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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À POLÓNIA
(16-23 DE JUNHO DE 1983)

ENCONTRO ECUMÉNICO

DISCURSO DO SANTO PADRE

 Residência do Cardeal Primaz
Varsóvia, 17  de Junho de 1983

 

Caros Irmãos em Cristo

"Que o próprio Deus, nosso Pai, e nosso Senhor Jesus Cristo dirijam a nossa viagem para junto de vós. Quanto a vós, que o Senhor faça aumentar e abundar em caridade uns para com os outros e para com todos, tal como nós para convosco" (1 Tess. 3, 11-12). Estas palavras de súplica pela caridade de uns para com os outros que o Apóstolo Paulo escreveu uma vez à comunidade dos crentes em Tessalonica, dirijo-as hoje a todos os Irmãos cristãos na minha Pátria, com os quais me une a mesma fé apostólica em Jesus Cristo. Podemos de facto repetir com o eminente teólogo protestante, incluído no grupo dos padres espirituais do renovamento desejado com o Concílio Vaticano II, que "apesar de ainda crermos de modo diverso, todavia não é n'Outro" (Karl Barth). A experiência de viva fé no mesmo Jesus Cristo, nosso Senhor e Redentor, determina o carácter ecuménico do encontro de hoje em Varsóvia.

Desejei ardentemente este encontro já durante a minha primeira viagem apostólica no País natal. Exprimindo reconhecimento pela carta que então recebi dos representantes do Conselho Ecuménico Polaco, disse no Blonia Krakowskie: "Embora não se tenha chegado, por causa do programa tão denso, a um encontro em Varsóvia, recordai-vos, queridos irmãos em Cristo, que trago este encontro no coração como um vivo desejo e como expressão da confiança para o futuro" (AAS 71, 1979, p. 878). Com alegria, pois, dou graças a Deus porque hoje satisfez o meu desejo e realizou o meu projecto (cf. Sl. 19/20, 5). Creio que esta alegria é recíproca, porque brota da mesma Fonte, que é Cristo. É Ele que preside o nosso encontro, porque Ele mesmo nos assegurou: "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles" (Mt. 18, 20).

Com a saudação polaca "Seja louvado Jesus Cristo" dou as boas-vindas a todos os participantes neste encontro ecuménico, quer aos católicos quer aos outros cristãos.

Saúdo cordialmente o Presidente da Comissão do Episcopado para os problemas do Ecumenismo, o Bispo D. Alfons Nossol, Ordinário da Diocese de Opole. Está entre nós D. Wladyslaw Miziolek, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Varsóvia, vice-Presidente da referida Comissão; na sua pessoa saúdo o incansável arauto do ecumenismo no Vístula.

Dirijo fraternas saudações de amor e de paz aos presentes no encontro de hoje, ou seja aos Representantes das oito Igrejas associadas no Conselho Ecuménico Polaco, o qual há alguns meses é presidido pelo Bispo da Igreja Ausburgo-Evangélica, Janusz Narzynski.

Saúdo também os Representantes das Comunidades Israelitas e Muçulmanas aqui presentes, com as quais nos une a fé em Deus Uno, Omnipotente, Misericordioso e Justo.

O espírito de amor fraterno, que distingue o Evangelho de Cristo, anima o nosso encontro. Deste espírito de amor fraterno nasce nas relações inter-humanas a compreensão mútua, o respeito das opiniões e dos gostos alheios e de modo especial das diversas confissões ou costumes. Este é o espírito de tolerância, tão profundamente radicado nas nossas tradições religiosas, sociais e nacionais, pelo que a Polónia mereceu justamente o nome de um "estado sem piras".

Espírito de abertura para com os outros e desejo de uma recíproca aproximação entre as diversas confissões cristãs animavam há tempo as aspirações ecuménicas neste País. Permiti que cite aqui o "Colloquium charitativum", convocado em Torun em 1645, por iniciativa dos bispos católicos reunidos dois anos antes, no sínodo de Varsóvia, e com o apoio do rei Ladislau IV. Aquele "encontro de amor" tinha como finalidade restabelecer a união e a concórdia entre os católicos, luteranos e calvinistas. Toda a Europa se interessou pelo seu desenvolvimento. As longas discussões, em que tomaram parte 76 teólogos, compreendiam principalmente a doutrina, a praxis e os costumes. Devido às estridentes diferenças dogmáticas, e também aos condicionamentos sociais não foi conseguido o acordo previsto. Segundo o parecer dos historiadores o "Colloquium Charitativum" de Torun constituiu todavia uma tentativa para chegar à unidade mediante o confronto das opiniões. Embora ele não tenha dado os resultados esperados, apesar disto suscitou respeito pelos chefes espirituais e políticos da República, dando início, em certo sentido, ao ecumenismo prático.

