Index   Back Top Print

[ PT ]

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Doutrina e ideologia

Sexta-feira, 19 de maio de 2017

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 21 de 25 de maio de 2017

«Aprouve ao Espírito Santo e a nós...»; não perdeu a sua atualidade o incipit da carta que os apóstolos escrevem aos cristãos «de Antioquia, da Síria e da Pisídia», depois de ter discutido entre eles naquele que foi o primeiro verdadeiro concílio da história da Igreja. Precisamente aquelas palavras, citadas nos Atos dos Apóstolos, Francisco quis relançar pedindo «a graça da obediência madura para o magistério da Igreja», para ser fiéis «a Pedro, aos bispos» e «ao Espírito Santo que guia e ampara este processo». O Papa não deixou de advertir contra a «transformação da doutrina em ideologia», criando dificuldades e divisões.

«Na Igreja do início houve dificuldades» reconheceu imediatamente Francisco. A ponto que até «na primeira comunidade cristã, por exemplo, havia ciúmes, lutas de poder: alguns espertalhões que queriam ganhar e comprar o poder, como Simão ou aquele casal de hipócritas Ananias e Safira que pretendiam mostrar-se como verdadeiros cristãos mas pelas costas faziam os seus negócios». Em síntese, «sempre houve problemas; somos humanos, somos pecadores e existem dificuldades, até na Igreja, entre nós, sempre». E «num certo sentido — esclareceu — ser pecadores leva-nos à humildade e a aproximar-nos do Senhor, que nos salva dos nossos pecados». Por este motivo «é uma graça sentir-se pecadores, é uma graça».

«Mas há outros problemas maiores, não estes de todos os dias» prosseguiu o Pontífice, referindo-se ao trecho dos Atos dos Apóstolos (15, 22-31) proposto pela liturgia como primeira leitura: «Este trecho apresenta o fim do problema que começou com Pedro: quando este vai ter com Cornélio, um pagão, e o batiza». E «aqui a história verte sobre esta questão: Paulo e Barnabé em Antioquia sofreram tanto porque Jesus dissera: “outros povos virão”; é verdade, mas não disse como estes povos deveriam entrar na Igreja». Por isso, «alguns diziam: “não, primeiro têm que se tornar judeus e depois podem entrar”. Este é o nó da questão».

Simplificando o raciocínio, Francisco explicou que «por um lado» havia «os que queriam que primeiro se tornassem judeus e depois se batizassem». E «por outro», havia os que «pensavam: “não, é o Senhor quem os chama? Que venham”». Eis então que «quando Pedro explica isto, a visão que teve, e depois quando vê o Espírito Santo descer sobre Cornélio e a sua família, profere aquela frase: “quem sou eu para fechar a porta ao Espírito Santo?”». Tudo isto — recordou Francisco — «acontece também em Antioquia: depois Paulo é apedrejado, é abandonado quase morto». São «perseguidos».

Há de facto «este grupinho» que «vai de um lado para outro com calúnias, com mexericos maldosos, graves». E «também diz, um pouco mais adiante — mas é a mesma história de Antioquia — que foi ter com as mulheres piedosas, que tinham influência sobre as autoridades, para que afastassem os apóstolos». Portanto, «os apóstolos querem tratar a questão na presença de Deus: muito provavelmente, nesta reunião, houve discussões fortes mas com espírito bom». Também «Paulo, diz noutra parte do livro dos Atos coisas graves contra Pedro, mas sempre diante de Deus, com bom espírito». Mas «há outro grupinho que fazia confusão e os apóstolos dizem assim: “Soubemos que alguns de nós, aos quais não demos cargo algum — soberanos — vieram perturbar-vos com discursos que transtornaram os vossos ânimos”».

