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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Quando o diabo se finge educado

  Segunda-feira,12 de outubro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 43 de 25 de outubro de 2018

Durante a missa, o Papa advertiu contra a estratégia do diabo que se finge «educado» e até toca a campainha apresentando-se como amigo, a ponto que o tens em casa sem te aperceberes do mal. Oração, exame de consciência, além de «vigilância e calma», como ensinava Isaías, são as respostas justas para desmascarar as astúcias do diabo e não acabar «no caminho da mediocridade e da mundanidade».

«O demónio, quando se apodera do coração de uma pessoa, fica nele, como se fosse casa própria e não quer sair dela» afirmou o Pontífice. «Por isso, muitas vezes quando Jesus expulsa os demónios, eles procuram arruinar a pessoa, agredir, até fisicamente». E sugeriu que pensemos «naquele menino, que o pai apresenta a Jesus a fim de que o cure, ou seja, que o demónio seja expulso. E quando sai, o demónio deixa-o como se estivesse morto no chão. Quando está dentro de nós não quer sair. Não quer sair».

«Jesus muitas vezes, nos Evangelhos, expulsou os demónios, que eram os verdadeiros inimigos dele e nossos», fez presente Francisco. «A luta entre o bem e o mal por vezes parece demasiado abstrata: a verdadeira luta é a primeira entre Deus e a serpente antiga, entre Jesus e o diabo». E «trava-se esta luta dentro de nós: todos estamos em luta, talvez sem o sabermos, mas estamos em luta». Sim, repetiu, «estamos em luta».

Referindo-se ao trecho evangélico proposto hoje pela liturgia (Lc 11, 15-26), o Papa observou precisamente que «Jesus expulsa este demónio» mas «há sempre as más línguas que começam a dizer “mas este é um curandeiro, também ele estabeleceu um pacto secreto com o demónio; esta é uma farsa: ele expulsa-os com a autorização do chefe deles, ou seja, Belzebu”».

Precisamente «assim começa este excerto do Evangelho — recordou o Papa — com um debate entre Jesus e esta gente». Mas «deixemos de lado este debate — prosseguiu o Pontífice — e vamos ao final do trecho evangélico. O que acontece? Por fim, o demónio é expulso e vai-se embora. E aquele homem, aquela mulher, aquele jovem, aquela moça, torna-se livre, libertado, curado, mas curado precisamente na ferida mais profunda da alma».

E a este ponto «como se comporta o demónio? Alguns fazem massacres; pensemos nos que se chamavam “legião”, porque eram tantos, e quando Jesus os expulsa pedem-lhe para entrar nos porcos e ali fazem um massacre de porcos, pois a tarefa do demónio é destruir. Esta é a sua vocação: destruir a obra de Deus».

Na realidade, insistiu Francisco, «ninguém pode dizer “não, eu conheço um diabo que não se comporta assim”» porque «a essência do demónio é destruir». Contudo, «nós somos como as crianças, muitas vezes chupamos o dedo e acreditamos “não, não é assim, são invenções dos padres, não, não é verdade”».

«No Evangelho o diabo destrói — explicou o Pontífice — e quando não pode destruir diretamente, porque de frente há uma força de Deus que defende a pessoa, o demónio é mais astuto que uma raposa, é astuto, e procura a maneira de se apoderar daquela casa, daquela alma, daquela pessoa». O trecho evangélico de Lucas repropõe-nos as palavras de Jesus: «Quando o espírito impuro sai daquele homem, vagueia por lugares desertos procurando alívio — ou seja, não sabe o que fazer, não sabe o que destruir — e, não o encontrando, diz: “Voltarei para a minha casa — de onde fora expulso por Jesus — da qual saí”».

O diabo, observou o Papa, «até quando fala se apresenta educadamente», a ponto que diz «eu saí». Não, «foste expulso». O trecho evangélico prossegue fazendo presente que o diabo, quando regressou à casa da qual tinha sido expulso, «a encontra limpa e adornada — oh, ele gosta! — e então vai, toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, entram nela e habitam-na e a condição daquele homem torna-se pior do que antes».

