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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Escolhidos entre os piores

 Sexta-feira, 21 de setembro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 40 de 4 de outubro de 2018

Com a sua misericórdia Jesus escolhe os apóstolos também «entre os piores», entre os pecadores e os corruptos. Mas compete a eles conservar «a memória desta misericórdia», recordando «de onde foram escolhidos», sem se envaidecer ou pensar em fazer carreira como funcionários, organizadores de planos pastorais e negociantes. O Papa propôs o testemunho concreto da conversão de Mateus, celebrando a missa no dia da festa do apóstolo e evangelista.

«Na oração da coleta rezámos ao Senhor e lemos que no seu desígnio de misericórdia escolheu Mateus, o publicano, para o constituir apóstolo» recordou imediatamente o Pontífice, indicando como chave de leitura «três palavras: desígnio de misericórdia, escolhido — escolher, constituir».

Quando se foi embora — explicou Francisco referindo-se precisamente ao excerto evangélico de Mateus (9, 9-13) — Jesus viu um homem chamado Mateus sentado no banco dos impostos, e disse-lhe: “Segue-me”. E ele levantou-se e seguiu-o. Era um publicano, ou seja, um corrupto, porque pelo dinheiro atraiçoava a pátria. Um traidor do seu povo: o pior».

Na realidade, frisou o Papa, alguém poderia objetar que «Jesus não tem bom senso ao escolher as pessoas»: «por que escolheu entre tantos outros» esta pessoa «de entre os piores, precisamente do nada, do lugar mais desprezado»? De resto, explicou o Pontífice, do mesmo modo o Senhor «escolheu a samaritana para ir anunciar que ele era o Messias: uma mulher descartada pelo povo pois não era exatamente uma santa; e escolheu muitos outros pecadores e constituiu-os apóstolos». E depois, acrescentou, «na vida da Igreja, muitos cristãos, há tantos santos que foram escolhidos do submundo».

Francisco recordou que «esta consciência que nós cristãos deveríamos ter — de onde fui escolhido, de onde fui escolhida para ser cristão — deve permanecer por toda a vida, permanecer ali e ter a memória dos nossos pecados, a memória que o Senhor teve misericórdia dos meus pecados e me escolheu para ser cristão, para ser apóstolo».

Por conseguinte, «o Senhor escolhe». A oração da coleta é clara: «Senhor, que escolheste o publicano Mateus e o constituíste apóstolo»: ou seja, insistiu, «do pior para o lugar mais alto». Em resposta a esta chamada, observou o Papa, «o que fez Mateus?» Vestiu-se de luxo? Começou a dizer “sou porventura o príncipe dos apóstolos, convosco”, com os apóstolos? Aqui mando eu? Não! Trabalhou a vida inteira pelo Evangelho, com muita paciência escreveu o Evangelho em aramaico». Mateus, explicou o Pontífice, «teve sempre presente de onde tinha sido escolhido: do submundo».

Acontece que, insistiu o Papa, «quando o apóstolo esquece as suas origens e começa a fazer carreira, afasta-se do Senhor e torna-se um funcionário; que pratica tanto bem, talvez, mas não é apóstolo». E deste modo «será incapaz de transmitir Jesus; será um organizador de planos pastorais, de muitas coisas; mas no final, um homem de negócios, um empresário do reino de Deus, porque se esqueceu de onde foi escolhido».

Por isso, afirmou Francisco, é importante manter «a memória, sempre, das nossas origens, do lugar no qual o Senhor olhou para mim; aquele fascínio do olhar do Senhor que me chamou para ser cristão, apóstolo. Esta memória deve acompanhar a vida do apóstolo e de cada cristão».

«Com efeito, nós estamos habituados a reparar sempre nos pecados dos outros: olha este, aquele, aqueloutro», prosseguiu o Papa. Ao contrário, «Jesus disse-nos: “por favor, não olhes para o cisco que está no olho do teu irmão; repara no que tens tu no coração”». Mas, insistiu o Pontífice, «é mais divertido falar mal dos outros: é uma coisa lindíssima, parece. A ponto que «falar mal dos outros» quase se parece «com os rebuçados de mel, que são deliciosos: tu comes um, é bom; comes dois, é bom; três... pegas em meio quilo e faz-te mal ao estômago e sentes-te mal».

