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PAPA JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 1981

 

A contraposição entre carne e Espírito e a "justificação" na fé

Caríssimos Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Irmãos e Irmãs da vida religiosa, e todos vós,
caríssimos Irmãos e Irmãs

Depois da pausa devida às recentes festividades, recomeçamos hoje os nossos encontros das quartas-feiras trazendo ainda no coração a serena alegria do Mistério do nascimento de Cristo, que a liturgia da Igreja neste período nos levou a celebrar e actualizar na nossa vida. Jesus de Nazaré, o Menino que dá vagidos na manjedoura de Belém, é o Verbo eterno de Deus que encarnou por amor do homem (Jo 1, 15). Esta é a grande verdade a que adere o cristão com profunda fé. Com a fé de Maria Santíssima que, na glória da sua intacta virgindade, concebeu e gerou o Filho de Deus feito homem. Com a fé de São José que por Ele velou e O protegeu com imensa dedicação de amor. Com a fé dos pastores que imediatamente acorreram à gruta da natividade. Com a fé dos Magos que O entreviram no sinal da estrela e, depois de longas procuras, puderam contemplá-1'O e adorá-1'O nos braços da Virgem Mãe.

Que o novo ano seja vivido por todos sob o signo desta grande alegria interior, fruto da certeza de que Deus tanto amou o mundo que lhe deu o Seu Filho unigénito, para todo o que crê n'Ele não morra mas tenha a vida eterna: estes os votos que formulo por todos vós, que estais presentes nesta primeira audiência geral de 1981, e por todos os que vos são caros

1. Que significa a afirmação "A carne... tem desejos contrários ao Espírito, e o Espírito tem desejos contrários à carne" (Gál 5, 17). Esta pergunta parece importante, mesmo fundamental, no contexto das nossas reflexões sobre a pureza de coração, de que fala o Evangelho. Todavia, a Autor da carta aos Gálatas abre diante de nós, a este respeito, horizontes ainda mais vastos. Nesta contraposição da "carne" ao Espírito (Espírito de Deus), e da vida "segundo a carne" à vida "segundo o Espírito", está contida a teologia paulina acerca da justificação, isto é, a expressão da fé no realismo antropológico e ético da redenção operada por Cristo, que Paulo, no contexto já nosso conhecido, chama também "redenção do corpo". Segundo a Carta aos Romanos 8, 23, a "redenção do corpo" tem ainda uma dimensão "cósmica" (referida a toda a criação), mas no centro dela está o homem: o homem constituído na unidade pessoal do espírito e do corpo. E precisamente neste homem, no seu "coração", e consequentemente em todo o seu comportamento, frutifica a redenção de Cristo, graças àquelas forças do Espírito que operam a "justificação", isto é, fazem que a justiça "abunde" no homem, como é indicado no Sermão da Montanha: Mt 5, 20, isto é, "abunde" na medida que o próprio Deus quis e espera.

2. É significativo que Paulo, falando das "obras da carne" (cf. Gal 5, 19-21), mencione não só "prostituição, impureza, desonestidade... embriaguez, orgias" portanto tudo o que, segundo um modo de compreender objectivo, reveste o carácter dos "pecados carnais" e do gozo sensual ligado com a carne —, mas nomeie também outros pecados, a que nós seríamos levados a atribuir um carácter também "carnal" e "sensual": "idolatria, malefícios, inimizades, contendas, iras, rixas, discórdias..." (Gál 5, 20-21). Segundo as nossas categorias antropológicas (e éticas), nós estaríamos propensos antes a chamar todas as "obras" aqui indicadas "pecados do espírito" humano, em vez de pecados da "carne". Não sem motivo poderíamos entrever nelas, antes os efeitos da "concupiscência dos olhos" ou da "soberba da vida", do que os efeitos da "concupiscência da carne". Todavia, Paulo qualifica-as todas como "obras da carne". Isto entende-se exclusivamente sobre o fundo daquele significado mais amplo (em certo sentido metonímico), que nas cartas paulinas assume o termo "carne", contraposto não só e não tanto ao "espírito" humano, quanto ao Espírito Santo que opera na alma (no espírito) do homem.

