Index   Back Top Print

[ PT ]

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

 

Inteligência, coração, contemplação

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 43 de 24 de Outubro de 2013

 

Na homilia da missa celebrada na manhã de terça-feira, 22 de Outubro, o Papa afirmou que Deus não nos salvou por decreto ou por lei mas com a sua vida. Naturalmente trata-se de algo que não é fácil compreender nem explicar. A este propósito o Santo padre indicou três palavras que podem facilitar a nossa compreensão: contemplação, proximidade e abundância.

Antes de tudo a contemplação. Sem dúvida trata-se de um mistério extraordinário, a ponto que «a Igreja, quando quer dizer-nos algo sobre este mistério, usa só uma palavra: admiravelmente. Diz: Ó Deus, tu que admiravelmente criaste o mundo e mais admiravelmente o recriaste...». Para compreender é necessário pôr-se de joelhos, rezar e contemplar. A segunda palavra à qual o Papa se referiu é «proximidade». «A imagem que me vem em mente — confidenciou o Pontífice — é o enfermeiro ou a enfermeira que num hospital cuida das feridas uma por uma, mas com as suas mãos. Deus entra nas nossas misérias, aproxima-se das nossas chagas e cura-as com as suas mãos; e para ter mãos fez-se homem.

A terceira palavra é «abundância». Na carta de Paulo repete-se diversas vezes: «Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça». Assim entende-se também «a preferência de Jesus pelos pecadores. Acusavam-no de estar sempre com os publicanos, com os pecadores. Comer com os publicanos era um escândalo, porque no coração destas pessoas abundava o pecado».

Certamente, frisou o Pontífice, há pessoas que não gostam de ouvir dizer que os pecadores estão mais perto do coração de Jesus, que «ele vai procurá-los, chama todos. E quando lhe pedem uma explicação, diz: mas, quem tem boa saúde não precisa de médico; vim para curar, para salvar em abundância». Alguns santos, recordou o Papa, «dizem que um dos pecados piores é a desconfiança, não confiar em Deus. Mas como podemos não confiar num Deus tão próximo, tão bom, que prefere o nosso coração pecador? É assim este mistério: não é fácil compreendê-lo, não se entende bem, não se pode entender só com a inteligência.

No início da homilia da missa celebrada na manhã se segunda-feira, 21 de Outubro, o Santo Padre recordou a figura do homem que pede a Jesus que intime ao seu irmão para dividir com ele a herança. Com efeito, para o Pontífice o Senhor fala-nos através desta personagem «da nossa relação com as riquezas e com o dinheiro». Um tema que não é só de há dois mil anos mas que se apresenta ainda hoje, todos os dias. «Quantas famílias destruídas — comentou — vimos por problemas de dinheiro: irmão contra irmão; pai contra filhos!». Porque a primeira consequência do apego ao dinheiro é a destruição do indivíduo e de quem lhe está próximo. Certamente, o dinheiro não deve ser exorcizado de modo absoluto. «O dinheiro — esclareceu o Papa Francisco — serve para realizar tantas coisas boas, tantas obras, para desenvolver a humanidade. O que deve ser condenado, ao contrário, é o seu uso exagerado. A característica mais perigosa da avidez é precisamente a de ser «um instrumento da idolatria; porque vai em sentido oposto» ao caminho traçado por Deus para os homens. Por este motivo, acrescentou o Pontífice, «Jesus diz coisas tão duras e tão fortes, contra o apego ao dinheiro»: por exemplo, quando recorda «que não se podem servir dois senhores: ou Deus ou o dinheiro». Um comportamento em aberto contraste com esta confiança na misericórdia divina é precisamente o do protagonista da parábola evangélica, o qual não conseguia pensar em mais nada a não ser na abundância do grão colhido nos campos e dos bens acumulados. Um comportamento que, segundo o Papa, acalenta a ambição de alcançar uma espécie de divindade, «quase uma divindade idólatra», como testemunham os pensamentos do homem: «Alma minha, tens à disposição muitos bens, por muitos anos; repousa, come, bebe, diverte-te».

Mas é precisamente então que Deus o reconduz à sua realidade de criatura, advertindo-o com a frase: «Insensato, esta mesma noite ser-te-á pedida a tua vida». Porque, concluiu o bispo de Roma, «este caminho contrário ao caminho de Deus é uma insensatez, conduz longe da vida. Destrói qualquer fraternidade humana». Enquanto o Senhor nos mostra o caminho verdadeiro. Que «não é o caminho da pobreza para a pobreza»; ao contrário, é o caminho da pobreza como «instrumento, para que Deus seja Deus, para que Ele seja o único Senhor, não o ídolo de ouro». Com efeito, «todos os bens que possuímos, o Senhor no-los concede para que sejam em benefício do mundo, da humanidade, para ajudar os outros».

Na missa celebrada na manhã de sexta-feira 18 de Outubro, o Papa Francisco dirigiu o pensamento para «três ícones» do sofrimento: Moisés, João Baptista e Paulo. Moisés que lutava contra os inimigos; João Baptista sentia-se atormentado pela angústia, e Paulo, o qual confidencia a Timóteo toda a sua amargura.

A meditação sobre as frases finais da vida destes personagens sugeriu ao santo Padre «a recordação daqueles santuários de apostolicidade e santidade que são as casas de repouso dos sacerdotes e das religiosas». Visitá-los significa realizar «verdadeiras peregrinações, a estes santuários de santidade e apostolicidade», como se fôssemos peregrinos que visitam os santuários marianos ou dedicados aos santos. «Mas pergunto-me — acrescentou o Papa — nós cristãos temos vontade de fazer uma visita, que será uma verdadeira peregrinação? Nas casas de repouso «as religiosas e os sacerdotes — disse o Papa — esperam o Senhor quase como Paulo: um pouco tristes, deveras, mas também com uma certa paz, com rosto alegre». Precisamente por isto faz «bem a todos pensar nesta etapa da vida que é o ocaso do apóstolo».

E na quinta-feira 17 de Outubro, o Pontífice centrou a sua homilia no trecho evangélico de Lucas (11, 47-54), que apresenta a advertência de Jesus aos doutores da lei: «Ai de vós porque vos apoderastes da chave da ciência: Vós próprios não entrastes e impedistes a entrada àqueles que queriam entrar», associando-vos à imagem de «uma igreja fechada» na qual «as pessoas que passam em frente não podem entrar» e de onde «o Senhor que está dentro não pode sair». Eis a exortação aos «cristãos que têm nas mãos a chave e a levam embora, não abrem a porta», ou pior, «param na frente da porta» e «não deixam ninguém entrar». E exortou a pedir ao Senhor a graça de nunca deixar «de rezar para não perder a fé» e de «permanecer humildes» para não se transformar em pessoas fechadas «que não abrem a porta ao Senhor».

 

 



© Copyright - Libreria Editrice Vaticana