«E encontramo-nos assim diante de dois grupos de pessoas»: «O grupo dos apóstolos que querem debater o problema e os outros que causam problemas, dividem, dividem a Igreja, dizem que o que os apóstolos pregam não é o que Jesus disse, que não é a verdade». Por sua vez, «os apóstolos discutem a questão até ao fim, ouvimos como se põem de acordo». Mas «não é um acordo político, é a inspiração do Espírito Santo que os leva a dizer: nada, nenhuma exigência», exceto a obrigação «de não comer carne naquele tempo, a carne sacrificada aos ídolos porque significava fazer comunhão com os ídolos, abster-se do sangue, dos animais sufocados — porque era um escândalo comer sangue, a carne sufocada, mesmo se é uma coisa que hoje parece ser secundária — e das uniões ilegítimas». E «por outro, a liberdade do Espírito: assim os pagãos podem entrar na Igreja sem passar pela circuncisão, diretamente».

O Papa observou também que «é bonito o início desta carta» dos apóstolos: «“Aprouve ao Espírito Santo e a nós”: o Espírito e os seus põem-se de acordo». E «este é o primeiro concílio da Igreja, para esclarecer a doutrina». Depois «houve tantos, até ao Vaticano ii, que esclareceram a doutrina». Com efeito, afirmou o Pontífice, «é um dever da Igreja esclarecer a doutrina para que se compreenda bem aquilo que Jesus disse nos Evangelhos, qual é o espírito dos Evangelhos». E os Atos narram, precisamente: «o primeiro: diante de um problema esclareceram, as coisas estão assim». Também «em Éfeso, por exemplo, quando se discutia se Maria era a mãe de Deus, fizeram o concílio para esclarecer aquele problema, porque o Espírito Santo e eles, o Papa com os bispos, todos juntos vão em frente».

«Mas houve sempre quem — advertiu Francisco — sem encargo algum, vai perturbar a comunidade cristã com discursos que desorientam as almas: “Eh, não, o que aquele disse é herege, não o pode dizer, isto não, a doutrina da Igreja é esta”». Na realidade «são fanáticos do que não é claro, como estes fanáticos que iam semeando joio para dividir a comunidade cristã». É precisamente «este o problema: quando a doutrina da Igreja, a que vem do Evangelho, a que o Espírito Santo inspira — porque Jesus disse: “Ele nos ensinará e vos fará recordar o que eu ensinei” — torna-se ideologia». Eis «o grande erro destas pessoas: não eram crentes, seguiam uma ideologia que fechava o coração à obra do Espírito Santo». Ao contrário, «certamente os apóstolos tiveram fortes discussões, mas não eram ideologizados: tinham o coração aberto ao que o Espírito dizia». Eis por que, «depois da discussão», começam a sua carta escrevendo: «Aprouve ao Espírito e a nós».

«Não nos devemos assustar, quando ouvimos estas opiniões dos ideólogos da doutrina. A Igreja tem o seu próprio magistério, o magistério do Papa, dos bispos, dos concílios, e devemos ir por este caminho que vem da pregação de Jesus e do ensinamento e da assistência do Espírito Santo: está sempre aberta, sempre livre». E «esta é a liberdade do Espírito, mas na doutrina». Ao contrário, aqueles «que foram a Antioquia criar alvoroço e dividir a comunidade, são ideólogos». Porque «a doutrina une, os concílios unem sempre a comunidade cristã». É a ideologia que «divide» mas «para eles é mais importante a ideologia do que a doutrina: põem de lado o Espírito Santo».

«Hoje vem-me espontâneo pedir a graça da obediência madura ao magistério da Igreja — confidenciou Francisco, concluindo — aquela obediência ao que a Igreja nos ensinou sempre e nos continua a ensinar». E deste modo «desenvolve o Evangelho, explica-o cada vez melhor, em fidelidade a Pedro, aos bispos e, em definitiva, ao Espírito Santo que guia e ampara este processo». Nesta perspetiva o Papa convidou «também a rezar pelos que transformam a doutrina em ideologia, para que o Senhor lhes conceda a graça da conversão à unidade da Igreja, ao Espírito Santo e à verdadeira doutrina».

 



© Copyright - Libreria Editrice Vaticana