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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Orações em Auschwitz

 Terça-feira, 19 de junho de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 28 de 12 de julho de 2018

Quantos cristãos, no século passado, levados para os gulags russos ou para os campos de concentração nazistas, rezaram por quem os queria matar? «Muitos fizeram isto». Trata-se de exemplos nobres que tocam a consciência de cada um, porque chegar a «amar» os próprios inimigos, quem deseja destruir-te, de facto é «deveras difícil de entender»: só «a palavra de Jesus» pode explicar isto.

Foi o tema sugerido pela liturgia do dia, com o Evangelho de Mateus (5, 43-48) sobre o qual o Papa Francisco refletiu nesta missa. Uma página que interpela, a ponto que o Pontífice revelou: «Quando, esta manhã, meditava sobre este texto, não encontrava o caminho para fazer a pregação, e pensei: “Mas Jesus tem ideias que não podemos entender nem receber”».

Então o Papa procurou entrar no raciocínio que, humanamente, seria espontâneo e imediato levar em frente: «É verdade, devemos perdoar os inimigos: entendemos isto, o perdão, porque o repetimos diariamente no Pai-Nosso; pedimos perdão como nós perdoamos; é uma condição... Perdoamos também para sermos perdoados». É uma condição «não fácil» mas mesmo se «com um pouco de dificuldade» é viável: «engolimos o sapo e vamos em frente».

Uma dificuldade, acrescentou Francisco, que julgamos poder enfrentar inclusive considerando o passo sucessivo: «Rezar pelos outros: por quantos nos causam dificuldades, que têm um modo de ser agressivo em família. E rezar por quantos nos põem à prova: também isto é difícil, mas fazemo-lo. Ou pelo menos, muitas vezes conseguimos fazê-lo». Mas é a fase seguinte que parece incompreensível: «Rezar por quantos desejam destruir-nos, os inimigos, para que Deus os abençoe: isto é deveras difícil de compreender».

Difícil, mas não impossível. E a este ponto o Pontífice evocou as páginas mais obscuras do século XX: «Pensemos no século passado, os pobres cristãos russos que só pelo facto de serem cristãos foram mandados para a Sibéria para morrer de frio: e eles deviam rezar pelo governante carrasco que os enviava para lá? Como é possível? E muitos o fizeram: rezaram». E ainda: «Pensemos em Auschwitz e nos demais campos de concentração: eles deviam rezar pelo ditador que queria a raça pura e matava sem escrúpulos, e rezar para que Deus os abençoasse, a todos eles! E muitos o fizeram». Eis a exortação que abala as consciências: «Rezar por aquele que está para te matar, que procura matar-te, destruir-te...».

Uma ajuda chega da própria Escritura, na qual, explicou o Papa, «há duas orações que nos fazem entrar nesta lógica difícil de Jesus: a prece de Jesus por quantos o matavam — “perdoa-lhes, Pai” — e até os justifica: “Não sabem o que fazem”. Perdão: pede perdão por eles». Depois, também Estêvão (At 7, 60) que «faz o mesmo no momento do martírio: “Perdoa-lhes”». Dois exemplos nobres diante dos quais Francisco comentou: «Quanta distância, uma distância infinita entre nós, que muitas vezes não perdoamos pequenas coisas», enquanto o Senhor «nos pede» aquilo «do que nos deu exemplo: perdoar quem procura destruir-nos».

O Pontífice prosseguiu neste confronto entre o pedido de Jesus e a fragilidade humana, mencionando concretamente alguns aspetos da vida diária: «Nas famílias é tão difícil, às vezes, perdoar-se». Por exemplo, acontece aos «cônjuges depois de alguma discussão», ou ao filho «pedir perdão ao pai»; e é difícil até «perdoar a sogra». Todos os dias experimentamos a dificuldade de perdoar até as pessoas que mais amamos. Imaginemos «perdoar quantos te estão a matar, que querem eliminar-te... Não só perdoar: mas rezar por eles, para que Deus os preserve! Ainda mais: amá-los». Parece difícil. O Papa comentou: «Só a palavra de Jesus pode explicar isto. Não consigo ir além».

Por isso Francisco sugeriu reler o trecho evangélico do dia no qual Jesus diz: «“Tendes ouvido o que foi dito: amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu”, que é universal, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons». Um trecho, observou, que culmina no convite: «Portanto, sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste». Acrescentando: «Peçamos ao Senhor que nos faça entender algo deste mistério cristão e para que nos dê a graça de sermos perfeitos, como o Pai que concede todos os bens aos bons e aos maus».

Depois, outro conselho: «Far-nos-á bem, hoje, pensar num inimigo — creio que todos nós temos algum — alguém que nos fez sofrer, que quer ou nos procura fazer algum mal». Depois, «rezemos por ele. Peçamos que o Senhor nos conceda a graça de o amar». Porque se «a oração “mafiosa” é: “vais pagar”», a prece cristã é «Senhor, concede-lhe a tua bênção e ensina-me a amá-lo».

 



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