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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Quem não aceita o convite para a festa

  Terça-feira, 6 de novembro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 46 de 13 de novembro de 2018

«Estou com dor de cabeça, hoje não posso, tenho muito que fazer» é o modo, aparentemente educado, com o qual rejeitamos Jesus que, para nós, pagou com a sua vida a festa eterna no reino dos Céus. Foi com expressões incisivas que o Papa Francisco exortou quem diz “não” a superar a dureza de coração e a não encontrar desculpas para fechar a porta na cara a Jesus.

«O excerto do Evangelho que acabámos de ouvir é do capítulo 14 de Lucas», explicou o Papa, observando que «quase todo o capítulo, exceto um trecho no final, se refere a um almoço, à mesa, e tudo o que acontece lá, acontece à mesa». Por isso, acrescentou, «a ideia do banquete no fim do capítulo», na parábola narrada por Jesus em particular nos versículos 15-24 propostos hoje pela liturgia.

Referindo-se ao início do capítulo 14, o Pontífice observou que «Jesus foi almoçar na casa de um chefe dos fariseus que o convidou: Jesus aceitava sempre». Mas «quando entrou, viu um doente de hidropisia e curou-o imediatamente: Jesus quer curar-nos sempre, a todos nós». Contudo, recordou o Papa, «era sábado, estavam presentes todos os doutores da lei e ele pediu a permissão: “Pode-se curar ao sábado?”». E «eles que nunca diziam o que pensavam — eram hipócritas — calaram-se».

Jesus curou aquele doente, prosseguiu Francisco, «e depois, no momento de começar o almoço, viu como as pessoas, os convidados, procuravam ocupar os primeiros lugares para se mostrarem, a fim de se sentirem mais importantes». Na realidade, afirmou o Pontífice, «também na igreja acontece isto muitas vezes: soube até que em certos lugares existe o costume de “alugar” os primeiros bancos para as pessoas importantes e para as suas famílias. Não sei se é verdade, assim me disseram. Se é verdade, é vergonhoso».

Retomando a meditação sobre o Evangelho de Lucas, o Papa observou que «Jesus aproveita a oportunidade para dizer àquelas pessoas “não façais assim pois sereis ridículos: se chegar alguém mais importante, mandar-vos-ão para trás”». E precisamente ao fariseu dono da casa, quem o tinha convidado, Jesus recomenda que convidem pessoas que não procuram mostrar-se, que não buscam vantagens, caso contrário parece que se procura apenas retribuição. Aliás, este trecho, recordou Francisco, «foi lido ontem: “convida pobres, coxos, cegos”».

«Neste ponto começa o excerto de hoje que é o da rejeição dupla» disse o Pontífice. De facto «um dos convidados, que ouviu Jesus pronunciar o ensinamento de não ocupar os primeiros lugares, diz: “Feliz daquele que tiver alimento no reino de Deus!”. Sim, feliz será quem chegar àquele banquete que é o reino de Deus».

Então eis que «o reino de Deus é imaginado como um banquete, uma grande festa», explicou o Papa. Àquelas palavras Jesus «respondeu com a parábola do homem que ofereceu uma grande ceia, convidando muitas pessoas. Então envia os seus servos a dizer aos convidados: “Vinde, está pronto! Vinde imediatamente! Tudo está pronto”. Mas todos começam a desculpar-se, recusam-se a participar: “Não, sabes, comprei um campo, tenho que ir lá; comprei cinco parelhas de bois, tenho que cuidar deles; casei-me, tenho que fazer a festa em casa”».

Resumindo, acrescentou Francisco, «sempre desculpas: desculpam-se». Mas «desculpar-se é a palavra educada para não dizer “recuso-me”». Portanto, «não aceitamos, mas educadamente, e o patrão — dado que a festa já estava pronta — diz: “Vai à encruzilhada das estradas e traz todos os pobres, doentes, coxos, cegos, todos”». E dado que «ainda havia lugar, manda os seus servos: “Fazei com que venham, obrigai-os a entrar, convencei-os a entrar!”». E «deste modo celebrou a festa».

