Index   Back Top Print

[ PT ]

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

O homem do silêncio

Terça-feira, 18 de dezembro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 03 de 15 de janeiro de 2019

Aos pés do altar da capela da Casa Santa Marta, colocadas ao lado das velas do Advento, estão quatro grandes bolas de Natal decoradas: foram oferecidas ao Papa pelas crianças pobres e deficientes da Eslováquia. «Nota-se que não são luxuosas», disse Francisco no início da missa, acrescentando: «Foram feitas por elas, com as próprias mãos. Pensei que o Senhor Jesus gostaria de as ter aqui». Um sinal útil, acrescentou, também para recordar o «esforço educativo» de quantos se dedicam «às crianças com deficiência ou limites».

O Pontífice convidou a rezar por elas, inspirado também pela liturgia do dia que convidava a meditar precisamente sobre a figura de um grande educador, um educador «no silêncio»: São José.

No Evangelho de Mateus (1, 18-24) José «é apresentado tal como é, com a sua personalidade», e o Papa quis refletir sobre duas «caraterísticas»: de facto, ele é «o homem que sabe acompanhar em silêncio» e «o homem dos sonhos».

Antes de tudo, frisou o Pontífice citando a Escritura, José «era um homem “justo”, um observante da lei, um trabalhador, humilde, apaixonado por Maria». Com efeito, «um homem normal» que se encontra de modo imprevisto a ter que enfrentar «algo que não compreende». No momento em que ele, por amor de Maria, decide «retirar-se, escondido», eis que «Deus lhe revela a sua missão: “A tua missão será esta: amparar, acompanhar, fazer crescer”. E ele responde sim, em silêncio».

Eis a primeira caraterística fundamental deste homem. Francisco recordou até que no evangelho «José não pronunciou nem sequer uma palavra». Nem são mencionadas as suas palavras de assentimento: «Sim, farei». Mateus escreve diretamente: «“Quando despertou do sono, José fez como lhe tinha ordenado o anjo”. Sem falar».

E assim José abraçou «no silêncio», o papel de pai que ajuda a crescer: «Procurou um lugar para que o filho nascesse; cuidou dele; ajudou-o a crescer; ensinou-lhe o trabalho: muitas coisas... em silêncio». E o «deixar crescer», explicou o Papa, «seria a palavra que nos ajudaria muito, a nós que por natureza sempre queremos meter o bedelho em tudo, principalmente na vida alheia. “Por que faz isto? Por que o outro...?”. E começam os mexericos, a comentar». Ao contrário, José «deixa crescer, ampara, ajuda, mas em silêncio».

Um verbo sintetiza esta atitude: “acompanhar”. A tal propósito o Pontífice referiu-se a muitas situações que se verificam na vida diária: «Muitas vezes os pais veem os próprios filhos que não se comportam bem, e algumas vezes falam com eles, mas outras vezes sentem que não devem dizer nada, e olhar para o outro lado. Esta é a sabedoria dos bons pais, que sabem educar. Se veem o filho que passa por um momento difícil, que empreende um caminho errado, esperam o momento de falar. Não repreendem imediatamente; não, esperam, e procuram a oportunidade para dizer a palavra que faça crescer».

É um estilo que recorda o de Deus, a sua «paciência» em relação ao homem — «Mas de que modo o nosso Deus nos tolera?» questionou-se Francisco — e foi uma sugestão para todos os pais: «Deixa, deixa que os processos vão por si, e fala menos».

Do Evangelho do dia emerge a segunda caraterística de José, «o homem dos sonhos». O Papa aprofundou este aspeto explicando a sua importância: «Nos sonhos somos um pouco mais livres, libertamo-nos... E nos sonhos sobressaem muitas coisas do nosso inconsciente, revelam-se aspetos que não compreendemos bem da nossa vida ou recordações. O sonho é um lugar privilegiado para procurar a verdade, porque lá não nos defendemos da verdade». Pode acontecer, acrescentou, que Deus fale nos sonhos: «Nem sempre, porque habitualmente é o nosso inconsciente que fala, mas Deus muitas vezes escolheu falar nos sonhos». Na Bíblia isto é narrado muitas vezes.

Portanto, José era «o homem dos sonhos mas não um sonhador. Não era um imaginativo». A diferença é substancial: «Um sonhador é outra coisa: é quem acredita... vai... está no ar, e não tem os pés no chão». Ao contrário, José «tinha os pés no chão. Mas estava aberto e deixou que a palavra de Deus se revelasse, em sonho, na sua liberdade, no seu coração aberto. Compreendeu, e levou em frente aquele sonho. Sem fantasia: o sonho “real”, porque ele não era sonhador: era um homem concreto».

O que pode ensinar ao homem esta caraterística? «Nós — disse o Pontífice — podemos pensar se temos a capacidade de sonhar ou se a perdemos. Pensemos num casal de namorados: sonham o futuro juntos, os muitos filhos que terão, muitas coisas... É bonito. E vão em frente, casam-se... Depois aparecem as dificuldades, e desanimam um pouco, alguns amarguram-se, tornam-se amargos, discutem entre eles e aquele amor pode fracassar, porque olham só para as dificuldades e não se recordam dos sonhos que tiveram».

Não se deve, acrescentou, «perder a capacidade de sonhar o futuro». Isto é válido para todos: «sonhar sobre a nossa família, os nossos filhos, os nossos pais. Imaginar como eu gostaria que a vida deles se realizasse». E vale também para os sacerdotes: «sonhar com os nossos fiéis, o que gostaríamos para eles». Cada um deve «sonhar como sonham os jovens, que são “descarados” no sonhar, e nisto encontram um caminho. Não percamos a capacidade de sonhar, porque significa abrir as portas para o futuro. Sermos fecundos no futuro».

Precisamente São José, concluiu o Papa, pode ser uma referência para cada cristão: «Levemos connosco hoje esta figura de São José: o homem que acompanha no silêncio e o homem que sabe sonhar de modo correto». A ele «peçamos a graça de saber sonhar, buscando sempre a vontade de Deus nos sonhos, e também a graça de acompanhar em silêncio, sem mexericos».

 

 



© Copyright - Libreria Editrice Vaticana