoiardes o ministério do sacerdote na paróquia, para cumprirdes uma tarefa educativa, sanitária e social que corresponde tão bem à caridade eclesial; para acompanhardes os cristãos na catequese ou nos movimentos; para toda a obra missionária, etc... O campo de apostolado é imenso, e a ele vós levais tanta disponibilidade e tanta competência!

2. Todavia, minhas queridas Irmãs, não é isto que vos define. A vossa vida religiosa é antes de mais uma vida consagrada a Deus. E diria que uma manifestação desta consagração é a gratuidade no amor. Vós, em primeiro lugar sois no mundo as privilegiadas testemunhas desta gratuidade do amor, e é isto, sem dúvida, o que Deus mais deseja para este mundo, antes de considerar a vossa "utilidade" à sociedade: é isto o que a Igreja espera de vós, para o seu testemunho, antes de considerar os vossos múltiplos serviços úteis e eficazes.

Sim, em primeiro lugar a vocação que sentistes e que tem sido provada pela vossa Congregação é um dom gratuito do amor de Deus. Porque vós, e não a vossa irmã ou a vossa amiga? Maria foi de maneira gratuita escolhida por Deus. E Bernadette o foi de igual modo para levar a sua mensagem. Será que sois, como elas, suficientemente reconhecidas ao Senhor por este dom inefável?

E a vossa resposta de amor ao Senhor deve ser de igual modo marcada pela gratuidade. Pela doação da vossa vida a Cristo, como Esposo, manifestais que o Senhor merece ser amado por Si mesmo, que o Reino de Deus segundo Jesus — com a sua aparente "loucura" — merece a consagração da própria vida, que as realidades da vida futura existem tão intensamente que desejais pregustá-las.

Se sois contemplativas, este aspecto é evidente: a gratuidade da vossa vida de oração e de penitência causa admiração, seduz ou irrita o mundo, mas nunca o deixa indiferente, sobretudo hoje. Mas se levais uma vida activa, as pessoas devem poder também reconhecer com facilidade Aquele a quem vós consagrais a vossa vida.

3. A gratuidade do amor deve ainda animar os múltiplos serviços ou apostolados que realizais na Igreja. Vós quereis servir os homens e as mulheres que vos rodeiam, muitas das vossas Congregações não hesitaram em ir para junto dos mais pobres, dos mais marginalizados, dos mais atingidos na sua saúde, daqueles que por muitos sectores na sociedade são descuidados como não "rendáveis", mas que vós amais, vós, pelo que eles são, testemunhando que a vida humana é sempre amável e digna de respeito, porque é amada por Cristo. E o mesmo vale para todas aquelas que se dedicam com generosidade para que as almas das crianças, dos jovens e dos adultos se abram livremente à fé.

Na vossa vida comunitária também aplicai-vos a viver numa profunda caridade entre irmãs não escolhidas por vós.

4. Os vossos votos religiosos ajudam precisamente a viverdes esta gratuidade: a obediência que vos torna disponíveis ao outro, a pobreza que vos torna desinteressadas, a castidade que vos liberta de uma relação possessiva.

No centro da vossa vida consagrada está a Eucaristia, recebida cada dia e adorada num oratório da vossa casa ou próximo dela. É neste sacramento que se nutrem a vossa prece de contemplação e a vossa acção apostólica ou caritativa. Porque assim como o Espírito Santo transforma as oferendas da Missa no Corpo e no Sangue de Cristo, Ele deve transformar-vos para fazer de vós rima oferenda à sua glória, uma oferenda gratuita. Esta gratuidade será a vossa alegria e o vosso primeiro testemunho.

Com certeza, a vossa actividade será fecunda na Igreja. E talvez até a mais fecunda! Mas vós não tendes de procurar a qualquer preço esta fecundidade: ela virá por acréscimo. Como na vida da Virgem Maria. Como na vida de Bernadette. A Bernadette foi suficiente amar. A sua vida religiosa parecia miserável, quanto à saúde, e inútil, quando estava em Nevers. E no entanto! De facto, o testemunho que deu ao mundo é singularmente forte, puro e transparente.

Eis o que vos desejo, ao abençoar-vos de todo o coração, a vós e às vossas Congregações representadas.

Abençoo também as vossas Irmãs doentes e as que não puderam vir. Ide na paz e na alegria de Cristo!

 



© Copyright - Libreria Editrice Vaticana