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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
 AOS PARTICIPANTES NO ENCONTRO INTERNACIONAL
POR OCASIÃO DO CENTENÁRIO DO
"APELO A TODOS OS HOMENS LIVRES E FORTES"
DO PADRE LUIGI STURZO
 

Amados irmãos e irmãs!

Saúdo cordialmente todos vós, participantes no Congresso Internacional que terá lugar em Caltagirone, cidade natal do servo de Deus pe. Luigi Sturzo, por ocasião do Centenário do Apelo “A todos os homens livres e fortes”. Agradeço à Comissão Promotora-Científica e à Comissão Organizadora por ter dado vida a esta louvável iniciativa, juntamente com todas as Organizações, Movimentos, Associações, Instituições académicas e culturais que estão presentes em espírito de colaboração.

É uma feliz intuição honrar “unidos e juntos” um aniversário tão importante para a história da Itália e da Europa, relendo com um amplo e qualificado contributo de ideias, experiências e boas praxes os doze Pontos que constituíam o Programa do Apelo, para voltar a sentir o seu valor e atualidade e reafirmar a sua praticabilidade entre as pessoas, através de um novo diálogo cultural e social que seja inspirado, hoje como ontem, “nos princípios firmes do cristianismo”.

Por ocasião do V Congresso nacional da Igreja Italiana, frisei a importância deste método, que está na base do grande compromisso envidado pelo pe. Luigi Sturzo e pelos leigos cristãos da época, antes da formulação do “Apelo”: «A sociedade italiana constrói-se quando as suas diversas riquezas culturais podem dialogar de maneira construtiva: a popular, a académica, a juvenil, a artística, a tecnológica, a económica, a política, a da mídia. [...] Além disso, recordai-vos que o melhor modo para dialogar não é falar e debater, mas fazer algo juntos, construir juntos, fazer projetos: não sozinhos, entre católicos, mas juntamente com quantos têm boa vontade» (Florença, 10 de novembro de 2015). Parece-me que posso divisar na vossa iniciativa um cumprimento destas palavras e, por conseguinte, encorajo-vos a prosseguir por este caminho em nome da cultura do encontro e do diálogo que tanto me preocupa.

Este centenário dá-nos a ocasião para refletir sobre o conceito cristão da vida social e sobre a caridade na vida pública segundo o pensamento, a vida e as obras do servo de Deus pe. Luigi Sturzo. Para o sacerdote de Caltagirone, a tarefa de informar cristãmente a vida social e política compete sobretudo aos leigos cristãos que, através do seu compromisso e na liberdade que lhes cabe neste âmbito, põem em prática os ensinamentos sociais da Igreja, elaborando uma síntese criativa entre fé e história que tem o seu fulcro no amor natural vivificado pela graça divina.

Em polémica com quantos defendiam um dualismo entre ética e política, entre Evangelho e sociedade humana e limitavam a lei do amor à vida privada, o pe. Sturzo afirmava: «A lei do amor não é uma lei política; está bem na igreja, nas famílias, nas relações privadas. É verdade que hoje muitos, até cristãozinhos aguados, se arvoram orgulhosamente em censores de quantos se ocupam de vida pública; e definem a política um esgoto de males, um elemento de corrupção, um desencadeamento de paixões; e por conseguinte, é preciso ficar distantes; eles confundem o método mau com aquele que ao contrário é participação obrigatória do cidadão na vida do próprio país. Fazer uma política boa ou má, sob o ponto de vista subjetivo daquele que a faz, depende da retidão da intenção, da bondade dos fins a serem alcançados e dos meios honestos que se empregam para esse fim. Assim raciocinam os cristãos de todos os tempos e países. E com este espírito, o amor ao próximo em política deve ser de casa e não deve ser excluído como um estranho: nem despedido fazendo-o saltar da janela, como um intruso. E o amor ao próximo não consiste em palavras, nem em adular: mas nas obras e na verdade» (de “Il Cittadino de Brescia”, 30 de agosto de 1925: La vera vita. Sociologia del soprannaturale, Bolonha 1943).

