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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

O homem sem a mulher não é à imagem de Deus

Sexta-feira, 15 de junho de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 27 de 05 de julho de 2018

Mulheres vítimas da «filosofia “usa e deita fora”», forçadas a «vender a dignidade por um lugar de trabalho», obrigadas a prostituir-se na estrada, propostas como «objeto do desejo» nos jornais, na tv e até nos supermercados para lançar um produto. O sistema de «espezinhar a mulher por ela ser mulher» e de não a considerar uma pessoa está sob o olhar de todos; e ensinaria muito uma «peregrinação noturna» pelas ruas da cidade onde às moças se pergunta unicamente: «quanto custas?». Com esta forte denúncia o Papa Francisco insistiu sobre o ensinamento de Jesus que mudou a história e restituiu à mulher plena dignidade, elevando todas as que eram «desprezadas, marginalizadas, descartadas».

Partindo do trecho evangélico de Mateus (5, 27-32) proposto pela liturgia, o Pontífice fez a sua reflexão: «O Senhor parece forte, até radical, quando diz: “todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” e depois “aquele que rejeitar a sua mulher, deixa-a sozinha, lança-a no mercado do adultério”».

Estas palavras, fez presente Francisco, foram «ditas no âmbito de uma cultura na qual a mulher era de “segunda classe” — usando um eufemismo — nem sequer de segunda, era escrava, não gozava da plena liberdade». As de Jesus «são palavras fortes, palavras que mudam a história». Deveras, insistiu o Papa, «a doutrina de Jesus sobre a mulher muda a história». E assim «uma coisa é a mulher antes de Jesus, outra é a mulher depois de Jesus». Em síntese, observou o Pontífice, «Jesus “dignifica” a mulher e coloca-a no mesmo nível do homem, pois toma em consideração aquela primeira palavra do Criador: ambos são “à imagem e semelhança de Deus”, ambos; não primeiro o homem e depois, um pouquinho mais abaixo, a mulher; não, ambos». A ponto que, insistiu Francisco, «o homem sozinho, sem a mulher ao lado — quer como mãe, esposa, colega de trabalho, amiga — não é à imagem de Deus».

E ainda, confidenciou o Papa, no trecho evangélico de Mateus há «uma palavra» que «comoveu o meu coração: quem quer que olhe para uma mulher para a “desejar”» já cometeu adultério com ela no próprio coração. «Esta palavra é muito atual» reconheceu o Pontífice. Porque «nos programas televisivos, nas revistas, nos jornais, as mulheres são mostradas como um objeto de desejo, de uso, como um produto de supermercado: isto pode-se comprar, isto pode-se usar».

Deste modo, acrescentou, as mulheres «são objeto e, talvez, para vender um género especial de tomate» é usada «uma mulher, ali, como objeto de desejo: humilhada, sem roupa, porque a mulher se tornou, hoje também, um objeto de uso». E «aquele ensinamento de Jesus, que “dignificou” a mulher e nos fez recordar que juntamente com o homem eram à imagem e semelhança de Deus, com o tempo decai outra vez».

Francisco não deixou de fazer presente que «há cidades, culturas, países onde as mulheres ainda são escravas, não podem fazer isto e aquilo». Mas recordou que não é preciso ir «muito longe: fiquemos por aqui, onde vivemos, vejamos a tv, e as mulheres ainda são objeto de uso; pior, são objeto daquela filosofia “usa e deita fora”. Parece que não somos pessoas».

«Repudiar a mulher é um pecado contra Deus criador — insistiu o Papa — pois sem ela nós, homens, não podemos ser à imagem e semelhança de Deus». Hoje, afirmou, «há uma perseguição contra a mulher, uma obstinação má, até latente». E acrescentou sem meios-termos: «Mas quantas vezes as moças, para obterem um posto de trabalho, se têm que vender como objeto descartável? Quantas vezes?». E isto acontece «aqui em Roma, não é necessário ir longe. Nos escritórios, nas empresas». Eis que, prosseguiu Francisco, «repudiar a mulher faz parte desta cultura do descarte e a mulher torna-se material de descarte: usa-se e deita-se fora».

E mais: «O que veríamos se fizéssemos uma “peregrinação noturna” por determinados lugares da cidade?» questionou-se o Pontífice. E respondeu: «Tantas mulheres, tantos migrantes, tantos não migrantes, explorados, como num mercado. Aproximam-se destas mulheres e homens não para dizer “boa noite”» mas para perguntar: «”quanto custas?”, esta é a pergunta». E «nós lavamos a nossa consciência diante disto» dizendo que «são prostitutas». Mas «fostes tu que a fizeste prostituta, como diz Jesus: todo aquele que a repudiar expõe-na ao adultério, pois tu não tratas bem a mulher» e «a mulher acaba assim, até explorada, e muitas vezes escrava».

Dirigindo-se aos presentes Francisco prosseguiu: «Estão aqui duas mulheres: mas, vós, mulheres que estais aqui, pensai, pensai nestas vossas irmãs, são mulheres como vós, repudiadas, como se fossem imundície, mas primeiro usadas». E portanto, frisou o Papa, aquela «“peregrinação noturna” nos ensinaria a olhar e depois a dizer: “eu sou livre, eu, mulher, sou livre e estas são escravas, escravas deste pensamento do descarte”». Mas, perguntou, «quantas de vós rezam pelas mulheres descartadas, pelas mulheres usadas, pelas jovens que têm que vender a própria dignidade para terem um posto de trabalho?».

«Tudo isto acontece aqui, em Roma, acontece em todas as cidades» repetiu Francisco, recordando «as mulheres anónimas, as mulheres que podemos classificar “sem olhar”, pois a vergonha encobre o olhar; as mulheres que não sabem rir e muitas delas não sabem, não conhecem a alegria de amamentar e de se ouvirem chamar “mãe”». Mas, fez presente, há «também na vida diária, sem ir àqueles lugares, este pensamento mau de repudiar a mulher» como se fosse «um objeto de “segunda classe”». E por isso, sugeriu, «deveríamos refletir melhor» porque «fazendo isto ou dizendo aquilo, entrando neste pensamento, desprezamos a imagem de Deus, que fez ambos, homem e mulher, à sua imagem e semelhança».

«Este trecho do Evangelho ajuda-nos a pensar no mercado das mulheres, no mercado, sim: o tráfico, a exploração, que se vê» afirmou o Pontífice. E convidou a pensar «também no mercado que não se vê, aquele que se faz mas que não se vê». Porque, reafirmou, «espezinha-se a mulher por ela ser mulher».

«Jesus teve uma mãe — concluiu o Papa — e teve muitas amigas que o seguiam para o ajudar no seu ministério, para o amparar». Além disso, «Jesus encontrou tantas mulheres desprezadas, marginalizadas, descartadas: e com quanta ternura, com quanto amor as elevou, lhes restituiu a dignidade». Com este espírito, acrescentou, «rezemos» por todas as mulheres desprezadas, marginalizadas, descartadas «e façamos também nós como Jesus: tratemos as mulheres como aquilo que falta a todos os homens para serem à imagem e semelhança de Deus».

 



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