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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II
 A ANGOLA E SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

(4 - 10 DE JUNHO DE 1992)

DISCURSO DO SANTO PADRE
AOS REPRESENTANTES DE OUTRAS
 COMUNIDADES E CONFISSÕES RELIGIOSAS 

Luanda, 7 de Junho de 1992

Amados Irmãos e Irmãs em Cristo Senhor,

1. Começo por vos agradecer a oportunidade e o prazer que me dais de poder estar hoje reunido convosco e falar-vos um pouco do muito que a todos nos vai na alma. Neste momento, vêm-me à lembrança aquelas palavras do Evangelho que nos asseguram a presença inefável do Senhor: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” ( Mt 18, 20). Estamos aqui reunidos em Seu nome, e por isso podemos dizer alegremente que Jesus se encontra no meio de nós. O Senhor quer estar connosco com a Sua luz, a luz do Espírito da Verdade ( Jo 16, 13). A Sua presença constitui para nós uma força irresistível que nos enche de confiança e de esperança perante as suas promessas. N’Ele vos dirijo a todos e cada um a minha mais calorosa saudação.

Tenho conhecimento dos esforços feitos em todo o país pela aproximação ecuménica das várias Igrejas e Comunidades eclesiais, apesar das dificuldades recentes e de alguns erros do passado. Felicito-vos vivamente por esta aproximação fraterna, pois ela pode significar uma crescente maturidade na fé. Quem sabe dialogar com os irmãos de outras Igrejas e Comunidades eclesiais, também sabe dialogar com Deus e sabe entender a Sua palavra. Neste sentido, agradeço de coração as amáveis palavras que me foram dirigidas, em nome de todos, pelo Pastor.

Ao calor da presença de Cristo, “Primogénito entre muitos irmãos” ( Rm 8, 29), este encontro convosco é para mim motivo de júbilo, e me anima a um feliz e confiado colóquio fraterno. Gostaria de vos recordar aqui três motivos pelos quais todos nos devemos empenhar nesta caminhada ecuménica: o amor a Cristo, o dever de evangelizar, e a consolidação da paz na vossa Pátria.

2. O laço mais forte que nos une é certamente o amor a Jesus Cristo. Todos fazemos questão de amar o Senhor, e todos nos honramos de ser discípulos d’Ele. Porém seremos reconhecidos como Seus discípulos apenas se nos amarmos uns aos outros (Cfr. Jo 13, 35).

Se amamos sinceramente a Jesus Cristo, temos de cumprir igualmente os Seus mandamentos, pois não é possível amá-l’O sem guardar a Sua palavra (Cfr. Jo 14, 21). Ora, esta no-la condensou no Seu mandamento novo: amar-nos uns aos outros como Ele nos amou (Cfr. Jo 15 12). Daqui se infere que o amor a Jesus Cristo passa necessariamente pelo nosso amor fraterno.

Por isso, o diálogo, que é como que o pulsar do coração do ecumenismo, deve ser antes de mais o diálogo da caridade, que tem por base a compreensão, a escuta e o mútuo respeito. Esforcemo-nos, portanto, por fomentar o que nos une, e por compreender, com humildade e serena lucidez, e dentro da fidelidade aos tesouros da verdade divina, o que nos separa. É com base neste diálogo de caridade que as Igrejas e as Comunidades eclesiais em Angola poderão colaborar na reconstrução e no desenvolvimento do país, no apostolado social. Apraz-me saber que a Cáritas, atenta ao espírito do Evangelho, procurou nestes anos não fazer nenhuma espécie de discriminação quando tinha a possibilidade de ajudar as populações. De igual modo, projectos, entre outros, de ajuda aos deslocados, de reencontro das famílias dispersas pela guerra, de reconstrução do mundo rural, de promoção e desenvolvimento, podem louvavelmente ter a marca da colaboração ecuménica.

3. Mas, caros Irmãos, o ecumenismo está intimamente ligado à evangelização. Devemos fazer nossa a ardente súplica que Jesus elevou ao Pai na última Ceia: “que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, para que também eles estejam em nós e o Mundo creia que Tu me enviaste” ( Jo 17, 21). Estas palavras queimam em nosso coração, constituindo para todos um programa e um dever iniludíveis. Como disse o Papa Paulo VI, “a apresentação da mensagem evangélica não é para a Igreja uma contribuição facultativa: é um dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens possam acreditar e ser salvos” ( Evangelii Nuntiandi, 5).

A Igreja foi querida por Deus e instituída por Cristo para ser, na plenitude dos tempos, sinal e instrumento do plano divino de salvação (Cfr. Lumen Gentium, 1), cujo centro é o mistério de Cristo.

Sabemos que Deus pode salvar os homens de muitas maneiras; mas quer salvá-los dentro da Verdade (Cfr. 1 Tm 4, 12). E a Verdade é Cristo, pois “não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar” ( At 4, 12). Se Cristo é o único Salvador dos homens e nós O possuímos, temos a grave obrigação de O comunicar a todos os homens, para que todos se possam salvar na abundância da Sua graça. Primeiro, é preciso unirmo-nos a Ele pela fé, deixando que a sua vida se manifeste em nós; mas depois, devemos levá-l’O a todos os ambientes nos quais se desenvolvem as tarefas humanas.

O que será da Humanidade se ela avança no conhecimento da técnica e na ignorância dos valores humanos consagrados no Evangelho? “O homem – dizia o meu Predecessor, Papa Paulo VI – pode organizar a terra sem Deus, mas sem Deus só a pode organizar contra o homem” (Populorum Progressio, 42).

4. A hora que viveis na vossa Nação constitui um desafio patriótico dirigido a todos os cristãos, a fim de que se empenhem na consolidação da paz nacional. Realmente a Igreja recebeu do Senhor o ministério da reconciliação (Cfr 2 Cor 2, 18) e todo o cristão, cada qual a seu modo, é chamado a ser um promotor da paz, sobretudo entre os irmãos desavindos.

Os cristãos de Angola poderão desempenhar mais eficazmente esta missão reconciliadora e consolidadora de pacificação, se trabalharem de mãos dadas, em espírito ecuménico.

Assim afirmei na última Mensagem para o Dia Mundial da Paz: “Sem ignorar nem minimizar as diferenças, a Igreja está convencida de que existem elementos ou aspectos que utilmente podem ser desenvolvidos e realizados em conjunto com os seguidores de outras crenças e Confissões, para a promoção da paz....

Em definitivo, o apostolado ecuménico é um dever de todo o cristão consciente da sua fé. Se não temos culpa das divisões cristãs, uma vez que já nascemos nelas e aí fomos educados, todos seremos culpados das mesmas se nada fizermos para as superar.

Queira o Senhor consumar todo o bem que em vós começou, muito especialmente o bem da paz e da unidade dos cristãos. Essa unidade será fruto da acção do Espírito Santo que “habita nos crentes..., realiza aquela maravilhosa comunhão dos fiéis e une a todos tão intimamente em Cristo, que é princípio da unidade da Igreja” ( Unitatis Redintegratio, 2). Por isso, a celebração hodierna da Festa da Vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, o Pentecostes, encerra um convite a abrir-nos à Luz que vem do alto, afim de que todos sejamos conduzidos ao crescimento na Verdade que o Senhor prometeu, como obra do Seu Espírito (Cfr. Jo 16, 13): “Vinde, Espírito Santo! Enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor”!



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