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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

Dos murmúrios ao amor pelo próximo

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 37 de 15 de Setembro de 2013

As tagarelices matam como e mais que as armas. Sobre este conceito o Papa Francisco voltou a falar na manhã de sexta-feira 13 de Setembro, na missa celebrada na capela de Santa Marta. Comentando as leituras do dia, tiradas da carta a Timóteo (1, 1-2. 12-14) e do Evangelho de Lucas (6, 39-42), o Pontífice realçou que o Senhor — depois de ter proposto, nos últimos dias, atitudes de mansidão, humildade e magnanimidade — «hoje nos fala do contrário», ou seja, de uma «atitude odiosa para com o próximo», a que temos quando nos tornamos «juízes do irmão».

O Papa Francisco recordou o episódio evangélico no qual Jesus repreende quem pretende tirar o argueiro do olho do outro sem ver a trave que está no seu. Este comportamento, o facto de se sentir perfeito e, por conseguinte, capaz de julgar os defeitos dos outros, é contrário à mansidão, à humildade sobre as quais fala o Senhor, «àquela luz que é tão bela e que consiste em perdoar». Jesus, evidenciou o Santo Padre, usa «uma palavra forte: hipócrita». E sublinhou: «Os que vivem julgando o próximo, falando mal do próximo são hipócritas: porque não têm a força, a coragem de ver os próprios defeitos. Sobre esta questão o Senhor não fala muito. Mais tarde dirá: aquele que tem no seu coração o ódio contra o irmão é um homicida. Isto será proferido também pelo apóstolo João, que muito claramente na sua primeira carta afirma: quem odeia o próprio irmão caminha nas trevas. Quem julga o seu irmão é um homicida». Por conseguinte, acrescentou, «todas as vezes que julgamos os irmãos no nosso coração, ou pior, quando falamos mal deles com os outros, somos cristãos homicidas». E isto «não sou eu quem o digo, mas é o Senhor quem o diz», especificou acrescentando que «sobre este ponto não há dúvidas: se falares mal do teu irmão estás a matá-lo. E todas as vezes que fizermos isto, imitaremos o gesto de Caim, o primeiro homicida». O Pontífice concluiu invocando «para nós, para toda a Igreja, a graça da conversão da criminalidade das maledicências na humildade, na mansidão, na magnanimidade do amor ao próximo».

Não é fácil para os cristãos viver segundo os princípios e as virtudes inspirados por Jesus. «Não é fácil — disse o Papa na missa celebrada na manhã de 12 de Setembro em Santa Marta — mas é possível»: basta «contemplar Jesus sofredor, a humanidade sofredora» e levar «uma vida escondida com Jesus em Deus».

A reflexão do Santo Padre foi inspirada pela celebração da memória litúrgica do nome de Maria. «Outrora, esta festa chamava-se o doce nome de Maria e hoje na oração pedimos a graça de sentir a força e a doçura de Maria. Precisamos da sua doçura para entender o que Jesus nos pede.

«O apóstolo Paulo insiste sobre este tema: “Irmãos, escolhidos por Deus, santos e amados, revesti-vos de sentimentos de ternura, bondade, humildade, mansidão e magnanimidade, suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros” (Cl 3, 12-17)». Sem dúvida, observou o Pontífice, pede-se-nos muito e por isso a primeira pergunta é: «Como posso fazer isto?». Para o Papa, a resposta é clara: «Com o nosso esforço não podemos fazê-lo. Só uma graça pode fazê-lo em nós. O nosso esforço é necessário, mas insuficiente».

«Nestes dias, Paulo falou-nos muitas vezes de Jesus como totalidade e esperança do cristão, porque é o esposo da Igreja e infunde esperança para ir em frente, como vencedor sobre o pecado e a morte». A este propósito, o apóstolo ensina-nos algo: «Irmãos, se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo triunfador; Ele está à direita de Deus. Dirigi o pensamento para as coisas do alto... Com efeito, estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus».

Eis «o caminho para fazer o que o Senhor nos pede: esconder a nossa vida com Cristo em Deus». E isto deve renovar-se em cada atitude diária. Mansidão, bondade, ternura e magnanimidade são as virtudes necessárias para seguir o caminho indicado por Cristo. Recebê-las é «uma graça que brota da contemplação de Jesus».

«Só contemplando a humanidade sofredora de Jesus, podemos ser mansos como Ele. Não há outro caminho». Portanto, para ser cristão é necessário contemplar sempre a humanidade de Jesus, o homem que sofre.

