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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS MEMBROS DO SECRETARIADO PARA OS NÃO-CRISTÃOS

3 de Março de 1984

 

Senhores Cardeais
Venerados Irmãos

1. Estou feliz de me encontrar convosco, ao término dos trabalhos da Reunião Plenária que vos empenhou no estudo e no aprofundamento do tema geral "Diálogo e Missão", proposto pelo Secretariado para os Não-Cristãos a vinte anos da fundação desse Dicastério e da primeira Encíclica de Paulo VI, Ecclesiam Suam, considerada com razão a magna charta do diálogo nas suas várias formas. Nestes anos foi realizado um trabalho ingente para "procurar o método e os caminhos para o estabelecimento de um adequado diálogo com os não-cristãos" (Regimini Ecclesiae, AAS 59, p. 919).

Entre os que colaboraram na realização deste projecto, recordo o Cardeal Fignedoli que, com os seus contactos de amizade, atraiu a estima de membros de diversas religiões e apoiou iniciativas adequadas às exigências dos tempos. Um obrigado sincero dirige-se também ao Pró-Presidente, D. Jadot, que não cessa de promover oportunos encontros com o objectivo de favorecerem o diálogo entre os que pertencem a religiões diversas.

2. A ninguém passam despercebidas, de facto, a importância e a necessidade que o diálogo inter-religioso assume para todas as religiões e para todos os crentes, chamados hoje mais que nunca a colaborar a fim de que todos os homens atinjam a sua meta transcendente e realizem o seu crescimento autêntico, e ajudem as culturas a salvarem os próprios valores religiosos e espirituais, perante rápidas transformações sociais.

O diálogo é fundamental para a Igreja, que é chamada a colaborar no plano de Deus com os seus métodos de presença, de respeito e de amor para com todos os homens (cf. Ad Gentes, 10-12; Ecclesiam Suam, 41-42; Redemptor hominis, 11-12). Por isto eu mesmo, desde a primeira Encíclica e depois nos vários encontros com diversas personalidades e, sobretudo, por ocasião das minhas viagens, não cessei de salientar a importância, os motivos e as finalidades desse diálogo. Para a Igreja ele está fundado na vida mesma de Deus uno e trino. Deus é Pai de toda a família humana; Cristo uniu a Si todos os homens (Redemptor hominis, 13); o Espírito opera em cada um deles: por isso o diálogo está fundado também no amor pelo homem enquanto tal, que é o caminho primário e fundamental da Igreja (Redemptor hominis, 14), e no vínculo existente entre cultura e as religiões professadas pelos homens.

Esta relação de amizade entre crentes de diversas religiões nasce do respeito e do amor pelo outro, pressupõe o exercício das liberdades fundamentais para praticar inteiramente a própria fé e confrontá-la com a dos outros (Redemptor hominis, 12).

3. Nestes anos o exercício do diálogo mostrou novos caminhos e novas exigências. Antes de tudo as Igrejas particulares estabeleceram relações sinceras e construtivas com os crentes de outras religiões presentes na sua própria cultura. Este mesmo Secretariado foi estímulo para tal desenvolvimento; ele deve continuar a definir e aprofundar uma apropriada pastoral para as relações com os não-cristãos, favorecendo a troca de ideias e a reflexão. As Igrejas particulares, por seu lado, devem empenhar-se nesta direcção, ajudando todos os fiéis a respeitarem e estimarem os valores, as tradições e as convicções dos outros crentes, e promover, ao mesmo tempo, uma sólida e adequada formação religiosa dos próprios cristãos, para que saibam dar um convincente testemunho do grande dom da fé.

Nenhuma igreja particular deve eximir-se deste dever, que se tornou urgente devido às continuas mudanças. Por causa das migrações, das viagens, das comunicações sociais e das opções pessoais, os crentes de diversas religiões e cultos encontram-se com facilidade e muitas vezes vivem juntos. É necessária portanto uma pastoral que promova o respeito, o acolhimento e o testemunho, a fim de que os valores espirituais animem as nossas sociedades tentadas pelo egoísmo, pelo ateísmo e pelo materialismo.

Para promover essa pastoral é mais que nunca oportuno constituir em cada uma das Conferências dos Bispos uma comissão especial.