Para o pe. Sturzo, a moralização da vida pública está ligada sobretudo a um conceito religioso da vida, da qual deriva o sentido da responsabilidade moral e da solidariedade social. O amor é para ele o verdadeiro vínculo social, o motivo inspirador de toda a sua atividade. Ele, de maneira bastante original, procurou realizar uma “ortopraxia” cristã da política, baseada numa relação correta entre ética e vida teologal, entre dimensão espiritual e dimensão social.

Nesta perspectiva compreende-se por que o pe. Luigi Sturzo foi definido por São João Paulo ii «incansável promotor da mensagem social cristã e defensor apaixonado das liberdades civis» (Discurso na Universidade de Palermo, 20 de novembro de 1982: Insegnamenti V, 3 [1982], 1355). O meu venerado predecessor quis indicá-lo como modelo aos seminaristas e aos sacerdotes: «A vida, o ensinamento e o exemplo do pe. Luigi Sturzo — o qual em plena fidelidade ao seu carisma sacerdotal soube infundir não só nos sicilianos mas também nos católicos italianos o sentido do direito-dever da participação na vida política e social, à luz da doutrina da Igreja — estejam presentes e inspirem o próprio apostolado de evangelização e de promoção humana» (Discurso aos Bispos da Sicília em Visita “ad limina apostolorum, 11 de dezembro de 1981: Insegnamenti IV, 2 [1981], 907).

Luigi Sturzo, antes de ser estadista, político, sociólogo e letrado poliédrico, era um sacerdote obediente à Igreja, um homem de Deus que lutou incansavelmente para defender e encarnar os ensinamentos evangélicos, na sua terra da Sicília, nos longos anos de exílio na Inglaterra e nos Estados Unidos e nos últimos anos da sua vida em Roma.

No seu testamento espiritual, redigido a 7 de outubro de 1958, ele escrevia: «A quantos me criticaram pela minha atividade política, pelo meu amor à liberdade, o meu apego à democracia, devo acrescentar, que não cheguei a esta vida de batalhas e de tribulações por minha vontade, nem por desejo de finalidades terrenas nem de satisfações humanas: a isso cheguei levado pelos eventos». E acrescentava: «Reconheço as dificuldades de manter a vida sacerdotal intacta de paixões humanas e Deus sabe quanto foram para mim amargas as experiências práticas de 60 anos dessa vida; mas ofereci a Deus e tudo destinei para sua glória e em tudo procurei cumprir o serviço da verdade».

O seu ensinamento e o seu testemunho de fé não devem ser esquecidos, sobretudo num tempo em que se requer que a política seja clarividente para fazer face à grave crise antropológica. Por conseguinte, devem ser recordados os pontos-chave da antropologia social sturziana: a primazia da pessoa sobre a sociedade, da sociedade sobre o Estado e da moral sobre a política; a centralidade da família; a defesa da propriedade com a sua função social como exigência de liberdade; a importância do trabalho como direito e dever de cada homem; a construção de uma paz justa através da criação de uma verdadeira comunidade internacional. Estes valores baseiam-se no pressuposto de que o cristianismo é uma mensagem de salvação que se encarna na história, que se dirige a todo o homem e deve influenciar positivamente a vida moral privada e pública.

Cem anos depois do Apelo “A todos os homens livres e fortes”, o Congresso que se realiza em Caltagirone chama os cristãos, solicitados a interpretar os sinais dos tempos à luz do Evangelho, a um compromisso criativo e responsável, a fim de realizar uma praxe social e política animada pela fé e vivida como exigência intrínseca da caridade. Penso sobretudo nos jovens, que devem participar adequadamente, a fim de que possam levar nova paixão, nova competência, novo impulso ao compromisso social e político. Com esta esperança, faço votos de que os vossos dias de trabalho e de reflexão sejam proveitosos e deem frutos abundantes e duradouros. A todos concedo de coração a minha bênção, pedindo-vos que continueis a rezar por mim.

Vaticano, 13 de junho de 2019

Francisco

 



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