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CARTA DO PAPA FRANCISCO
AOS BISPOS DA NIGÉRIA

[Multimídia]


 

Amados Irmãos no Episcopado

Enquanto juntamente com toda a Igreja percorremos o caminho quaresmal rumo à Ressurreição do Senhor, desejo transmitir-vos, estimados Arcebispos e Bispos, uma saudação fraternal, que faço extensiva às comunidades cristãs confiadas aos vossos cuidados pastorais. Desejo partilhar convosco também algumas reflexões a propósito da situação que hoje o vosso país está a viver.

A Nigéria, conhecida como o «gigante da África», com mais de 160 milhões de habitantes, está destinada a desempenhar um papel de primeiro plano não apenas naquele Continente, mas também no mundo inteiro. Ao longo destes últimos anos, ela experimentou um vigoroso crescimento no plano da economia e chegou a propor-se no cenário internacional como um mercado de grande interesse, quer pelos seus recursos naturais, quer pelas suas potencialidades comerciais. Hoje já é considerada oficialmente como a maior economia africana. Além disso, distinguiu-se como interlocutora política pelo seu profundo compromisso na resolução de situações de crise no Continente.

Ao mesmo tempo, a vossa Nação foi obrigada a confrontar-se com graves dificuldades, entre as quais novas e violentas formas de extremismo e de fundamentalismo, com bases étnicas, sociais e religiosas. Muitos nigerianos foram assassinados, feridos e mutilados, raptados e privados de tudo; dos seus entes queridos, da própria terra, dos seus meios de subsistência, da sua dignidade e dos seus direitos. Muitos deles já não conseguiram regressar às suas casas. Fiéis, tanto cristãos como muçulmanos, foram irmanados por um fim trágico, por obra de pessoas que se proclamam religiosas, mas que abusam da religião para fazer dela uma ideologia ao serviço dos próprios interesses de prepotência e de morte.

Gostaria de vos assegurar que estou próximo de vós e de quantos sofrem. Trago-vos todos os dias na oração e aqui repito, para o vosso alívio e encorajamento, as palavras consoladoras do Senhor Jesus, que devem ressoar sempre nos vossos corações: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz!» (Jo 14, 27).

A paz — como vós bem sabeis — não é apenas a ausência de conflitos, nem o resultado de um compromisso político, ou fatalismo resignado. Para nós, a paz é uma dádiva que vem do Alto, é o próprio Jesus Cristo, Príncipe da Paz, Aquele que de dois povos fez um só (cf. Ef 2, 14). E somente quem tem a paz de Cristo no coração, como horizonte e estilo de vida, pode tornar-se pacificador (cf. Mt 5, 9).

Ao mesmo tempo, a paz é um compromisso diário, intrépido e autêntico, para favorecer a reconciliação, promover experiências de partilha, lançar pontes de diálogo e servir os mais frágeis e os excluídos. Em síntese, a paz consiste em construir uma «cultura do encontro».

Por isso, desejo manifestar-vos um sincero agradecimento, porque no meio de tantas provações e sofrimentos, a Igreja na Nigéria não cessa de dar testemunho da hospitalidade, da misericórdia e do perdão. Como deixar de recordar os presbíteros, os religiosos, as religiosas, os missionários e os catequistas que, apesar dos sacrifícios indizíveis, não abandonaram a sua grei, mas permaneceram ao seu serviço, bons e fiéis anunciadores do Evangelho? Gostaria de manifestar especialmente a eles a minha proximidade e dizer: não vos canseis de fazer o bem!

Por eles damos graças ao Senhor, assim como pelas numerosas pessoas de todas as camadas sociais, culturais e religiosas que, com grande determinação, se comprometem concretamente contra todas as formas de violência e a favor de um futuro mais seguro e mais justo para todos. Eles oferecem-nos testemunhos comovedores que, como nos recordou o Papa Bento XVI na conclusão do Sínodo para a África, demonstram «a força do Espírito que transforma os corações das vítimas e dos seus verdugos, para restabelecer a fraternidade» (Africae munus, 20).

Prezados Irmãos no Episcopado: com perseverança e sem desânimo, ide em frente pelo caminho da paz (cf. Lc 1, 79)! Acompanhai as vítimas! Socorrei os pobres! Educai os jovens! Sede promotores de uma sociedade mais justa e solidária!

Concedo-vos de coração a Bênção apostólica e peço-vos que a transmitais aos sacerdotes, religiosos, religiosas, missionários, catequistas, fiéis leigos e sobretudo aos membros sofredores do Corpo de Cristo.

A Ressurreição do Senhor possa conferir conversão, reconciliação e paz a todo o povo da Nigéria! Confio-vos a Maria, Rainha da África! Orai por mim!

Vaticano, 2 de Março de 2015.

Francisco

 



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