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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
A UM GRUPO DE BISPOS DOS ESTADOS UNIDOS
 EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

23 de Outubro de 1983

 

Caros Irmãos
em Nosso Senhor Jesus Cristo

1. Há algumas semanas, durante uma outra visita "ad limina", falei de vários aspectos da identidade ao Bispo como um sinal vivo de Jesus Cristo, no contexto da sacramentalidade da Igreja. Gostaria de prosseguir agora a análise daquele tema geral, reflectindo convosco sobre o papel do Bispo como ministro da Palavra de Deus, "ministro do Evangelho" (Ef. 3, 7). De facto, é como ministro da Palavra de Deus, agindo pelo poder do Espírito Santo e através do carisma do múnus episcopal, que o Bispo manifesta Cristo no mundo, torna Cristo presente na comunidade, e comunica realmente Cristo a todos quantos lhe abrem o seu coração.

Como ministro do Evangelho, o Bispo é uma expressão viva de Cristo, o qual, enquanto Palavra Encarnada, é Ele próprio a suprema revelação e comunicação de Deus O ministério da palavra define claramente a nossa identidade como servos de Jesus Cristo, chamados a ser apóstolos, e "escolhidos para anunciar o Evangelho de Deus" (Rom. 1, 1). Pregando e ensinando, cumprimos a nossa missão específica. Cada um de nós actua assim o seu carisma especial de ser um sinal vivo de Cristo, que diz: "Devo anunciar também às outras cidades a boa nova do Reino de Deus, pois para isso é que fui enviado" (Lc. 4, 43)

2. O Concílio Vaticano II apresenta esta nossa identidade ao afirmar: "O anúncio do Evangelho ocupa um lugar de relevo entre os deveres principais dos Bispos. Os Bispos são, efectivamente, os arautos da fé, que levam a Cristo novos discípulos, e os doutores autênticos, isto é, investidos na autoridade de Cristo, que ao povo a eles confiado pregam uma fé para ser aceite e praticada na vida" (Lumen Gentium, 25). Como pregadores e mestres, os Bispos têm um papel vital a desempenhar, uma mensagem vital a comunicar. Os Bispos existem para proclamar o dom salvífico gratuito de Deus, oferecido à humanidade em Jesus Cristo, e realizado através do seu Mistério Pascal.

Todas as actividades dos Bispos devem ser orientadas para a proclamação do Evangelho, precisamente porque o Evangelho é "força de Deus para a salvação de todo o crente" (Rom. 1, 16). A Salvação encontra-se no Evangelho e o Evangelho é recebido na fé. Por isso, tudo aquilo que o Bispo faz deveria ter como fim ajudar as pessoas a prestar a "obediência da fé" (Rom. 1, 5) à Palavra de Deus, ajudando-as a aceitar a totalidade do conteúdo do ensinamento de Cristo. O papel do Bispo enquanto ministro do Evangelho é profundamente pastoral e, tal como a proclamação da Palavra de Deus, ele atinge o seu vértice na Eucaristia, na qual a obra da nossa salvação é sacramentalmente realizada.

3. O Concílio pôs em relevo o facto de que Deus quer que tudo quanto ele revelou para a salvação do mundo seja preservado na sua total integridade e transmitido às gerações futuras. Por esta razão, Cristo encarregou os apóstolos de proclamarem o Evangelho, e eles transmitiram a sua própria missão de mestres aos seus sucessores, os Bispos (cf. Dei Verbum, 7). O Concílio declara também que o múnus episcopal de ensinar na Igreja é conferido pela consagração episcopal e só pode ser exercido em comunhão hierárquica  com a cabeça e os membros do Colégio Episcopal (cf. Lumen Gentium, 21). Refiro estas verdades para indicar quanto o ministério da palavra está ligado à nossa própria identidade sacramental e a toda a nossa missão episcopal. A nossa vida como Bispos deve ter como centro o mandato de Cristo de ensinar tudo quanto Ele ordenou aos seus Apóstolos. Mais ainda, o nosso ministério apostólico está enriquecido por uma participação naquela autoridade plena dada a Jesus, e que Ele próprio evocou antes de enviar os seus discípulos para formar cristãos em todas as nações, baptizando-os e ensinando-os. O nosso ministério é além disso reforçado por aquela constante presença do Senhor entre nós até ao fim do mundo (cf. Mt. 28, 18-20). Tudo isto constitui o carisma episcopal, transmitido sacramentalmente, e sacramentalmente recebido e exercitado.

A nossa resposta de Bispos ao mandato de Cristo deve ser expressa numa proclamação vital, através da pregação e do ensino, de todas as verdades da fé: as verdades que conduzem os homens à salvação, as verdades que convidam os homens à obediência da fé. Os Bispos exercem a missão de ensinar recebida dos Apóstolos precisamente a fim de que "o Evangelho permaneça integro e vivo na Igreja" (Dei Verbum, 7). Por este motivo, o Decreto conciliar sobre o Múnus Pastoral dos Bispos encoraja-os explicitamente a expor, pelo poder do Espírito Santo, "a totalidade do mistério de Cristo" (Christus Dominus, 12). 

