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 DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
AO NOVO EMBAIXADOR DA IRLANDA
JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO
DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Sexta-feira, 23 de Outubro de 1998 

 

Senhor Embaixador

É-me muito grato dar-lhe hoje as boas-vindas ao Vaticano e aceitar as Cartas Credenciais mediante as quais Vossa Excelência é designado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Irlanda. Agradeço-lhe as expressões de bons votos que Vossa Excelência me transmitiu da parte de Sua Excelência o Senhor Presidente McAleese e é de bom grado que lhe retribuo com os melhores votos e a certeza das minhas orações pelo amado Povo irlandês, com o qual a Santa Sé já entretece um longo e singular vínculo de fé e de amizade desde o século V.

A história do seu País testifica um compromisso profundamente arraigado na fé cristã. Este empenhamento inspirou os monges que ao longo dos séculos levaram a luz da fé e da ciência a muitas partes da Europa, após a queda do Império Romano; ele sustentou os numerosos sacerdotes, religiosos e leigos que derramaram o próprio sangue num supremo testemunho de fidelidade à Igreja nos tempos de perseguição; além disso, tem encorajado os inumeráveis missionários irlandeses a levarem o Evangelho até aos extremos confins da terra nos tempos mais recentes. A impressionante herança cristã da Irlanda tem contribuído em grande medida para o aprofundamento do sentido de solicitude que os irlandeses sempre demonstraram em relação aos outros povos que lutam pela liberdade, justiça e desenvolvimento. Hoje, ela põe em evidência o seu próprio desejo de desempenhar um papel activo na promoção do progresso e da paz entre os povos do mundo inteiro.

Vossa Excelência mencionou o facto de a Irlanda e a Santa Sé participarem e cooperarem em muitas Organizações e em importantes Encontros internacionais. Uma das mais significativas iniciativas da comunidade internacional nos últimos anos foi o Encontro mundial sobre o Desenvolvimento social, realizado em Copenhaga no ano de 1995. Nesse encontro, países de diferentes culturas e níveis económicos puderam alcançar um amplo consenso acerca dos princípios a seguir, em vista do desenvolvimento da sociedade e da obtenção de melhores condições de vida para todos. Foi encorajador observar a determinação de colocar a pessoa humana no centro dos esforços em prol do desenvolvimento e de lutar por um progresso humano que tenha em consideração e respeite os valores éticos, culturais e religiosos. Efectivamente, o desenvolvimento de um país nunca pode ser reduzido a uma simples acumulação de riquezas e a uma maior disponibilidade de bens e serviços em geral. Um profundo sentido da dignidade inviolável da pessoa humana deve constituir o fundamento dos projectos sociais, económicos e educativos que têm em vista melhorar a vida das pessoas e corresponder genuinamente às necessidades humanas de forma mais efectiva. Reconhecer cada homem e cada mulher como sujeitos com direitos e liberdades inalienáveis significa que as nações e a comunidade internacional devem garantir de maneira eficaz que as dimensões sociais, culturais e espirituais da vida sejam respeitadas e promovidas constantemente e em toda a parte.

Para proporcionar um autêntico desenvolvimento humano e social, é essencial salvaguardar a família e promover o seu bem-estar. A família é a primeira escola das virtudes sociais, as quais constituem o princípio animador do desenvolvimento e do progresso da sociedade (cf. Exortação Apostólica Familiaris consortio, 42). As famílias sólidas e unidas formam os seus membros no respeito dos direitos e da dignidade dos outros, no reconhecimento da sacralidade de toda a família humana, de maneira especial dos mais vulneráveis, e na prática daquelas qualidades e virtudes que promovem e edificam o bem comum. Tudo aquilo que debilita o tecido da vida familiar ou reduz as responsabilidades distintivas da família causa um grave prejuízo à sociedade em geral. Na minha Carta às Famílias, escrita em 1994 por ocasião do Ano Internacional da Família, salientei a importância da vida familiar para o bem-estar dos povos: «Uma nação verdadeiramente soberana e espiritualmente forte é sempre composta por famílias fortes, cientes da sua vocação e da sua missão na história» (n. 17). O apreço pela contribuição indispensável da família para o bem-estar do seu país encorajou os idealizadores da Constituição irlandesa a darem grande relevância à família como uma comunidade primária e fundamental na sociedade, possuidora de «direitos inalienáveis e imprescritíveis, antecedentes e superiores a todo o direito positivo» (Bunreacht na hÉireann, art. 41, 1, 1°). Isto impeliu-os a defender o direito dos pais a serem os principais agentes da educação religiosa, moral, intelectual, física e social dos próprios filhos (cf. ibid., art. 42, 1). Haurindo destes princípios básicos, que reflectem a preciosa herança cultural e religiosa do seu País, a Irlanda pode continuar a ser uma voz convincente no foro internacional, todas as vezes que se trata de salvaguardar e revigorar a cultura internacional do respeito da pessoa humana, a família e a dimensão transcendente da existência do homem.