Hoje, no mundo, há «muitos cristãos sem a ressurreição». A eles o Papa Francisco, durante a missa celebrada na manhã de 10 de Setembro, em Santa Marta, dirigiu o convite a encontrar o caminho para ir rumo a Jesus ressuscitado, deixando-se «tocar por Ele, pela sua força», porque Cristo «não é uma ideia espiritual», mas está vivo. E com a sua ressurreição «venceu o mundo».

Ao comentar as leituras da liturgia do dia, o Pontífice recordou alguns trechos da carta aos Colossenses, nos quais são Paulo fala sobre a figura de Jesus, descrito gradualmente como «a totalidade, o centro, a esperança, porque é o esposo». No trecho de hoje (2, 6-15) o apóstolo acrescenta outro fragmento, definindo Cristo «o vencedor», aquele que «venceu a morte, o pecado e o demónio». Portanto, a mensagem paulina inclui um convite a caminhar no Senhor ressuscitado, bem enraizado e edificado nele, na sua vitória, firme na fé. Em particular, o Pontífice referiu-se àqueles «cristãos sem Cristo ressuscitado», os que «acompanham Jesus até ao túmulo, choram, amam-no tanto», mas não são capazes de ir além. E a este propósito, identificou três categorias: os temerosos, os vergonhosos e os triunfalistas.

Os primeiros, explicou, «são os da manhã da ressurreição, os de Emaús que fugiram, porque tinham medo»; são «os apóstolos que se fecharam no Cenáculo por medo dos judeus»; são também «as mulheres boas que choram», como Madalena em lágrimas «porque levaram embora o corpo do Senhor».

A segunda categoria é a dos «vergonhosos, para os quais confessar que Cristo ressuscitou suscita um pouco de vergonha neste mundo tão avançado nas ciências».

Por fim, o terceiro grupo é o dos cristãos que no íntimo «não acreditam no ressuscitado e querem fazer própria uma ressurreição mais majestosa que a de Jesus». O Pontífice definiu-os «triunfalistas», porque «têm um complexo de inferioridade» e adoptam «atitudes triunfalistas na sua vida, nos seus discursos, na sua pastoral e na liturgia».

Segundo o Papa Francisco, é necessário recuperar a consciência de que Jesus ressuscitou. E, por conseguinte, os cristãos são chamados «sem temor, sem medo e sem triunfalismo» a olhar «para a sua beleza», a pôr o dedo nas chagas e a mão no lado do ressuscitado, daquele «Cristo que é tudo, a totalidade; Cristo é o centro, Cristo é a esperança», porque é o esposo, é o vencedor. E «um vencedor — acrescentou — restabelece toda a criação».

Referindo-se ao trecho do Evangelho de Lucas (6, 12-19), o Santo Padre evocou de novo a imagem de Jesus entre a multidão de homens e mulheres que acorreram para «o ouvir e ser curados das suas doenças. Nisto o Papa Francisco vê a promessa da vitória final de Cristo, o qual «cura todo o universo», é «a sua ressurreição». Eis porque, foi a conclusão, é necessário redescobrir a beleza de ir rumo ao ressuscitado, deixando-se tocar por Ele, pela sua força.

Como é triste quando um sacerdote perde a esperança! Por isso, na missa celebrada na manhã de 9 de Setembro em Santa Marta, o Papa Francisco dirigiu aos sacerdotes presentes o convite a cultivar esta virtude, «que para os cristãos tem o nome de Jesus». E o povo de Deus tem necessidade de que nós, sacerdotes, demos esta esperança em Jesus, que renova tudo: em cada Eucaristia renova a criação, em cada gesto de caridade renova o seu amor em nós».

O Pontífice falou da esperança inspirando-se na reflexão hodierna e dos dias precedentes, nas quais Jesus foi proposto como totalidade, centro da vida do cristão, único esposo da Igreja. O Pontífice meditou sobre o conteúdo da Carta de São Paulo aos Colossenses (1, 24-2, 3): Jesus «mistério escondido, Deus». O mistério de Deus que «se manifestou em Jesus, nossa esperança: é o tudo, o centro e também a nossa esperança». O optimismo, explicou, é uma atitude humana que depende de muitas coisas, mas a esperança é diversa: «é um dom, uma dádiva do Espírito Santo e por isso Paulo dirá que ela nunca engana».

O Papa indicou uma confirmação deste conceito no Evangelho de Lucas (6, 6-11), na referência ao tema da liberdade. A «liberdade e esperança caminham juntas: onde não há esperança, não pode haver liberdade». Jesus «não é um curandeiro, mas um homem que recria a existência. E isto dá-nos esperança, porque Jesus veio precisamente para este grande milagre, para recriar tudo». Portanto, acrescentou, «a grande maravilha é a reforma de Jesus. E isto dá-nos esperança: Jesus recria tudo». E quando «nos unimos a Jesus na sua paixão renovamos o mundo».

 

 



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