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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Caminho da paz

Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 48 de 26 de Novembro de 2015

O mundo volte a encontrar o caminho da paz «precisamente à porta deste jubileu da misericórdia». «Jesus chorou», disse Francisco na homilia, recordando as palavras do evangelho de Lucas (19, 41-44). Quando «se aproximou de Jerusalém», o Senhor, «vendo a cidade, chorou». Porquê? O próprio Jesus responde: «Se também tu, pelo menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz! Mas isto está ocultado aos teus olhos». Portanto, «chorou porque Jerusalém não entendera o caminho da paz e escolhera a vida das inimizades, do ódio, da guerra».

«Hoje Jesus está no céu e vê-nos» — recordou Francisco — e «virá ao nosso altar». Mas «também hoje Jesus chora, porque preferimos o caminho das guerras, do ódio, das inimizades». Compreende-se isto ainda mais agora que «estamos próximos do Natal: haverá luzes, festas, árvores luminosas e presépios... tudo falso: o mundo continua a fazer guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz». E, disse ainda o Pontífice, «no ano passado comemoramos o centenário da Grande guerra». E «este ano houve outras celebrações para recordar Hiroshima e Nagasaki, só para mencionar duas». E «todos se queixam», dizendo: «Que histórias horríveis!».

Recordando a sua visita ao sacrário militar de Redipuglia, a 13 de Setembro de 2014, no centenário da primeira guerra mundial, o Papa revelou que tinha pensado nas palavras de Bento XV: «massacres inúteis». Massacres que provocaram a morte de «milhões de homens». Contudo, acrescentou, «ainda não entendemos o caminho da paz». E «não acabou ali: hoje nos telejornais, na imprensa, vemos que houve bombardeamentos» e ouvimos dizer que «é uma guerra». Mas «hoje há guerra e ódio em toda a parte». E chegamos a consolar-nos, dizendo: «Sim, é um bombardeamento, mas graças a Deus só foram assassinadas vinte crianças!». Ou dizemos: «Não morreram muitas pessoas, tantas foram raptadas...». Assim, «até o nosso modo de pensar enlouquece».

O Pontífice interrogou-se: «O que permanece de uma guerra, desta que agora vivemos?». Permanecem «ruínas, milhares de crianças sem educação, muitos mortos inocentes: tantos!». E «muito dinheiro nos bolsos dos traficantes de armas». É uma questão vital. «Certa vez — recordou o Papa — Jesus disse: “Não se podem servir dois senhores: ou Deus ou as riquezas”». E «a guerra é precisamente a escolha das riquezas: “Façamos armas, assim a economia equilibra-se um pouco, e vamos em frente com o nosso interesse”». A propósito, afirmou Francisco, «há uma palavra grave do Senhor: “Malditos!”», porque «ele disse: “Benditos os pacificadores!”». Portanto, quantos «promovem a guerra, as guerras, são malditos, bandidos».

Uma guerra, explicou o Papa, «pode-se justificar — entre aspas — com muitas razões. Mas quando o mundo inteiro, como hoje, está em guerra — o mundo inteiro! — é uma guerra mundial por etapas: aqui, ali, lá, em toda a parte». E «não há justificação. E Deus chora, Jesus chora».

Assim, voltam as palavras do Senhor quando viu Jerusalém, citadas no evangelho de Lucas: «Neste dia não entendeste o que traz a paz». Hoje «este mundo não é pacificador». E «enquanto os traficantes de armas fazem o seu trabalho, há pobres pacificadores que só para ajudar uma pessoa, outra e outra, dão a vida». E cumprem esta missão tendo como modelo «um símbolo, um ícone dos nossos tempos: Teresa de Calcutá». Sim, «com o cinismo dos poderosos poder-se-ia dizer: mas o que fez aquela mulher? Perdeu a sua vida ajudando as pessoas a morrer?». A questão é que hoje «não se entende o caminho da paz». Com efeito, «a proposta de paz de Jesus não foi ouvida». E «por isso, contemplando Jerusalém, ele chorou, e também hoje chora».

«Ser-nos-á útil — concluiu o Papa — pedir a graça do pranto por este mundo que não reconhece o caminho da paz, que vive para fazer a guerra, com o cinismo de dizer que não a devemos fazer». E, acrescentou, «peçamos a conversão do coração». Precisamente «à porta deste jubileu da misericórdia — desejou Francisco — que o nosso júbilo, a nossa alegria seja a graça de que o mundo volte a ser capaz de chorar pelos seus crimes, por aquilo que faz com as guerras».

 



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