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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS BISPOS DE PORTO RICO EM VISITA
«AD LIMINA APOSTOLORUM»

26 de Novembro de 1983

 

Caros Irmãos no Episcopado

1. Através dos vossos Relatórios quinquenais e dos colóquios que tive com cada um de vós, pude familiarizar-me com os problemas que deveis enfrentar no desempenho da grave função de Pastores das vossas Igrejas locais. Tive igualmente a satisfação de saber que, apesar das dificuldades provenientes da falta de pessoas e dos meios materiais necessários, tendes conseguido, com a ajuda de Deus, apreciáveis frutos de santificação para o bem daqueles que vos foram confiados.

A quase cinco séculos do início da evangelização da vossa ilha, recebo com grande alegria os sucessores do primeiro Bispo que chegou a terra americana. Padre Alonso Manso. O ininterrupto trabalho evangelizador começado por aquele ilustre Prelado, está hoje confiado a vós todos, filhos de Porto Rico. E é-me grato constatar que o mesmo espírito de homem da Igreja do primeiro Bispo, se mantém vivo em vós, colocados pelo Espírito Santo a presidir a essa Igreja que me é tão querida.

Neste encontro fraterno, desejo referir-me a alguns temas que considero mais importantes e merecedores de uma especial reflexão.

2. O primeiro deles refere-se à família. O Sínodo dedicado a esse tema, bem como a minha Exortação Apostólica Familiaris consortio não passaram despercebidos em Porto Rico. O interesse por este documento manifestado tanto por vós como pelos vossos colaboradores, concretizado em pregações, cursos de estudo, retiros, encontros e outras iniciativas orientadas no sentido de fortalecer a instituição familiar, produzirá sem dúvida óptimos frutos que por enquanto não é ainda possível reconhecer.

Desejo pedir-vos que comuniqueis aos vossos colaboradores: sacerdotes, diáconos permanentes, religiosos de um e outro sexo, e seculares comprometidos, a minha alegria de Pastor de toda a Igreja perante este generoso acolhimento do Magistério pontifício.

Estou consciente de que as forças privadas e públicas que trabalham no interior de Porto Rico contra a família são poderosas e altamente destrutivas. Os vossos predecessores e vós mesmos tivestes de enfrentar durante mais de oitenta anos a realidade do matrimónio civil e do divórcio vinculativo, com o inevitável desenvolvimento de uma mentalidade favorável ao divórcio. Na vossa ilha tem-se vindo a promover desde há cinquenta anos, o controlo dos nascimentos mediante o uso de processos imorais, que incluem a esterilização directa. O aborto legalizado tornou-se, por outro lado, uma realidade desde há pouco mais de dez anos.

Todavia, o ensino do Magistério eclesiástico nunca foi diluído nem deformado para acomodar a moral à chamada "mentalidade do homem moderno", como o demonstram os documentos publicados pela vossa Conferência Episcopal e pelos Bispos individualmente.

Exorto-vos, pois, a continuar a difundir, sem ambiguidades nem dissimulações, a doutrina da Igreja acerca da família, núcleo de particular importância para a sociedade civil e eclesial. A este respeito, não deixeis de ensinar em toda a sua riqueza e extensão a doutrina do meu predecessor Paulo VI, contida na Encíclica Humanae Vitae.

Animai os sacerdotes, diáconos permanentes, religiosos, religiosas e leigos com especiais qualidades e espírito de compromisso, para que vos ajudem a criar um ambiente de profundo respeito e apreço pela santidade da família.

3. As vocações merecem também uma especial atenção. Pude constatar com muita alegria um progresso neste campo, que se reflete no aumento de alunos nos vossos seminários diocesanos e nas casas de formação religiosa, bem como dos aspirantes a outras modalidades de vida consagrada.

Não é supérfluo recordar que o sacerdócio ministerial é indispensável para a vida da Igreja e que a vida consagrada foi, é e será um enriquecimento irrenunciável para a vitalidade da mesma Igreja, com toda a sua extensa gama de carismas.

Sei que mostrais um especial cuidado no fomento das vocações sacerdotais, diaconais e para a vida consagrada. Não posso deixar de manifestar a minha satisfação pelos diálogos e encontros que a vossa Conferência instituiu com os religiosos, para estudar documentos de interesse comum, como por exemplo Mutuae Relationes.

Exorto-vos a continuar esses diálogos e encontros, a fim de alcançar uma colaboração generosa e sobrenaturalmente motivada, que canalize toda essa diversidade de carismas para a edificação do Povo de Deus.

Sei também que cada um de vós fez o possível por destinar um sacerdote para a promoção das vocações nas vossas dioceses libertando-o, ainda que parcialmente, de outros trabalhos. Louvo e abençoo esta importante decisão. Apesar de tudo, deveis inculcar no vosso clero a ideia de que os sacerdotes que orientam as paróquias devem ser os promotores mais eficazes das vocações, pelo frequente contacto que têm com os jovens, e também porque estes vêem concretizado nos presbíteros que encontram nas suas paróquias o ideal sacerdotal (cf. Presbyterorum Ordinis, 11).

4. A formação permanente do clero e a sua vida de oração é outro ponto sobre o qual desejo deter-me brevemente convosco. De facto, os sacerdotes são chamados a um constante exercício do ministério da Palavra e da administração dos Sacramentos, a dar razões da sua fé e da sua esperança, e a dirigir as almas para as conduzir por caminhos seguros de santificação. Por isso, os sacerdotes mais fiéis puseram sempre muito empenho no estudo das ciências eclesiásticas e na aquisição de um conjunto de conhecimentos que os tornem capazes de penetrar nas profundidades da alma humana.