«O trecho do Evangelho termina com a segunda recusa — explicou o Papa — mas esta proferida por Jesus: “Porque vos digo: nenhum daqueles convidados participará da minha ceia”». Sim, insistiu Francisco: «Jesus espera» quem o rejeita, «oferece uma segunda oportunidade, talvez uma terceira, uma quarta, uma quinta, mas no final Ele rejeita».

E «esta recusa — acrescentou — deve fazer com que pensemos nas vezes que Jesus nos chama a festejar com Ele, a estarmos próximos d'Ele, a mudar de vida: pensai que procura os seus amigos mais íntimos e eles recusam!». Assim «em seguida procura os doentes e» eles «vão: talvez algum não aceite». Mas «quantas vezes ouvimos a chamada de Jesus para ir ter com Ele, para fazer uma obra de caridade, para rezar, para nos encontrarmos com Ele e dizemos “desculpa Senhor, mas estou atarefado, não tenho tempo, amanhã sim, hoje não posso”. E Jesus permanece ali. “Desculpa Senhor, agora não posso”».

«Usamos muitas vezes a palavra “desculpa” com Jesus — reconheceu o Pontífice — quando sentimos no coração que o Senhor nos chama para se encontrar connosco, para falar, a fim de estabelecer uma bonita conversação com Ele: “não, não tenho tempo”». E acrescentou, «talvez tenhas tempo para ir ter com um amigo, com uma amiga para conversar e falar mal dos outros: para isto tens tempo, mas para ir ter com Jesus, não».

«Também a nós acontece recusar o convite de Jesus», disse Francisco.

Sugerindo um verdadeiro exame de consciência, «cada um de nós pense: na minha vida quantas vezes ouvi a inspiração do Espírito Santo para fazer uma obra de caridade, encontrar Jesus naquela obra de caridade, ir rezar, mudar o que não está bem na minha vida? E encontrei sempre um motivo para me desculpar, para não aceitar».

«Feliz quem obtiver alimento no reino de Deus» diz o convidado de Jesus, como narra Lucas. «Mas entra no reino de Deus — afirmou o Papa — só aquele que nunca recusou Jesus ou habitualmente não o rejeita; quem não for rejeitado por Jesus». Certamente, prosseguiu, «Jesus é bom, no final perdoa tudo: sim, é bom, é misericordioso mas também justo». E «se tu fechares a porta do teu coração por dentro, Ele não a pode abrir porque é muito respeitador do nosso coração: recusar Jesus é fechar a porta por dentro e não permitir que entre». Mas «nenhum de nós, no momento que recusa Jesus, pensa nisto: “Fecho a porta a Jesus por dentro”». Aliás «pensamos sempre: “Mas não, acontece, hoje não posso, estou com dor de cabeça”. Muitas coisas, não é? Mas ao contrário a verdade é esta: não aceito Jesus. E a desculpa é a dor de cabeça, estou atarefado».

Na conclusão, o Pontífice retomou a imagem evangélica do «banquete», sugerindo esta reflexão: «Quem paga a festa? Jesus!». E já «na primeira leitura — explicou o Papa referindo-se ao trecho da carta aos filipenses (2, 5-11) — Paulo mostra-nos a conta desta festa: “Jesus humilhou-se a si mesmo assumindo uma condição de servo, tornando-se semelhante aos homens. Do aspeto reconhecido como homem humilhou-se a si mesmo fazendo-se obediente até à morte e morte de cruz”».

Portanto «Jesus pagou a festa precisamente com a sua vida» e no entanto «digo “não posso”». Sim, digo “não posso” a isto, ao Senhor que pagou esta festa para mim». Nesta perspetiva, Francisco formulou votos de que «o Senhor nos conceda a graça de compreender este mistério da dureza de coração, obstinação, recusa e a graça de chorar: “Pagaste esta festa e eu não quero participar nela?”».

 



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