4. A experiência demonstra também que, o diálogo se realiza de múltiplas formas. Não há só o campo doutrinal, embora tão importante para uma compreensão profunda, mas também o dos relacionamentos quotidianos entre os crentes que são chamados ao respeito recíproco e ao reconhecimento comum. O diálogo de vida, de facto, favorece a coexistência pacífica e a colaboração para uma sociedade mais justa, a fim de que o homem cresça no ser e não só no ter. Neste campo a família merece particular atenção. Tais frequentes relacionamentos domésticos permitem conhecer as pessoas na sua história e nos seus valores e confrontá-las com o Evangelho. Na coerência com a própria Fé é possível também partilhar, confrontar e enriquecer as experiências espirituais e as formas de oração, como vias de encontro com Deus.

Todos os cristãos são chamados ao diálogo. Se a especialização de alguns é de grande utilidade, o que outros podem dar é uma contribuição notável. Penso em particular no diálogo intermonástico e de outros movimentos, grupos e instituições. Para todos são necessários uma preparação adequada e um constante aprofundamento da própria identidade eclesial.

O diálogo com os não-cristãos pode ser também um caminho para realizar a unidade entre as Igrejas cristãs, animadas pelo mesmo amor de Cristo. A mútua colaboração neste campo torna-se visível pela participação nesta Plenária do próprio moderador do Conselho Mundial das Igrejas. Mas o diálogo não é coisa fácil. A própria religião pode ser instrumentalizada e tornar-se pretexto de polarização e de divisão. Na actual situação do mundo, dialogar significa aprender a perdoar, a partir do momento que todas as comunidades religiosas possam reconhecer eventuais culpas toleradas ao longo dos séculos. Significa procurar compreender o coração dos outros, o que é particularmente difícil quando não existe um entendimento. Significa, antes de mais, pôr-se ao serviço da humanidade inteira e do único Deus. Não convém deter-se nos fáceis ou aparentes resultados. Este empenho nasce das virtudes teologais e cresce com elas.

5. O tema da vossa Plenária sobre a relação entre "Missão e Diálogo" é mais que nunca importante. A vossa experiência pastoral e a vossa comum reflexão, caríssimos Membros do Secretariado, sem dúvida ajudaram a esclarecer os laços e as relações entre missão e diálogo e a indicar adequadas orientações pastorais: Desejaria salientar apenas alguns aspectos:

O diálogo está inserido na missão salvífica da Igreja; por isto é um diálogo de salvação.

"Intimamente unidos com os homens na vida e no trabalho, os discípulos de Cristo esperam oferecer-lhes o verdadeiro testemunho de Cristo e trabalhar na salvação deles, mesmo quando não podem anunciar plenamente a Cristo" (Ad Gentes, 12).

Também nesta actividade eclesial é preciso evitar os exclusivismos e as dicotomias. O autêntico diálogo torna-se testemunho, e a evangelização é realizada no respeito e na escuta do outro (Redemptor hominis, 12). Mesmo que haja um tempo para cada coisa (cf. Ecle. 3, 1-8), a prudência e o discernimento hão-de ensinar o que é apropriado em cada situação particular a colaboração, o testemunho, a escuta, o intercâmbio de valores. Os santos, como Francisco de Assis, e os grandes missionários, como Matteo Ricci e Charles de Foucauld, são exemplos para nós. Se vivermos plenamente em Cristo, nos tornaremos instrumentos, cada vez melhor adequados, da sua cooperação e seguiremos o seu método, expressão do amor d'Aquele que se entregou a Si mesmo por nós.

Neste Ano Jubilar não podemos esquecer o papel do diálogo para a reconciliação entre os povos e com Deus; esta é condição essencial para a convivência pacífica e para a unidade desejada por Deus (Gaudium et Spes, 24.29; Lumen Gentium, 9.13.42) e restabelecida por Cristo (Gaudium et Spes, 78).

6. Os desafios são muitos e o horizonte dos empenhos é mais que nunca amplo.

Dirijamo-nos por isso a Cristo: aprendamos d'Ele como nos comportar com os demais. Assim viveremos n'Ele o amor misericordioso do Pai, que por meio do Espírito, convida todos os homens a reconciliarem-se em Cristo e entre si.

Com estes pensamentos e com estes votos concedo a todos e a cada um de vós uma especial Bênção Apostólica, como estímulo e encorajamento do vosso empenho tão meritório.

 



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