O grande aumento do nível geral de conhecimentos de que somos testemunhas nos nossos dias, pode afectar negativamente os sacerdotes, levando-os a pensar que não poderão nunca atingir uma formação cultural elevada, ou que deverão deixar o trabalho pastoral para se dedicarem ao estudo.

A solução está no justo meio, e numa justa escolha de prioridades. No fim de contas, espera-se do sacerdote que ele seja, antes de mais, um mestre da fé. E neste campo que os fiéis esperam uma especial competência profissional da parte dos seus sacerdotes, e é nesse campo que o sacerdote está chamado a possuí-la.

Exorto-vos, por isso, a que proporcioneis aos vossos sacerdotes os meios necessários para que aprofundem o estudo da Palavra de Deus, e adquiram os conhecimentos de ciência profana que lhes permitam ser fiéis transmissores da mensagem salvífica e seguros directores espirituais. Por seu lado, o vosso clero deverá responder com prontidão e diligência às solicitações, usando os meios que puserdes à sua disposição, não por um mero desejo de ostentar ciência, mas como uma necessidade vital do seu sacerdócio.

As conferências periódicas para o clero têm sido sempre um meio eficaz de manter actualizados os sacerdotes, tanto em relação aos conhecimentos necessários para um digno e eficaz exercício da sua acção pastoral, como para alcançar a unidade de doutrina e a disciplina na Igreja local, sob a presidência do Bispo diocesano. Nada indica que no tempo presente este meio tenha perdido a sua actualidade e eficácia.

Além disso, o sacerdote deve ser um homem de oração. Exige-o o seu Baptismo, exige-o o seu ministério, esperam-no os fiéis, os quais sustentam os seus sacerdotes para que rezem por eles. Estou consciente de que as grandes solicitações que se fazem ao tempo e às forças do sacerdote constituem uma terrível tentação — na qual muitos caíram, infelizmente — de abandonar a oração em favor de ministérios de importância secundária ou de um activismo estéril.

Animai, pois, os vossos sacerdotes a crescer na sua vida de oração, assegurando-lhes que, deste modo, não só não diminuirão a sua eficácia pastoral, mas, pelo contrário, tornarão o seu ministério mais fecundo (cf. Presbyterorum Ordinis, 13, 18).

5. As escolas católicas são outro campo importante da vossa solicitude pastoral. Com grandes esforços, e contando apenas com o contributo económico dos pais de família, tendes mantido centros católicos de educação ao nível primário, secundário e universitário. Apesar de constituírem um pequeno número em relação aos que o Estado dirige, eles são um lugar privilegiado de integração da fé com os conhecimentos humanos.

Nas normas do novo Código de Direito Canónico encontrareis um apoio para o vosso empenho em favor das escolas católicas, não apenas para continuar a operar e a melhorar as já existentes, mas também para continuar a abri-las, na medida do possível, onde ainda não existem, e também para que os vossos colaboradores neste campo, e do mesmo modo os pais de família, conheçam a verdadeira posição da Igreja a respeito do valor singular desses centros docentes na vida da Igreja.

Peço a Deus para que os vossos sacerdotes, diáconos permanentes, religiosos e religiosas, e os leigos profissionalmente competentes, mostrem a necessária disponibilidade e fidelidade sem reservas ao Magistério, para que os vossos centros, e outros que reconhecerdes como católicos, sejam, para além de lugares de formação, verdadeiros meios de integração moral e evangélica desejados pela Igreja.

O espírito de genuína catolicidade que anima a vossa Universidade Católica é mais um motivo de alegria para o Papa. Sei que ela é e continua a ser o resultado de uma procura institucional sincera, continuada através dos anos, orientada segundo os documentos pontifícios expressos nas directrizes do competente Organismo de governo, e de uma verdadeira vontade de as aceitar.

Aproveito esta oportunidade para vos animar a continuar a melhorar a vossa estrutura de ensino, de modo a torná-la um instrumento ainda mais eficaz de evangelização do mundo profissional e intelectual, sem descuidar o processo nunca interrompido de evangelização interna, sem o qual não é possível conseguir aquele objectivo.

Entre os fins da vossa Universidade, há dois que considero merecedores de uma referência especial, e que estão em plena consonância com o seu carácter católico. Refiro-me ao diálogo interdisciplinar, tantas vezes recomendado, e que é ali uma realidade, e ao Instituto de Doutrina Social da Igreja.

6. Queridos Irmãos: ao regressar às vossas dioceses encontrareis os mesmos problemas que preocupam todo o Pastor que o é verdadeiramente. Conheço as dificuldades que tendes de enfrentar cada dia para cumprir cabalmente a vossa tríplice missão de ensinar, santificar e governar. Sabei, por isso, que o Papa vos tem muito presentes nas suas orações, e que está certo de que pode contar com as vossas.

Ao recomendar-vos à maternal intercessão de Nossa Senhora da Divina Providência, desejo fazer chegar por vosso intermédio aos vossos sacerdotes, diáconos permanentes, religiosos, religiosas e leigos colaboradores, do mesmo modo que a todas as almas confiadas à vossa cura espiritual, a minha cordial saudação, acompanhada por uma Bênção especial.

 



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