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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Com mansidão e ternura

 Terça-feira, 18 de setembro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 40 de 4 de outubro de 2018

A capacidade de Jesus de estar «próximo do povo», de sentir «compaixão» dele com «ternura», de fundar a sua «autoridade» na «mansidão», é a mesma que cada pastor na Igreja deveria ter. O Papa voltou a refletir sobre o papel e a identidade do bispo graças a uma meditação sobre o Evangelho do dia (Lucas 7, 11-17) que lhe permitiu «contemplar» Jesus, o seu estilo, para o apresentar como modelo.

De facto, o Senhor, evidenciou imediatamente o Pontífice, «Tinha autoridade, era competente». Uma caraterística que emerge das narrações evangélicas nas quais se lê que «o povo o seguia porque falava “com autoridade”, mas não com a autoridade com a qual falam os doutores da lei: eles não tinham autoridade diante do povo. Jesus, ao contrário, sim». Eis então a pergunta que orientou toda a meditação: «O que conferia autoridade a Jesus?». O que o punha sob uma luz diversa aos olhos do povo, dado que, no fundo, «a doutrina que pregava era quase a mesma dos outros»?

A resposta encontra-se noutro trecho do Evangelho no qual o próprio Jesus diz: «Aprendei comigo que sou humilde e manso de coração». Segundo o Papa, esta é a chave para compreender: «naquela humildade de Jesus encerra-se a explicação da sua autoridade». Com efeito, qual era o estilo de Jesus? «Ele não gritava, não dizia “sou o messias” nem “sou o profeta”; não tocava a trombeta quando curava alguém ou pregava ao povo, quando realizava um milagre como a multiplicação dos pães. Não. Ele era humilde. Agia».

Esta humildade, acrescentou o Pontífice, «via-se num comportamento muito especial: Jesus estava próximo das pessoas». Distinguia-se nisto: «os doutores da lei afastavam-se do povo, ensinavam da cátedra: “Vós deveis fazer isto e aquilo...”. A eles as pessoas não interessavam. Ao contrário, a eles interessava impor às pessoas mandamentos que se multiplicavam, se multiplicavam até mais de 300... Mas não estavam próximos do povo». Jesus, contudo, «vivia no meio do povo, próximo das pessoas». E, lê-se no Evangelho, quando não estava no meio do povo «estava com o Pai, a orar».

Jesus obteve a «autoridade» que todos reconheciam deste comportamento, dedicando a maior parte do tempo da sua vida pública «nas ruas, com o povo»; foram a sua «proximidade», a sua «humildade». O Senhor, continuou o Papa, «tocava as pessoas, abraçava-as, fitava-as nos olhos, ouvia-as.

Estes traços emergem claramente no excerto evangélico proposto pela liturgia de hoje, no qual se narra o episódio da viúva de Nain. Francisco repercorreu-o: «Aparece uma palavra aqui, neste trecho, quando vê o féretro, a mãe viúva, sozinha, o jovem morto... “Vendo-a — a mãe — o Senhor foi tomado por grande compaixão”». A nota do evangelista é fundamental para compreender: «Jesus teve compaixão», «a capacidade de “sentir com”. Não era teórico, não. Pode-se dizer — exagerando um pouco, mas pode-se dizer — pensava com o coração, não separava a cabeça do coração, não, estava tudo unido». Humilde, próximo das pessoas, com compaixão: tudo isto «lhe conferia autoridade, autoridade de pastor».

Refletindo sobre este aspeto, o Pontífice quis evidenciar «duas caraterísticas desta compaixão»: a «mansidão» e a «ternura». De resto, o próprio Jesus diz: «Aprendei comigo que sou humilde e manso de coração». O Senhor, explicou Francisco, «era manso, não bradava. Não punia as pessoas. Era manso. Sempre com mansidão». Não significa que não se zangasse: pensemos, acrescentou Francisco, em quando viu o templo, a casa do seu Pai que se tinha tornado lugar de «shopping, para vender mercadorias», com quantos trocavam moedas e tudo o mais: «lá zangou-se, pegou o chicote e mandou todos embora. Mas porque amava o Pai, porque era humilde diante do Pai, teve aquela força. E as pessoas aplaudiram». Mas, fundamentalmente, Jesus caraterizava-se pela «mansidão: aquela humildade que não é agressiva, mas mansa».

Depois, há outra caraterística, a ternura. Emerge claramente da narração evangélica. Quando Jesus viu a viúva, aproximou-se dela e disse: «Não chores». O Papa tentou imaginar a cena supondo que o Senhor não tenha tido um simples comportamento de circunstância: «Não. Ele aproximou-se, talvez tenha-lhe tocado os ombros, ou feito uma carícia. “Não chores”. Este é Jesus». E ele, acrescentou, «faz o mesmo connosco, porque está próximo, está no meio do povo, é pastor».

Também a cena sucessiva é significativa: «Depois, aproximou-se e tocou o féretro. Os portadores pararam. Em seguida disse: “Jovem, digo a ti: levanta-te!”. O morto sentou-se e começou a falar. Realizou o milagre». Também aqui sobressai a proximidade: Jesus não diz simplesmente «Festejai, adeus». Não, acompanhou o jovem «restituindo-o à sua mãe”. Um gesto de ternura». A mesma ternura que se encontra no episódio de Jairo: depois de ter ressuscitado a jovem, Jesus preocupou-se «Dai-lhe de comer, tem fome». Sobressai claramente «a ternura de saber as coisas da vida».

Este era Jesus: «humilde e manso de coração, próximo do povo, com capacidade de sentir pena, com compaixão e com estas duas caraterísticas: mansidão e ternura». E sobretudo, frisou Francisco, o que Jesus «fez com aquele jovem, com a mãe viúva, faz também com todos nós, com cada um de nós quando se aproxima».

Assim, na vida diária de Jesus, está desenhado o verdadeiro «ícone do pastor». Disse o Pontífice: «Nós, pastores devemos aprender isto: próximos do povo, abaixo os grupinhos dos poderosos, dos ideólogos... Estes envenenam-nos a alma de pastor, não nos fazem bem! O pastor deve ter o poder e a autoridade que Jesus tinha, a da humildade, da mansidão, da proximidade, da capacidade de compaixão, da ternura». Atitudes que são válidas até nos momentos de dificuldade. De facto, questionou-se Francisco, «quando nem tudo corria bem com Jesus o que ele fazia? O mesmo. Quando as pessoas insultavam-no, naquela Sexta-Feira Santa, e gritavam “crucificai-o”, permanecia calado porque sentia compaixão daquelas pessoas enganadas pelos poderosos do dinheiro, da força... Permanecia calado. Rezava». Do mesmo modo, explicou o Papa, «o pastor, nos momentos difíceis, nos quais o diabo se desencadeia, quando o pastor é acusado, mas acusado pelo Grande acusador através de muitas pessoas, muitos poderosos, sofre, oferece a vida e reza». Com efeito, Jesus rezou: «A oração levou-o até à cruz, com fortaleza; e também lá teve a capacidade de se aproximar e curar a alma do ladrão arrependido».

Na conclusão da homilia, Francisco exortou a rezar pelos bispos depois de ter relido o trecho de Lucas: «Pregar o Evangelho e ler, e ver Jesus, onde está a autoridade de Jesus. E pedir a graça para que todos os pastores tenham esta autoridade: uma autoridade que é uma graça do Espírito Santo».

 


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