O último Concílio Ecuménico Vaticano II aumentou claramente na Igreja Católica o desejo da unidade, pedida por Cristo ao Pai no momento da despedida dos apóstolos (cf. Jo. 17). Estamos conscientes de que o retorno a plena união exige grande humildade e amor, coragem e esperança. Sob o sopro do Espírito Santo já superámos não poucas dificuldades e não poucos obstáculos. Com muitas Igrejas e Comunidades cristãs estamos a conduzir um diálogo ecuménico oficial em espírito de busca da verdade no amor. Dão boas esperanças para o futuro a aproximação cada vez maior e a abertura do Conselho Ecuménico Polaco e da Igreja Romana Católica, de modo especial os colóquios sinceros e os esforços ecuménicos comuns na Comissão Mista de ambas as Partes.

Com alegria recebo dos meus Irmãos no Episcopado todas as notícias sobre a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que há muitos anos é celebrada tradicionalmente no mês de Janeiro. As comuns orações dos confessores de Cristo são não só uma ocasião oportuna para conhecer os outros cristãos que vivem na mesma sociedade, mas sobretudo constituem um encorajamento a praticar uma fé mais viva. São, em certo sentido, um chamamento a amar Cristo mais profundamente. Aquele Cristo, no Qual todos somos um! Mesmo se às vezes temos tradições diferentes, costumes diferentes, modo diferente de pensar, todavia sentimo-nos todos chamados à mais estreita união com Cristo e em redor de Cristo. Precisamente para isto servem as orações pela unidade das Igrejas. Sem elas o movimento ecuménico não seria aquilo que é.

Não me são estranhos nem sequer os outros exemplos concretos do ecumenismo real. Tenho presente de modo especial a partilha do património cientifico e cultural, que é fruto da reflexão cristã sobre a Revelação Divina e sobre a história das Igrejas. Nos livros e nos jornais católicos e não católicos — para dizer a verdade com pequena tiragem — são publicados cada vez com mais frequência textos de autores pertencentes a diversas tradições teológicas. Estas publicações evidenciam o contínuo aprofundamento do recíproco conhecimento dos teólogos católicos e cristãos. Permitem a camadas mais vastas de fiéis seguir as transformações que se verificam na Igreja Universal e em todo o cristianismo. Os nossos contactos com cada uma das Igrejas Ortodoxas são muito animados. Com a Comissão Mista Católico-Panortodoxa colaboram activamente os representantes da Polónia; é conhecida a sua participação nos encontros em Patmos e em Munique, dedicados à problemática teológica. Tudo isto contribui sem dúvida para a formação de novas e sinceras atitudes ecuménicas. É também um diálogo específico em benefício do conhecimento e do amor recíproco no âmbito de uma grande comunidade de crentes em Cristo. Por este serviço ecuménico digno de respeito e de reconhecimento na Polónia, dirijo aos católicos e aos crentes das outras Igrejas cristãs, o devido "Bog zaplac" (Deus vos recompense), invocando para os seus esforços e para os futuros bons êxitos as bênçãos do Senhor.

Desejo também fazer votos, por uma frutuosa e fraterna colaboração àqueles que tomarão parte no congresso do Conselho Mundial das Igrejas, que realizará os seus trabalhos entre o mês de Julho e o mês de Agosto, em Vancouver, sob o lema: "Jesus Cristo vida do mundo":

No final deste encontro desejo renovar aquele caloroso apelo que dirigi "a todos os responsáveis e aos membros das outras Igrejas e Comunidades eclesiais" quando proclamei o Jubileu da Redenção a todos os fiéis do mundo católico (Discurso aos Cardeais e aos Membros da Cúria Romana, 9: "L'Osservatore Romano", 24 de Dezembro de 1982). Indicando os valores deste Jubileu, salientava que ele é "um grande serviço à causa do Ecumenismo. Celebrando-o, superamos todas as incompreensões históricas e as controvérsias contingentes, para nos reencontrarmos na nossa comum condição de cristãos, isto é, de Redimidos. A Redenção une-nos a todos no único amor de Cristo, Crucificado e Ressuscitado" (ibid.). Por isso vos peço, Caros Irmãos, acompanheis, juntamente com as Igrejas e as Comunidades, as celebrações do Ano da Redenção com a vossa oração, com a vossa fé em Cristo Redentor, com o vosso amor "que se torne um desejo cada vez mais profundo de realizar a oração de Jesus, antes da sua Paixão redentora: 'ut omnes unum sint' (Jo. 17, 21)" (ibid.).

Unidos com o laço do amor fraterno e da paz, rezemos juntos com as palavras da oração que o próprio Cristo nos ensinou: "Pai nosso...".

 


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