Ao aproximarmo-nos do termo do século XX, um período que testemunhou ingentes violências, guerras, perseguições e atentados fundamentalmente ideológicos da parte de regimes totalitários que visavam aniquilar povos inteiros, deveria ser clarividente o facto de que os esforços no sentido de instituir uma ordem social renovada a níveis tanto nacional como internacional só obterão bom êxito se se garantirem juridicamente as normas morais universais e imutáveis, assentes na natureza humana e acessíveis à razão. Segundo a visão cristã, os direitos fundamentais do homem são consequentes da natureza humana e em última análise derivam de Deus e não são simplesmente conferidas pelas autoridades humanas. A incapacidade de reconhecer a existência de uma verdade que transcende as realidades sociais e culturais constitui uma vereda breve rumo ao domínio exclusivo do Estado sobre todos os aspectos da vida. Desta forma, abre-se o caminho para as imposições totalitárias de todos os géneros (cf. Carta Encíclica Centesimus annus, 44). Quando se removem os sólidos pontos de referência moral e prevalece o relativismo ético, os direitos e as liberdades fundamentais são ameaçados até mesmo numa sociedade que parece ser democrática (cf. Carta Encíclica Veritatis splendor, 101). «Se não existir nenhuma verdade última que guie e oriente a acção política, então as ideias e as convicções podem ser facilmente instrumentalizadas para fins de poder. Uma democracia sem valores converte-se facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado, como a história demonstra » (Carta Encíclica Centesimus annus, 46). Enquanto nos preparamos para entrar no novo milénio, em particular as nações da Europa enfrentam o desafio que consiste em determinar os princípios do seu desenvolvimento futuro. Senhor Embaixador, o seu País, cuja experiência está arraigada num profundo sentido da presença de Deus em todas as vicissitudes humanas (cf. Bunreacht na hÉireann, Preâmbulo), está em boas condições de oferecer um inestimável contributo para a fundação da nova Europa sobre as suas autênticas bases espirituais e culturais.

Recordo-me sempre com afecto da Visita pastoral que realizei ao seu País em 1979, quando testemunhei pessoalmente as maravilhosas qualidades humanas e espirituais do povo irlandês. Nessa época, a Irlanda do Norte estava imersa na violência que causara ingentes sofrimentos nas décadas passadas. Uma nova era de esperança abriu-se com a assinatura do chamado Good Friday Agreement («Acordo da Sexta-Feira Santa»), que lançou uma nova base para o governo e a cooperação entre todas as camadas da população. A paz permanente é sempre uma realidade frágil e exige esforços diuturnos da parte de todos. O caminho em frente requer de todos os interessados não só a disponibilidade ao compromisso, mas principalmente um empenho positivo em vista de criar «o conjunto daquelas condições de vida social, que permitem aos homens, às famílias e aos grupos poderem alcançar [...] a sua própria perfeição» (Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 74). Rezo para que o futuro de todo o povo da Irlanda, sem qualquer distinção, se fundamente na justiça, equidade e harmonia.

Senhor Embaixador, ao iniciar a sua missão, no seguimento de uma longa tradição de ilustres Diplomatas irlandeses, asseguro-lhe as minhas orações pelo seu bom êxito. Pode estar certo de que os vários Departamentos da Cúria Romana estarão totalmente disponíveis a assisti-lo no cumprimento dos seus deveres.

Guím beannacht Dé ar phobal na hÉireann.

 

© Copyright 1998 - Libreria Editrice Vaticana

 



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