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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

A fé não é um hábito

 Sexta-feira, 5 de outubro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 41 de 11 de outubro de 2018

Não se pode ser cristão «pela metade», deixando Jesus entre as paredes da Igreja e evitando testemunhar a própria fé «na família, na educação dos filhos, na escola, no bairro». Contra esta «hipocrisia dos justos» o Papa Francisco advertiu na missa.

A meditação do Pontífice inspirou-se no trecho evangélico de Lucas (10, 13-16) proposto pela liturgia, no qual Jesus «repreende três cidades — Betsaida, Corazin, Cafarnaum — porque não ouviram a sua palavra. Só escutaram, mas aquela palavra não entrou no seu coração, pois não acreditaram nos sinais, nos milagres que fez». A admoestação do Senhor é explícita: «Mas se em cidades pagãs como Tiro e Sidom, eu tivesse feito estes milagres, certamente teriam acreditado. Mas vós não».

Francisco observou que Jesus «parece estar zangado». E recordou que imediatamente a seguir, no mesmo evangelho, ele «fala da conversão, com a pregação do profeta Jonas: “E vós, não vos converteis?”». Trata-se, frisou, de «uma repreensão severa de Jesus a estas cidades, a estes povos que, tendo-o ali, vendo os seus prodígios, continuam na lógica do “Sim, mas... Nunca se sabe”, e não dão o passo de o reconhecer como Messias».

Por detrás «desta repreensão — constatou o Papa — há um pranto», porque Jesus «está entristecido por ser rejeitado, por não ser recebido». O Senhor «gosta deste povo, mas sente-se consternado». Portanto «por detrás da reprovação está o pranto de Jesus», reafirmou Francisco, recordando quando o Senhor «da montanha viu Jerusalém distante, e chorou». Com efeito, «Jesus queria chegar a todos os corações, com uma mensagem que não era ditatorial, mas de amor. E Jesus chorou, porque esta gente não foi capaz de amar».

A este ponto o Pontífice, atualizando a sua reflexão, propôs que no lugar das «personagens deste acontecimento: em vez de Corazin, Betsaida e Cafarnaum — estas três cidades — nos ponhamos nós, eu que recebi tanto do Senhor. Cada um de nós». Por isso convidou a fazer um exame de consciência: «Cada um pense na própria vida. O que recebi do Senhor. Nasci numa sociedade cristã, conheci Jesus Cristo, conheci a salvação, fui educado, educada na fé. E com quanta facilidade me esqueço, e deixo passar Jesus». Uma atitude que contrasta com aquela de «outras pessoas que ouvem o anúncio de Jesus, imediatamente se convertem e o seguem». Ao contrário, reconheceu o Papa, «nós estamos “habituados”». E «este hábito faz-nos mal, porque reduzimos o Evangelho a um facto social, sociológico, e não a uma relação pessoal com Jesus».

Na realidade, prosseguiu Francisco, «Jesus fala a mim, a ti, a cada um de nós. O apelo de Jesus é para cada um de nós». E então surge a vontade de se questionar: «Porque vão ter com Jesus aqueles pagãos logo que ouvem a sua pregação e eu, que nasci aqui, numa sociedade cristã, para mim o cristianismo é como se fosse um hábito social, uma roupa que visto e depois abandono?». É por isso que «Jesus chora por cada um de nós quando vivemos o cristianismo formal e não realmente».

Deste modo, insistiu o Papa, «somos um pouco hipócritas». É «a hipocrisia dos justos». Com efeito, há «a hipocrisia dos pecadores, mas a hipocrisia dos justos é o receio do amor de Jesus, o medo de se deixar amar». Em síntese, observou o Pontífice, «quando fazemos isto, procuramos gerir nós a relação com Jesus». É como se lhe disséssemos: «Sim. Vou à missa mas tu fica na Igreja que eu depois volto para casa». Por conseguinte, frisou, «Jesus não volta para casa connosco: para a família, a educação dos filhos, a escola, o bairro... Não, Jesus fica lá. Ou permanece no crucifixo ou na pequena imagem, mas aqui».

Ao concluir, o Papa renovou aos fiéis a proposta de «um dia de exame de consciência», recomendando-lhes como “refrão” espiritual as palavras dirigidas pelo Senhor às cidades que não seguiam os seus ensinamentos: «“Ai de ti”, porque te concedi tanto, dei-me a mim mesmo, escolhi-te para seres cristão, cristã, e tu preferes uma vida pela metade, uma vida superficial: um pouco de cristianismo e água benta mas nada mais». Na realidade, explicou, «quando se vive esta hipocrisia cristã, o que nós fazemos é afastar Jesus do nosso coração. Fazemos de conta que o temos connosco, mas afastamo-lo. Somos cristãos, orgulhosos de ser cristãos, mas vivemos como pagãos».

«Cada um de nós pense: “Sou Corazin? Sou Betsaida? Sou Cafarnaum?”» foi a exortação de Francisco. Convidando a que, «se Jesus chora», a «pedir a graça de chorarmos também nós: “Mas, Senhor, tu deste-me tanto. O meu coração está tão duro que não te deixa entrar. Senhor, pequei de ingratidão, sou um ingrato, uma ingrata”». Seja «esta a oração de hoje. E abramos o coração, e peçamos ao Espírito Santo que nos escancare as portas do coração, para que Jesus possa entrar, a fim de que não só ouçamos Jesus, mas ouçamos e recebamos a sua mensagem de salvação e demos graças por tantas coisas boas que fez por cada um de nós».

 



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