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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

 

Misericórdia, festa e memória

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 27 de 07 de Julho de 2013

«Deixemo-nos proteger pela misericórdia de Jesus; façamos festa» com ele; e mantenhamos viva a «memória», dado que na vida encontrámos «a salvação»: foi tríplice o convite que sobressaiu da reflexão do Papa Francisco durante a missa de sexta-feira, 5 de Julho, na capela da Domus Sanctae Marthae.

Entre os concelebrantes estava, entre outros, o cardeal Jorge Liberato Urosa Savino, arcebispo de Caracas, no dia da festa nacional na Venezuela. A seguir, o Pontífice comentou na homilia o trecho do Evangelho de Mateus (9, 9-13), que narra a conversão do mesmo autor, cobrador de impostos, que se tornou um dos doze. A mensagem de Jesus — explicou — foi retomada «pela tradição do povo de Israel. Uma mensagem profética, mas que o povo teve sempre dificuldade de compreender: quero misericórdia, não sacrifícios». Com efeito, o nosso é o Deus da misericórdia. Isso é evidente precisamente na vicissitude de Mateus, que «não é uma parábola»: é uma realidade «concreta; aconteceu».

O tema da liberdade dos filhos de Deus esteve no centro da homilia da missa celebrada na manhã de quinta-feira 4 de Julho. Ela é o fruto da reconciliação com o Pai actuada por Jesus, o qual assumiu sobre si os pecados de todos os homens e redimiu o mundo com a sua morte na cruz. Ninguém, frisou o Pontífice, nos pode privar desta identidade. Se existisse um «bilhete de identidade», disse o Papa, para os cristãos, certamente a liberdade estaria entre as suas principais características.

Reconciliar o mundo em Cristo em nome do Pai: «esta é a missão de Jesus. O resto, as curas, o ensinamento, as reprovações são só sinais daquele milagre mais profundo que é a recriação do mundo. Uma linda oração da Igreja diz: “Ó Senhor vós que criastes maravilhosamente o mundo, mais maravilhosamente o redimistes, recriastes”». Portanto, a reconciliação é recriação do mundo e a missão mais profunda de Jesus é a redenção de todos nós, pecadores. E «Jesus — acrescentou o Papa — faz isto não com palavras, nem com gestos ou caminhando nas ruas, não! Fá-lo com a sua carne. É precisamente Deus que se torna um de nós, homem, para nos curar a partir de dentro». Mas, perguntou-se o Pontífice, «podemos dizer que Jesus se fez pecador? Não é exactamente assim, porque ele não podia pecar. São Paulo diz a palavra justa: não se fez pecador, fez-se pecado (cf. 2 Cor 5, 21). Assumiu sobre si todo o pecado. E isto é bom, esta é a nova criação», é «Jesus que desce da glória e se humilha até à morte e morte de cruz. Esta é a sua glória e esta é a nossa salvação. E a cruz, no final, faz-se pecado (cf. ibid.)».

Pôr as mãos na carne de Jesus, pôr o dedo nas chagas de Jesus ressuscitado foi o tema central da homilia pronunciada durante a missa celebrada na manhã de quarta-feira, 3 de Julho. A festa de são Tomé apóstolo ofereceu ao Papa Francisco a ocasião para falar de novo sobre este tema que lhe é particularmente querido.

É preciso que saiamos de nós mesmos — frisou o Papa Francisco — e prossigamos nos caminhos do homem para descobrir que as chagas de Jesus são visíveis ainda hoje no corpo de todos aqueles irmãos que têm fome e sede, que estão nus, humilhados e escravos, que se encontram em prisões e hospitais. E precisamente ao tocar estas chagas, acariciando-as, é possível «adorar o Deus vivo no meio de nós».

O Santo Padre iniciou a homilia da missa de terça-feira, 2 de Julho, evidenciando precisamente a singularidade da liturgia do dia (Gn 19, 15-29; Sl 25; Mt 8, 23-27) que faz pensar em certas situações «conflituais», difíceis de enfrentar. Reflectir sobre elas, frisou, «far-nos-á bem». A tentação, a curiosidade, o temor e, por fim, a graça. São quatro situações que se podem verificar quando nos encontramos diante de uma dificuldade.

A primeira atitude pode ser indicada na lentidão com a qual Lot responde ao convite do anjo que lhe diz para se apressar a deixar a cidade, antes que seja destruída. A segunda atitude é tirada da narração da fuga de Lot. «O anjo — recordou o Papa — disse-lhe que não olhasse para trás: “Foge e não olhes para trás, vai em frente”. Também aqui está um conselho para superar a nostalgia do pecado». Contudo, às vezes não é suficiente superar a nostalgia «porque — advertiu o Papa Francisco — existe a tentação inclusive da curiosidade. Foi o que aconteceu com a esposa de Lot». Portanto, diante do pecado é preciso fugir sem nostalgia e recordar que «a curiosidade não serve, faz mal». Fugir e não olhar para trás, porque «todos somos frágeis e devemos defender-nos».

A terceira atitude sobre a qual o Papa Francisco falou é o temor. A referência é o episódio, narrado no evangelho de Mateus (8, 23-27), da barca na qual se encontram os apóstolos e que de repente é investida pela tempestade. «A barca estava coberta pelas ondas — recordou o Pontífice — “Salva-nos, Senhor! Estamos perdidos”, dizem. O temor é uma tentação do demónio. Ter medo de ir frente no caminho do Senhor».

A quarta atitude refere-se à graça do Espírito Santo, que se manifesta «quando Jesus faz voltar a bonança sobre o mar. E todos permanecem cheios de admiração». Portanto, diante do pecado, da nostalgia, do medo é necessário «olhar para o Senhor — evidenciou o Pontífice — contemplar o Senhor», conservando aquela «maravilha tão agradável de um novo encontro com o Senhor. “Senhor, sinto esta tentação, quero permanecer nesta situação de pecado. Senhor, tenho a curiosidade de saber como estão as coisas. Senhor, tenho medo...”, mas depois os discípulos olharam para o Senhor: “Salva-nos Senhor, estamos perdidos”. E veio a maravilha do novo encontro com Jesus. Não sejamos ingénuos nem tíbios: sejamos valorosos, corajosos. Sim, somos débeis mas devemos ser corajosos na nossa fragilidade».

Na missa celebrada a 1 de Julho o Pontífice exortou a reflectir sobre a coragem de negociar com o Senhor. Se se quiser obter algo de Deus é necessário ter a coragem de «negociar» com Ele através de uma oração insistente e convicta, feita de poucas palavras, melhor se forem as do Salmo 102. O Papa Francisco voltou a falar sobre a coragem que deve amparar a oração dirigida ao Pai, com «toda a familiaridade possível». E citou como exemplo a oração de Abraão, o seu modo de falar com Deus como se estivesse a negociar, exactamente, com outro homem. E concluiu a homilia exortando a que «a partir de hoje todos nós por 5 minutos durante o dia recitemos lentamente o Salmo 102, o mesmo que recitámos entre as duas leituras. «Bendiz, ó minha alma, o Senhor, e toda a minha vida interior, o seu santo Nome; bendiz, ó minha alma, o Senhor, e não esqueças todos os seus benefícios. É Ele quem perdoa as tuas culpas, e sara todas as tuas enfermidades; é Ele quem resgata a tua vida do túmulo, e te coroa de graças e bondade». Rezemo-lo inteiramente. E assim aprenderemos o que devemos dizer ao Senhor, quando pedimos uma graça».

 

 



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