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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

A força das mulheres

Quinta-feira, 23 de novembro de 2017

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 49 de 7 de dezembro de 2017

«Só a força das mulheres é capaz de resistir a uma colonização cultural e ideológica»: testemunham-no a história, da Bíblia à resistência italiana e às ditaduras genocidas na Europa do século passado. E o segredo da capacidade das mulheres de defender com «coragem e ternura» a história de um povo está na transmissão da fé, apostando na memória e no dialeto, na capacidade de se fazer entender pelas crianças, ensinando-lhes os valores autênticos e salvando-as das «doutrinações».

«Na primeira leitura, referindo-se ao trecho litúrgico do primeiro livro dos Macabeus (2, 15-29) — ouvimos que continua a colonização cultural do rei Antíoco Epifânio: como sempre, cada colonização cultural e ideológica tem o mesmo estilo, e nós podemos vê-lo». Em particular, «um dos indicadores de uma colonização cultural é que tira a liberdade: aquele povo não tinha o direito de pensar; todos assim, pensa-se assim». E «outro indicador é anular a história, deixar de recordar», como se disséssemos: «a história começa comigo, agora, com a narração que faço neste momento, não com a memória que lhe transmitiram». «O terceiro indicador é educativo», pois «cada colonização cultural e ideológica quer impor um sistema educativo aos jovens. Sempre. E preocupa-se com isto». De resto, «pensai no que fizeram as ditaduras do século passado aqui na Europa» e «qual era a sua preocupação: “O que fazemos com os jovens, façamos assim?».

«Eu — afirmou o Papa — não quero citar nomes. Conheceis os nomes que davam a estas escolas de doutrinação dos jovens: tira-se a liberdade, desconstrói-se a história, a memória do povo, impondo um sistema educativo aos jovens. Todas agem assim, algumas até com luvas brancas». E acontece «que um país, uma nação pede um empréstimo» e a resposta que recebe é: «Dou-te, mas nas escolas deves ensinar isto, isso e aquilo». Eis, «indicam-te os livros que anulam tudo o que Deus criou e como o criou. Cancelam as diferenças, anulam a história: a partir de hoje começa-se a pensar assim, e quem não o fizer será deixado de lado e até perseguido».

Foi esta «a história da colonização cultural e ideológica que o povo de Deus sofreu, quando alguns dos seus membros instauraram estas ideias: ela tira a liberdade e introduz a perseguição». Com efeito, «vimos que os fiéis são perseguidos: até aqui na Europa, no século passado, quantos se opunham às ditaduras genocidas eram perseguidos». Mas «ainda hoje, há alguma colonização cultural com luvas brancas: se não fores por este caminho, aquele lugar não será teu, será para outra pessoa, não consegues progredir na vida, condicionam-te a existência. É outra forma de tortura. Tiram-te a liberdade».

E não só, porque «depois te tiram a memória», disse. É assim mesmo, «nenhuma memória: são fábulas. Nada! Eis a narração que construo para vós: deve-se crer nisto, a história começa connosco, o que passou é mentira, coisas de velhos».

«É interessante — referindo-se aos irmãos Macabeus — a palavra que a mãe diz ao filho mais jovem: “Mostra-te digno dos teus irmãos” — “Mostra-te digno do teu povo. Tem memória. Não a regateies». É um convite, afirmou, a «guardar a memória: a memória da salvação e do povo de Deus, aquela memória que fortalecia a fé do povo perseguido pela colonização ideológico-cultural». E «é a memória que nos ajuda a derrotar qualquer sistema educativo perverso: recordar os valores, a história, aquilo que aprendemos». Francisco quis meditar de novo sobre a figura da mãe: «O texto diz que a mãe falava duas vezes “na língua dos pais”: falava em dialeto. E não existe colonização cultural alguma que possa vencer o dialeto». O dialeto «tem raízes históricas».

Portanto, prosseguiu, «a mãe “falava na língua dos pais”, em dialeto, e por isso o rei não entendia, o intérprete não compreendia». E falava, explicou, «temperando a ternura feminina com uma coragem viril: isto faz-nos pensar que só a força das mulheres é capaz de resistir a uma colonização cultural». Uma palavra, “resistência”, que «aqui na Itália tem um profundo eco histórico, e que soube vencer aquelas colonizações».

«Até hoje estamos diante de muitas colonizações que querem destruir tudo e começar de novo». Colonizações que já apresentam novos «valores» e «a história começa aqui», o resto «passou». Como ocorreu «com Antíoco Epifânio, acontece cada vez que na terra surge uma nova ditadura cultural ou ideológica, ou colonização». Mas «duas coisas defendem-nos sempre: a memória e o dialeto». E «quem leva em frente a memória e o dialeto? As mulheres, que são mais fortes que os homens». «Olhando para esta mulher, pensemos: como se transmite a fé? Em dialeto! A fé verdadeira aprende-se dos lábios da mãe, o dialeto que só a criança pode conhecer». Depois, «os teólogos a explicarão, mas a transmissão deriva dali». E «este é um exemplo do modo como as mães, as mulheres, são capazes de defender um povo, a história de um povo, os filhos: transmitir a fé».

«Se Eleazar — disse o Papa, referindo-se à figura bíblica, sempre ligada ao livro dos Macabeus, proposta de novo nos dias passados pela liturgia — se tornou raiz para os jovens, contra a raiz perversa que era Antíoco Epifânio, esta mulher fez-se memória: memória que desperta tudo o que foi semeado quando éramos crianças e que não se pode negociar, não se pode ceder às propostas de qualquer colonização cultural». De resto, reconheceu o Papa, «o povo de Deus foi em frente com a força de muitas mulheres corajosas, que souberam transmitir a fé aos filhos, e somente elas — as mães — sabem comunicar a fé em dialeto».

Concluindo, Francisco desejou na oração «que na Igreja o Senhor nos conceda sempre a graça de ter memória, de não esquecer o dialeto dos pais e de poder contar com mulheres corajosas».

 



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