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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AO SENHOR ANTÓNIO DE OLIVEIRA PINTO DA FRANÇA
 NOVO EMBAIXADOR DE PORTUGAL JUNTO DA SANTA SÉ
 POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS*

Sábado, 17 de Fevereiro de 1996

 

Senhor Embaixador

Ao receber as Cartas Credenciais com que inaugura a sua missão de Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário de Portugal junto da Santa Sé, é com grande prazer que lhe dou as boas-vindas, formulando os melhores votos pelo frutuoso e feliz desempenho da mesma.

Nesta ocasião, dirijo o meu pensamento grato e deferente ao Senhor Presidente da República, Doutor Mário Soares, pela presente nomeação de Vossa Excelência e pela saudação amável de que o fez portador, quase na hora do « render da guarda » naquele alto cargo, coincidindo com o seu retiro das lides governativas, no âmbito das quais, várias vezes, fui objecto das suas atenções de que lhe estou obrigado e das mesmas faço memória junto de Deus pela plena felicidade da sua vida e da sua família. Recordo que, na minha segunda Visita a Portugal, me acompanhou gentilmente ao Santuário de Fátima, quando 1á me dirigi no desejo de testemunhar uma vez mais a minha filial gratidão a Nossa Senhora pela solicitude materna com que vigia os destinos e passos dos homens.

E acompanhara-me lá, com a eloquência expressiva da sua fé e confiança na Virgem Maria, o querido povo português, cujo passado e presente imbuído de sentimentos de leal unidade e sincera dedicação ao Sucessor de Pedro quis o Senhor Embaixador recordar e, do mesmo, fazer-me homenagem nas palavras que acaba de me dirigir. Bem haja! Permita-me, neste momento, uma saudação fraterna a todos os fiéis católicos de Portugal, com os seus dedicados Pastores.

Excelência, vejo que, ao assumir as suas novas funções, se sente animado pelo propósito de bem servir as « relações seculares e frutuosas » existentes entre Portugal e a Santa Sé, guiado pelo amor da paz e da justiça que orienta a acção internacional do seu país. Escusado será dizer-lhe que, para tal, pode contar com toda a compreensão e apoio dos meus colaboradores.

Efectivamente, todos os que trabalham com sinceridade em prol do desenvolvimento integral da sociedade humana encontrarão um solícito cooperador na Igreja Católica, que professa não só um real respeito pela dignidade de cada uma das nações do mundo, com as suas próprias riquezas culturais, mas ainda, a bem das mesmas, não se cansa de lembrar que as diferentes culturas podem e devem completar-se mutuamente dentro da unidade da grande família humana.

Agradeço-lhe, Senhor Embaixador, o relevo dado, nas suas palavras, a este empenho incessante da Igreja Católica em prol da paz e entendimento universais, defendendo como único caminho civilizado para superar dissensões e conflitos o diálogo construtivo entre as partes envolvidas. A promoção do diálogo e da solidariedade entre os indivíduos e os povos é um dever de todas as nações, constituindo uma das mais urgentes exigências morais do nosso tempo. Mediante a própria presença no âmbito da comunidade internacional, a Santa Sé procura encorajar e fortalecer este diálogo, especialmente em relação aos valores espirituais e éticos, que são o fundamento essencial de uma sociedade justa e de uma paz verdadeira e duradoura.

Estes são princípios que o seu próprio país compartilha e tem demonstrado servir em várias situações, última das quais a relativa a Timor-Leste, cujos habitantes « continuam à espera de propostas capazes de permitirem a realização das suas legítimas aspirações, ou seja, verem reconhecida a sua especificidade cultural e religiosa » (Discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé 5, 13 de janeiro de 1996). A quantos tenham a peito ou entre mãos o problema de Timor, suplico o justo empenhamento por viabilizar e apoiar, cada qual na parte que lhe toca, o diálogo iniciado. Estou certo que Portugal saberá investir o melhor —  cito — da sua « capacidade de diálogo e respeito pela identidade dos outros, só possível com a força de uma sã humildade », que a História lhe pediu e ensinou. Apelo-me à coragem dos amigos e servidores da paz!

Senhor Embaixador, queria, por fim, registar a emoção que lhe vai na alma pelo facto de chegar a Roma no limiar do Grande Jubileu do Ano 2000, que há-de ser — assim o espero e por isso instantemente rezo — um acontecimento de graça e de salvação para a Igreja e para o mundo. Isso exigirá a ambos, para além do mais, um sério e franco confronto com o secularismo », para enfrentar « a vasta temática da crise de civilização, como acabou por se manifestar sobretudo no Ocidente, tecnologicamente mais desenvolvido mas interiormente empobrecido pelo esquecimento ou pela marginalização de Deus » (Tertio Millennio Adveniente, 52). Estou certo que a sociedade portuguesa, nos seus diversos níveis e componentes, fiel à sua história e ao exemplo dos seus maiores, saberá abrir-se a tal confronto, com coragem e livre dos preconceitos derivados de uma visão arreligiosa e amoral da pessoa e da comunidade humana.

Ao concluir este encontro, reitero meus votos cordiais par que a sua alta missão, hoje iniciada, seja coroada de êxitos. A Deus Todo-poderoso confio a pessoa de Vossa Excelência, os que lhe são caros e os seus colaboradores, e a sociedade portuguesa inteira, sobre todos invocando a abundância dos favores celestes por intercessão de Nossa Senhora da Conceição, que Portugal, há 350 anos, no Santuário de Vila Viçosa e pela voz da sua máxima Autoridade civil com explícita adesão dos Representantes da Nação, escolheu servir e honrar como Padroeira e Rainha.

Deus abençoe e proteja Portugal!


*Insegnamenti di Giovanni Paolo II, vol. XIX, 1 p.349-353.

L’Osservatore Romano 20.2. 1996 p.8.

 

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