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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

Mais mártires hoje do que na Igreja das origens

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 10 de 06 de Março de 2014

A perseguição dos cristãos não é um facto que pertence ao passado, às origens do cristianismo. É uma triste realidade dos nossos dias. Aliás, «há mais mártires hoje do que nos primeiros tempos da Igreja», afirmou o Papa Francisco na manhã de terça-feira, 4 de Março, durante a missa celebrada em Santa Marta, pedindo que reflictamos sobre o testemunho dos irmãos e irmãs na fé. Mas, recordou, Jesus advertiu-nos: segui-lo significa gozar da sua generosidade mas também «sofrer perseguições em seu nome», como escreve Marcos no trecho do Evangelho proposto pela liturgia (10, 28-31).

«Jesus — disse o Pontífice — tinha acabado de falar sobre o perigo das riquezas, de como era difícil que um rico entrasse no reino dos céus. E Pedro faz-lhe esta pergunta: “Deixamos tudo e seguimos-te. O que ganharemos?”. Jesus é generoso e responde a Pedro: “Em verdade vos digo: quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa da Boa Nova, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos...”».

É a estrada do abaixamento — recordou o bispo de Roma — a mesma que são Paulo indica aos Filipenses quando diz que Jesus, fazendo-se homem, se humilhou até à morte de cruz.

A perseguição, realçou o Pontífice, é uma das bem-aventuranças. Os discípulos, imediatamente após a vinda do Espírito Santo, começaram a anunciar e tiveram início as perseguições. Pedro foi para o cárcere, Estêvão testemunhou com a morte como Jesus. E depois houve ainda muitas outras testemunhas, até hoje. A cruz está sempre na estrada cristã».

«Mas — observou o Santo Padre — esquecemos facilmente. Pensemos nos muitos cristãos que há sessenta anos foram presos nos campos, nas prisões nazis e comunistas: tantos, só porque eram cristãos». E isto acontece ainda hoje, não obstante a nossa convicção de termos alcançado um grau de civilização diferente e uma cultura mais madura.

Digo-vos — afirmou o Papa — que hoje há mais mártires que nos primeiros tempos da Igreja. Muitos dos nossos irmãos e irmãs oferecem o próprio testemunho de Jesus e são perseguidos. Pensemos se temos dentro de nós a vontade de ser testemunhas corajosas de Jesus». E acrescentou: «pensemos também — far-nos-á bem — nos nossos irmãos e irmãs que hoje não podem rezar juntos porque são perseguidos, não podem ter o livro do Evangelho nem a Bíblia porque são perseguidos. Pensemos nestes irmãos e irmãs que não podem ir à missa porque é proibido». «Pensemos: estou disposto a carregar a cruz como Jesus? A suportar perseguições para dar testemunho de Jesus como fazem estes irmãos e irmãs que hoje são humilhados e perseguidos? Este pensamento fará bem a todos nós».

Na manhã de segunda-feira, 3 de Março, o Papa Francisco solicitou a «oração pelas vocações». Pedir ao Senhor para mandar religiosas e sacerdotes livres «da idolatria da vaidade, da soberba, do poder e do dinheiro» para a sua Igreja. Rezar cientes de que há vocações, mas que são necessários jovens corajosos capazes de responder à chamada seguindo o Senhor «de perto» e conservando o coração só para Ele.

O Pontífice inspirou-se no trecho evangélico que narra o encontro de Jesus com o jovem rico (Mc 10, 17-27). É «uma história» disse, que «ouvimos muitas vezes»: um homem «procura Jesus e prostra-se de joelhos diante dele». E fá-lo diante «de toda a multidão» porque «tinha muita vontade de ouvir as palavras de Jesus» e «no seu coração havia algo que o impulsionava». Assim «de joelhos diante dele», pergunta-lhe o que deve fazer para obter a vida eterna como herança. O que movia o coração daquele jovem, frisou o Papa, «era o Espírito Santo». De facto, «era um homem bom — explicou, traçando um seu perfil — porque desde a sua juventude observou os mandamentos». Ser «bom» contudo «não era suficiente para ele: queria mais! O Espírito Santo impelia-o!».

O Santo Padre comentou que a figura do jovem rico suscita uma certa participação, que nos leva a dizer: «Pobrezinho, tão bom e tão infeliz, porque foi embora triste» depois do encontro com Jesus. E hoje há muitos jovens como ele. Mas — foi a pergunta do Pontífice — «o que fazemos por eles?». Em primeiro lugar devemos rezar: «Ajuda, Senhor, estes jovens para que sejam livres e não escravos», de modo «que conservem o coração só para ti». Deste modo «a chamada do Senhor pode vir, pode dar fruto».

O Papa concluiu a sua meditação convidando a recitar com frequência «esta oração pelas vocações». Cientes de que «há vocações»: compete a nós rezar para fazer de modo que «cresçam, que o Senhor possa entrar naqueles corações e doar esta alegria “inefável e gloriosa” que sente cada pessoa que segue Jesus de perto».

Na missa celebrada na sexta-feira 28 de Fevereiro, a beleza e a grandeza do amor foram o tema da reflexão do Papa. Quando um amor falha as pessoas não devem ser condenadas mas acompanhadas, recomendou o Papa Francisco

O Evangelho de Marcos narra que os fariseus, a fim de o pôr à prova, apresentam a Jesus «o problema sobre o divórcio». Quantos desejavam pôr Jesus em dificuldade recorriam sempre à «casuística», perguntando-lhe se o caso era lícito ou não.