Sim, insistiu Francisco, aquele homem «antes era, por assim dizer, um endemoninhado, pois o demónio estava dentro dele e não o deixava; agora continua a ser um endemoninhado, mas sem saber».

«Quando o diabo não consegue impor-se pela força — afirmou o Pontífice — não pode destruir uma pessoa através dos vícios evidentes, não pode destruir um povo com as guerras, as perseguições, pensa noutra estratégia e, queridos irmãos e irmãs, é a estratégia que usa com todos nós». Com efeito, «nós somos cristãos, católicos, vamos à missa, rezamos: tudo parece estar em ordem, sim, temos os nossos defeitos, os nossos pecados, mas tudo parece estar em ordem».

Assim o diabo «finge-se “educado”: vai, observa, procura um bando, bate à porta — “por favor? posso entrar?” — toca a campainha e estes demónios educados são piores que os primeiros, pois tu não te dás conta que os tens em casa». E «este é o espírito mundano, o espírito do mundo».

«O demónio ou destrói diretamente com os vícios, com as guerras, com as injustiças — explicou ainda o Papa — ou destrói educada e diplomaticamente, desta maneira traçada por Jesus». Em suma, acrescentou, «não fazem barulho, fingem-se amigos, persuadem-te — “não, vai, não é muito, não, mas até aqui está bem” — e levam-te pelo caminho das mediocridades, fazem de ti um “tíbio” pelo caminho da mundanidade». Não é fácil aperceber-se: «“Padre, eu em casa não tenho um inimigo” — “Mas repara, quando vais dormir, entre os lençóis há um escorpião” — “Mas é um escorpião amigo, não faz mal”». E fazendo assim «caímos nesta mediocridade espiritual, neste espírito do mundo: “Mas não são tão más estas coisas”». E «o espírito do mundo arruína-nos, corrompe-nos a partir de dentro».

«Eu vos digo: tenho mais medo destes demónios que dos primeiros» afirmou Francisco. E assim «quando me dizem “precisamos de um exorcista porque uma pessoa está possuída pelo diabo” não me preocupo tanto como quando vejo esta gente que abriu a porta aos demónios educados, àqueles que, de dentro, persuadem que não são inimigos: “Somos amigos”». Porque, como diz o Evangelho de hoje, «a última condição daquele homem torna-se pior do que a primeira».

E insistiu: «Muitas vezes eu pergunto-me o que é pior na vida de uma pessoa: um pecado claro ou viver no espírito do mundo, na mundanidade? Que o demónio te leve para um pecado — não só um, mas vinte, trinta pecados, mas claros, que tu te envergonhes — ou que o demónio esteja à mesa contigo e viva, habite contigo e tudo é normal, mas ali, fornece-te as insinuações e possui-te com o espírito da mundanidade?».

«Vem-me à mente — confidenciou o Papa — a prece de Jesus na última Ceia: “Pai, rogo-te por eles, defende-os do espírito do mundo”». E «o espírito da mundanidade é isto: aqueles que têm em si os demónios educados».

«Rezemos, sem medo» foi o convite do Pontífice que quis recordar a admoestação de Isaías a Acaz. «Quando certa vez, o povo de Israel, viu avançar contra si um exército enorme, capaz de destruir tudo, assustou-se e o profeta, em nome de Deus disse: “Vigilância e calma”». E assim, afirmou Francisco, «diante destes demónios educados que querem entrar pela porta de casa como convidados para as núpcias, digamos “vigilância e calma”».

Portanto, «vigilância é a mensagem de Jesus, a vigilância cristã». E, ao concluir, o Papa sugeriu também algumas perguntas para um exame de consciência sobre este ponto: «O que acontece no meu coração? Por que sou tão medíocre? Por que sou tão tíbio? Quantos “educados” temos em casa que não pagam a renda?».

 



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