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MENSAGEM DO SANTO PADRE
AOS PARTICIPANTES DO SÍNODO
DA IGREJA DE BUENOS AIRES

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Queridos irmãos e irmãs!

O cardeal Poli pediu-me se eu poderia gravar uma mensagem para este Dia Sinodal e faço-o com prazer. Estou a seguir o Sínodo daqui, através do boletim diocesano que, sendo publicado atualmente com imagens, fotos, compreendo melhor, e sim é verdade, estais a trabalhar muito. Além disso, sei que o cardeal já visitou quase todas as paróquias durante este tempo sinodal; ele já as tinha visitado antes, mas com o objetivo de falar com as comunidades paroquias. Ou seja, vê-se que há movimento. E o Sínodo é isso: mover-se, caminhar, caminhar juntos, chegar a um acordo. E, quando caminhas, pressupõe-se que encontras alguém, que falas e escutas, e que refletes. Isto é, caminhar para que haja encontro, escuta e reflexões. Sabeis o que é mais difícil? A segunda: a escuta. Porque enquanto o outro está a falar comigo, já estou a pensar naquilo que lhe devo dizer. Não, ouve-o tranquilamente. E também tens que lhe dizer o que sentes, mas antes escuta: “o apostolado do ouvido”. Por favor, não vos esqueçais, é muito importante.

A Igreja, durante este caminho, deve ser benzida, pois caminhar juntos para crescer juntos, na Igreja particular, atrai a bênção de Deus. E neste caminho encontrareis coisas muito boas e más. Para não ser negativo, inicio por aquelas más, assim deixo as boas para o fim, como a sobremesa. Gostaria de indicar três dificuldades, três aspetos em relação aos quais vos deveis precaver neste caminho.

Primeiro, o clericalismo. Caminhar em sinodalidade significa que toda a comunidade diocesana, paroquial e colegial, por exemplo, um colégio, caminha junto. Todos são povos de Deus. Por vezes, é lamentável quando numa paróquia os fiéis consideram unicamente o que diz o pároco, e o pároco deixa de ser pastor para ser chefe. Não, todos. Faço-vos uma pergunta. Por exemplo, na tua paróquia, há um conselho que se ocupa dos assuntos económicos? Na tua paróquia, há um conselho pastoral? “Não, é o pároco que faz tudo”. Pois bem, neste caso estais num clericalismo puro. Então, precavei-vos do clericalismo que é uma perversão no corpo da Igreja. A Igreja é todo o povo de Deus e todos caminham juntos. Caminhar para encontrar o que Deus quer, para manifestar a fé, para nos alegrarmos com a fé. Então, o clericalismo é o perigo que se encontra na Igreja. Defendei-vos!

Segundo, a mundanidade espiritual. Viver o Evangelho, mas com critérios mundanos. Não, o Evangelho vive-se com critérios evangélicos. Viver de forma mundana... Não sei, digo coisas um pouco pour la gallerie, mas não de coração, com os valores humanos que o Senhor nos deu e com os valores cristãos que nos revelou. Então, precavei-vos da mundanidade. Atenção, porque esta não é uma frase minha; foi o que Jesus pediu ao Pai para os discípulos: “Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal, os preserves para que não caiam no espírito do mundo”. E o espírito do mundo penetra em nós de todos os lados, de todos os lados! “Agora está na moda isto — e todos ali, atrás daquela moda —, depois está na moda outra coisa, agora está na moda pensar assim...” E, dentro desta mundanidade, tende os olhos abertos, não “bebais” qualquer coisa.

Há uma palavra que me diz muito. Precavei-vos das “colonizações ideológicas”. “Colonizar”: nós fomos colónia, toda a América Latina foi colónia, a África foi colónia, a Ásia foi colonizada... Então pensamos que colonizar significa que chegam os conquistadores, ocupam o território e comandam, porque foi o que vimos na história. Mas há também a colonização da mente, a “colonização ideológica”, quando de outros lados te impõem critérios que não são humanos nem da tua pátria, e muito menos cristãos: esta é mundanidade. Viver ingenuamente. Eis o segundo perigo: a mundanidade.

O terceiro perigo, que para mim é a que mais debilita as comunidades eclesiais, é o mexerico. A tagarelice é como o sarampo que se difunde cada vez mais, e já não se pode viver sem criticar o próximo. Precavei-vos dos mexericos! Lede o que diz o apóstolo Tiago sobre as tagarelices. Quantas vezes ouvimos dizer: “Oh, aquela senhora é muito boa, todos os domingos vai à missa, vai todos os dias à missa, mas é uma mexeriqueira”. Que bom serviço faz à Igreja uma pessoa assim! Há um remédio para não ser mexeriqueiro: mordei-vos a língua. Vai inchar, mas deste modo ficareis curados. E quando tiverdes vontade de fazer um comentário negativo, de criticar alguém, até mesmo de fazer insinuações, mordei a vossa língua e pedi a Jesus que vos liberte deste vício. Nós portenhos somos bisbilhoteiros, mas não só nós, em todas as partes. Mas nós somos mexeriqueiros com um certo brilho.

Que neste caminho sinodal cada um faça o esforço para nunca dizer uma palavra, um comentário que deprecie o outro.

Os três perigos que encontrareis no caminho — neste caminho que é de encontro, de escuta e de reflexão, —, são: o clericalismo, a mundanidade e o mexerico. Defendei-vos deles. “Está bem Padre. E agora, quais são as certezas?”. As certeza não as podes ter antes do caminho; não há seguro sobre a vida, não há seguro sobre este caminho. Todos os dias deves colocar-te em frente de Deus e caminhar. “Sim, mas, com qual certeza, padre, faço isso? Tens duas certezas que são infalíveis: primeiro, as bem-aventuranças. Põe-te no espírito das bem-aventuranças. Quais são as bem-aventuranças? Sinto a tentação de vos pedir para que as digais em voz alta. Talvez esteja enganado, mas penso que nem sequer metade do estádio as conheçam de cor. As bem-aventuranças... pegai no Evangelho de Mateus e lede-as. E se quiserdes que sejam mais breves pegai no de Lucas, que ali são mais breves; mas o espírito é o mesmo; o espírito das bem-aventuranças. É isto o que Jesus quer do discípulo, da discípula. São estas as coisas bonitas e as certezas. Com elas, com este ar, com este clima de bem-aventuranças, o Sínodo não será um fracasso. Garanto-vos isso. As bem-aventuranças.

E outra certeza é ler o protocolo com base no qual seremos julgados. E o protocolo com base no qual Jesus se expressará sobre este sínodo, quando terminar. E podeis encontrá-lo em Mateus 25: as obras de caridade. Mas é necessário ouvi-las como as diz o Senhor. Lede todos os dias — os que quiserem caminhar no sínodo — lede todos os dias as bem-aventuranças, e Mateus 25, e assim tereis a certeza.

Caminhar, não ficar parados, caminhai para vos encontrar, para vos escutar, para refletir juntos. Defendei-vos do clericalismo, da mundanidade e do mexerico. E fortalecei-vos com as bem-aventuranças e com Mateus, 25. E tudo isto com a oração, o mais importante de tudo o que disse é esta última. Rezar, rezar como Jesus nos ensinou. Rezar uns pelos outros: por quantos estão a caminho, por quantos não querem caminhar, por quantos caminham mal, por quantos estão distantes, pela Igreja arquidiocesana, pelo arcebispo. Rezar. E neste espírito de oração, certamente o Sínodo será um sucesso. Que Deus vos abençoe e, dado que já estais a rezar, rezai também por mim. Obrigado.

 



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