A «cilada» que queriam fazer a Jesus está relacionada com este modo de ver. Porque, advertiu o Papa, «por detrás da casuística, do pensamento casuístico, existe sempre uma armadilha!». Como a pergunta que os fariseus fazem a Jesus se «é lícito a um marido repudiar a própria esposa». E Jesus responde antes de mais perguntando-vos «o que diz a lei, explicando por que Moisés fez aquela lei».

Contudo, o Senhor não se detém naquela primeira resposta e «da casuística vai ao centro do problema»; e releu o trecho no qual o Senhor «se refere à obra-prima da criação». De facto, «criou a luz e viu que era boa». Depois «criou os animais, as árvores, as estrelas: tudo era bom». Mas «quando criou o homem», chegou a dizer que «era muito bom». Com efeito, «a criação do homem e da mulher é a obra-prima da criação». Também porque Deus «não quis que o homem ficasse sozinho: desejou que tivesse uma companheira, uma companheira de caminho».

Este foi também o momento, disse o Pontífice, do «início do amor», «tão poético» este encontro de Adão e Eva. A eles Deus recomenda que continuem «como uma só carne». De facto, advertiu o Papa, «esta obra-prima não acabou nos dias da criação». O Senhor escolheu este ícone para explicar «o amor que sente pelo seu povo». E assim «como o Pai desposou o povo de Israel, Cristo desposou o seu povo».

«Esta — afirmou o Papa — é a história de amor. A história da obra-prima da criação. E diante deste percurso de amor, deste ícone, a casuística sucumbe e torna-se sofrimento». Dor diante da falência: «Quando alguém deixa pai e mãe e se une a uma mulher, tornam-se uma só carne e vão em frente, quando este amor falha — porque muitas vezes acontece — devemos sentir a dor da falência». E nesses momentos «as pessoas devem ser acompanhadas». Não devemos «condenar» mas «caminhar ao lado delas». E sobretudo «não fazer casuística da sua situação».

Tudo isto faz pensar — prosseguiu o Pontífice — num «desígnio de amor», no «caminho de amor do matrimónio cristão que Deus abençoou na obra-prima da sua criação, com uma bênção da qual nunca privou ninguém, nem sequer com o pecado original».

O Papa Francisco concluiu a sua meditação pedindo ao Senhor a graça de compreender este mistério «e de nunca cair nestas atitudes casuísticas dos fariseus e dos doutores da lei».

Precisamente ao tema da coerência cristã, sugerido pela administração do sacramento da confirmação, o Papa Francisco dedicou a homilia da missa de quinta-feira 27 de Fevereiro. «Ser cristão — esclareceu imediatamente o Papa — significa dar testemunho de Jesus Cristo». Com efeito «o cristão é a pessoa, o homem e a mulher, que dá testemunho de Jesus Cristo». Os cristãos incoerentes suscitam escândalo porque dão um contratestemunho a quem não crê. Sobre a coerência Jesus usa «expressões muito fortes, a ponto que ouvindo-as poderia haver até quem dissesse: «mas isto também o diz um comunista». Mas não: «é a palavra de Deus!».

Em seguida o Pontífice traçou o perfil espiritual do cristão, indicando precisamente a coerência como seu elemento principal. Em todas as coisas da vida, disse, é preciso «pensar como cristão; sentir como cristão e agir como cristão». Esta é a «coerência de vida de um cristão que no seu agir, no seu sentir, no seu pensar» reconhece a presença do Senhor.

O Papa advertiu também contra o facto de que «se faltar uma destas» características «o cristão não existe». Aliás, «também pode haver quem diga: eu sou cristão!». Mas «se tu não vives como cristão; se não te comportas como cristão; não pensas como cristão e não te sentes cristão algo não funciona. Há uma certa incoerência!». Todos nós cristãos, disse o Pontífice, «somos chamados a dar testemunho de Jesus Cristo». E os cristãos que ao contrário «vivem de modo ordinário, comum, na incoerência, fazem muito mal!».

Depois, as consequências estão sob o olhar de todos. A todos os cristãos aconteceu, comentou o Papa, ouvir dizer «eu creio em Deus mas não na Igreja, porque vós cristãos dizeis uma coisa mas fazeis outra!». São palavras que já ouvimos todos, não?». E isto acontece precisamente «pela incoerência» dos cristãos, explicou.

O Papa recordou que «todos nós a devemos pedir ao Senhor, toda a Igreja, devemos pedir a graça de ser coerentes». Reconhecendo-nos pecadores, frágeis, incoerentes, mas sempre dispostos a pedir perdão a Deus. Com efeito todos nós «temos a capacidade de pedir perdão e Deus nunca se cansa de perdoar». Por conseguinte, é importante, admoestou o Papa, «ter a humildade de pedir perdão» quando não somos coerentes.

Trata-se, no fundo, de «ir em frente na vida com coerência cristã», dando testemunho de crer em Jesus Cristo e sabendo que somos pecadores. Mas com «a coragem de pedir perdão quando erramos» e «tendo muito receio de escandalizar». E que «o Senhor — foram os votos conclusivos do Papa — nos conceda a todos esta graça».

 



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