4. É fácil ver como a missão dos Bispos de fazerem uma pregação vital, de conservarem fielmente o depósito da fé, de ensinarem com autoridade em união com o Papa e todo o Colégio Episcopal, inclui também o dever de defender a Palavra de Deus contra tudo aquilo que possa comprometer a sua pureza e integridade. Se compreendermos a natureza da Igreja, na qual se faz a experiência do Mistério Pascal, não nos surpreenderemos por encontrar, em cada geração da vida da Igreja, incluindo a nossa própria, não apenas o pecado, mas também alguma porção de erro e falsidade. Um sereno sentido de realismo e de história da Igreja ajudar-nos-á contudo a desempenhar a nossa missão como autênticos mestres da Palavra de Deus, sem exagerar nem minimizar a existência do erro e da falsidade, que a nossa responsabilidade pastoral nos obriga a identificar e a rejeitar. A nossa fidelidade à Palavra de Deus exige também de nós que compreendamos e ponhamos em prática aquela grande realidade proclamada pelo Concílio: "O múnus de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou transmitida pela Tradição, foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo" (Dei Verbum, 10).

Estudando e ouvindo a Palavra de Deus, mantendo e explicando o depósito da fé, pregando e ensinando o mistério de Cristo, a vigilância e a fidelidade da parte dos Bispos são sinónimos de amor pastoral. As palavras de Paulo e Timóteo são importantes para cada um de nós: "Prega a palavra e insiste oportuna e inoportunamente, repreende, corrige, exorta com toda a longanimidade e doutrina... Mostra-te vigilante em tudo, suporta os sofrimentos, realiza obras de evangelizador, cumpre o teu ministério" (2 Tim. 4, 2.5). Experimentamos uma grande consolação e coragem ao tomarmos consciência de que prestamos o nosso especial serviço à Palavra de Deus por mandato divino, com o auxilio do Espírito Santo e em virtude de um carisma conferido sacramentalmente.

5. O exercício frutuoso do Magistério exige de nós uma reflexão acerca dos diversos aspectos do mistério da Palavra de Deus e da sua transmissão na Igreja. Sabemos que o Magistério autêntico da Igreja se caracteriza pela unidade. Ele não pretende estar acima da Palavra de Deus, mas pelo contrário, procura servi-la humildemente, através do seu carisma específico, exercido em nome de Cristo e pela sua autoridade. Deste modo, o Magistério não tem paralelo na Igreja. Há apenas um Magistério eclesial autêntico, que pertence aos Bispos. Da parte de cada Bispo, a comunhão de ensino com o Papa e todo o Colégio é de extrema importância, porque é garantia de doutrina autêntica e de eficácia sobrenatural de toda a iniciativa pastoral.

O carisma de ensinar do Bispo é único na sua responsabilidade. Como tal, ele deve ser exercido pessoalmente, não pode ser delegado. Pela consagração episcopal o Bispo adquire uma relação única com Jesus Cristo, o Mestre. Pela autoridade de Cristo, ele torna-se capaz de ensinar com particular eficácia. De um modo único, ele é um sinal vivo de Jesus Cristo, proclamando a Palavra de Deus com um poder especial.

Os sacerdotes estão intimamente relacionados com o ministério sacramental do Bispo, e com o Bispo como cooperadores da ordem episcopal, eles exercem a sua responsabilidade própria pela Palavra de Deus. Esta nossa relação com os nossos sacerdotes em referência à Palavra de Deus dá-nos um motivo especial para um profundo e pastoral amor para com eles, constituindo do mesmo modo uma oportunidade para agradecer a Deus a colaboração que eles nos prestam no anúncio do Evangelho.

6. Ao mesmo tempo, os Bispos são pastores e servos nas suas Igrejas locais, nas quais toda a comunidade eclesial — sacerdotes, diáconos, religiosos e leigos — colaboram com eles, de acordo com a constituição da Igreja, proclamando e vivendo a Palavra de Deus. O serviço sacramental dos Bispos à Palavra de Deus deve orientar-se para o bem-estar de toda a comunidade dos crentes. Os Bispos guiam os fiéis na compreensão da Palavra de Deus. A própria proclamação da Palavra de Deus tem um poder que conduz ao consenso da fé. E depois de terem dado este consenso, os próprios fiéis contribuem para um ulterior desenvolvimento da compreensão da Palavra de Deus por parte da Igreja (cf. Dei Verbum, 8), e, neste sentido, a fé aumenta em cada geração que se sucede na Igreja. Porém, segundo as palavras de São Vicente de Lerins, "deve tratar-se realmente de um desenvolvimento da fé, não de uma alteração da fé... A compreensão... da parte dos indivíduos como da parte de toda a Igreja fará então grandes progressos com o passar dos tempos e dos séculos, mas apenas se se mantiver na linha do seu próprio desenvolvimento, isto é, com a mesma doutrina, o mesmo sentido, o mesmo significado" (Instrução Elementar, cap. 23). Compreendendo o desenvolvimento da fé neste sentido, facilmente se vê que o magistério normal ou "ordinário" da Igreja não admite um desenvolvimento que represente seja um retrocesso seja uma contradição.