Ao contrário, sugeriu Francisco, «fala mal de ti mesmo, acusa-te a ti mesmo, recordando os teus pecados, de onde o Senhor te escolheu. Foste escolhido, escolhida. Ele pegou-te pela mão e trouxe-te aqui. Quando o Senhor te escolheu não deixou as coisas pela metade: escolhe-te para algo grande, sempre».

«Ser cristão — afirmou — é algo grande, bonito. Somos nós que nos afastamos e queremos parar no meio do caminho, porque é muito difícil; negociando com o Senhor», dizendo «Senhor, não, só até aqui». Mas «o Senhor é paciente, Ele sabe tolerar tudo: é paciente, espera-nos. Mas a nós falta generosidade: a ele não. Ele sempre te leva do mais baixo para o mais alto. Assim fez com Mateus e também com todos nós e continuará a fazer o mesmo».

Referindo-se ao apóstolo, o Pontífice explicou que ele «sentiu algo de forte, tão vigoroso, a ponto de deixar sobre a mesa o amor da sua vida: o dinheiro». Mateus «deixou a corrupção do seu coração para seguir Jesus. O olhar de Jesus, forte: “Segue-me!”. E ele deixou tudo», não obstante fosse «muito apegado» ao dinheiro. «E certamente — não existia telefone naquele tempo — terá enviado alguém para dizer aos seus amigos, àqueles do “grupinho”, dos publicanos: “vinde almoçar comigo, porque farei festa para o mestre”».

Portanto, como narra o trecho do Evangelho, «todos estavam à mesa: o pior da sociedade da época. E Jesus com eles. Jesus não foi almoçar com os justos, com os que se sentiam justos, com os doutores da lei, naquele momento. Uma vez, duas vezes foi ter também com estes últimos, mas naquele momento foi ter com eles, com aquele sindicato de publicanos».

E eis que, prosseguiu Francisco, «os doutores da lei se escandalizaram. Chamaram os discípulos e disseram: “como é que o teu mestre faz isto, com estas pessoas? Torna-se impuro!”: comer com um impuro contagia-te, já não és puro». Ao ouvir isto, é o próprio Jesus quem pronuncia «esta terceira palavra: “Ide aprender o que significa: “quero misericórdia e não sacrifícios”». Porque «a misericórdia de Deus abrange todos, perdoa todos. Só pede que digas: “sim, ajuda-me”. Somente isto».

«Quando os apóstolos iam ter com os pecadores, pensemos em Paulo, na comunidade de Corinto, alguns se escandalizavam» explicou o Papa. Questionavam-se: «mas por que ele vai ter com aqueles pagãos, são pecadores, porque há de ir?». A resposta de Jesus é clara: «porque não são os sadios que precisam do médico, mas os doentes: “Quero misericórdia e não sacrifícios”».

«Mateus escolhido! Escolhe sempre Jesus» repetiu o Pontífice. O Senhor escolhe «através de pessoas, de situações ou diretamente». Mateus foi «constituído apóstolo: quem constitui na Igreja e atribui a missão é Jesus. O apóstolo Mateus e muitos outros recordavam as suas origens: pecadores, corruptos. E isto porquê? Pela misericórdia. Pelo desígnio de misericórdia».

Francisco reconheceu que «entender a misericórdia do Senhor é um mistério; mas o maior mistério, o mais bonito, é o coração de Deus. Se quiseres chegar precisamente ao coração de Deus, empreende o caminho da misericórdia e deixa-te tratar com misericórdia». É exatamente a história de «Mateus, escolhido do banco dos que trocavam moedas onde se pagavam os impostos. Escolhido do submundo. Constituído no ponto mais elevado. Porquê? Por misericórdia». Nesta perspetiva, concluiu o Papa, «aprendamos o que significa “quero misericórdia e não sacrifícios”».

 



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