7. Através do exercício do seu próprio carisma, os Bispos prestam um grande serviço aos fiéis e ajudam-nos a desempenhar a sua própria missão de contribuírem para o desenvolvimento da fé. A este respeito gostaria de repetir mais uma vez o que disse em Chicago a todos os Bispos dos Estados Unidos: "Na comunidade dos fiéis — que deve sempre manter a unidade Católica com os Bispos e a Sé Apostólica — há muitos modos de perspectivar a fé. O Espírito Santo mantém-se activo, iluminando as mentes dos fiéis com a sua verdade, e inflamando os seus corações com o seu amor. Mas estas perspectivas da fé e este sensus fidelium não são independentes do Magistério da Igreja, o qual é um instrumento do mesmo Espírito Santo e é por ele assistido. É somente quando os fiéis são alimentados pela Palavra de Deus, fielmente transmitida na sua pureza e integridade, que os seus carismas próprios se tornam plenamente eficientes e frutuosos. Uma vez que a Palavra de Deus seja fielmente proclamada à comunidade e por ela aceite, produzirá frutos de justiça e de santidade de vida em abundância. Mas o dinamismo da comunidade na compreensão e vivência da Palavra de Deus depende da sua recepção do depositum fidei de forma intacta; e foi com esta precisa intenção que foi dado h Igreja um especial carisma apostólico e pastoral. É um único e mesmo Espírito de verdade que dirige os corações dos fiéis e garante o Magistério dos pastores do rebanho" (AAS 71, 1979, p. 1226).

8. Desejo neste momento, tal como fiz durante a minha visita à Universidade Católica da América, dizer uma palavra especial de apreço pelo papel dos teólogos na Igreja, e em particular pela assistência que eles dão aos Bispos, bem como o serviço que prestam aos fiéis. Uma vez que a teologia recebe da fé o seu objecto, e uma vez que ela se relaciona de um modo vital com o depósito da revelação, há muitos elementos que são comuns entre o papel dos Bispos e o dos teólogos. Embora por diferentes vias, tanto os Bispos como os teólogos, são chamados a guardar a Palavra de Deus, a estudá-la mais profundamente, a expô-la, a ensiná-la, a defendê-la. Tanto os Bispos como os teólogos são chamados a viver, a trabalhar e a rezar pela mesma grande causa: "para que a Palavra de Deus prossiga o seu curso e seja honrada" (2 Tess. 3, 1). Os teólogos têm uma preparação especial para estudar e esclarecer as razões do ensino doutrinal e moral da Igreja. Pelo seu estudo e investigação, e seguindo um método específico, os teólogos estão em posição de provar e ilustrar os dados da fé, bem como a interpretação que o Magistério faz destes dados em questões de doutrina e de moral.

Na sua missão de ensinar teologia, os teólogos são chamados a abrir cada vez mais o tesouro da fé e a inculcar o respeito pelo Magistério, ò qual por sua vez garante a interpretação da Palavra de Deus. Este respeito pelo Magistério é "um elemento constitutivo do método teológico" (cf. Paulo VI, discurso ad Limina, 20 de Junho de 1977). Por seu lado, os Bispos sabem que o exercício do seu próprio carisma sacramental está ligado à leitura, estudo, consulta e, sobretudo, à oração. Mas ele permanece um carisma ao serviço da fé de toda a Igreja.

Veneráveis e queridos Irmãos, ao convidar-vos a reflectir comigo acerca da nossa configuração com Jesus Cristo no nosso ministério da palavra, desejo de todo o coração confirmar-vos na vossa identidade mais profunda como Bispos da Igreja de Deus. A Palavra de Deus é a nossa vida e ministério, a nossa alegria e a nossa força, a nossa sabedoria e a nossa esperança. Mas é, mais ainda, a salvação do nosso povo, o seu contacto vital com o Senhor. A nossa proclamação da Palavra de Deus está ligada ao poder de um sacramento especial, e o nosso ensino da Palavra de Deus é garantido pela autoridade de Cristo, o Mestre. Como ministros do Evangelho, somos realmente si: nais vivos de Jesus Cristo. O Concílio assegura-nos: "Na pessoa dos Bispos... é o próprio Senhor Jesus Cristo, Pontífice supremo, que está presente no meio dos fiéis" (Lumen Gentium, 21).

Que Maria, Mãe de Jesus, a Palavra Encarnada, esteja connosco ao procurarmos comunicar ao mundo o Evangelho do seu Filho.

 



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