3. Existe, portanto, uma analogia significativa entre aquilo que Paulo define como "obras da carne" e as palavras com que explica Cristo aos seus discípulos o que primeiro dissera aos fariseus acerca da "pureza" e da "impureza" ritual (cf. Mt 15, 2-20). Segundo as palavras de Cristo, a verdadeira "pureza" (como também a "impureza") em sentido moral está no "coração" e provém "do coração" humano. Como "obras impuras", no mesmo sentido, são definidos não só os "adultérios" e as "prostituições", portanto os "pecados da carne" em sentido estrito, mas também os "propósitos malvados... os furtos, os falsos testemunhos e as blasfémias". Cristo, segundo já pudemos verificar, serve-se aqui do significado tanto geral como especifico da "impureza", (e portanto indirectamente também da "pureza"). São Paulo exprime-se de maneira análoga: as obras "da carne" são entendidas no texto paulino em sentido tanto geral como específico. Todos os pecados são expressão da "vida segundo a carne", que está em contraste com a "vida segundo o Espírito". Aquilo que, em conformidade com a nossa convenção linguística (aliás parcialmente justificada), é considerado como "pecado da carne", e, neste sentido, um dos sintomas, isto é, das actualizações da vida "segundo a carne" e não "segundo o Espírito".

4. As palavras de Paulo escritas aos Romanos "Assim, pois, irmãos, não somos devedores à carne para que vivamos segundo a carne. Se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo espírito fizerdes morrer as obras da carne, vivereis" (Rom 8, 12-13) introduzem-nos de novo na rica e diferenciada esfera dos significados, que os termos "corpo" e "espírito" têm para si. Todavia, o significado definitivo daquele enunciado é parenético, exortatório, portanto válido para o "ethos" evangélico. Paulo, quando fala da necessidade de fazer morrer as obras do corpo com a ajuda do Espírito, exprime exactamente aquilo de que falou Cristo no Sermão da Montanha, apelando para o coração humano e exortando-o ao domínio dos desejos, mesmo daqueles que se exprimem no "olhar" do homem dirigido para a mulher com o fim de satisfazer a concupiscência da carne. Tal superação, ou seja, como escreve Paulo, o "fazer morrer as obras do corpo com a ajuda do Espírito", é condição indispensável da "vida segundo o Espírito", quer dizer, da "vida" que é antítese da "morte" de que se fala no mesmo contexto. A vida "segundo a carne" frutifica, na verdade, a "morte", isto é, comporta como efeito a "morte" do Espírito.

Portanto, o termo "morte" não significa só morte corporal, mas também o pecado, que a teologia moral chamará mortal. Nas Cartas aos Romanos e aos Gálatas alarga continuamente o horizonte do "pecado-morte", seja para o "princípio da história do homem, seja para o seu termo. E por isso, depois de catalogar as multiformes "obras da carne", afirma que "os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus" (Gál 5, 21). Noutra passagem escreverá com semelhante firmeza: "Sabei-o bem, nenhum imoral, impuro ou avaro o qual é como um idólatra terá herança no Reino de Cristo e de Deus" (Ef 5, 5). Também neste caso, as obras que excluem de ter "parte no reino de Cristo e de Deus" isto é, as "obras da carne" vêm catalogadas como exemplo e com valor geral, embora no primeiro lugar estejam aqui os pecados contra a "pureza" no sentido específico (cf. Ef 5, 3-7).

5. Para completar o quadro da contraposição entre o "corpo" e o "fruto do Espírito" é necessário observar que em tudo o que é manifestação da vida e do comportamento segundo o Espírito, Paulo vê ao mesmo tempo a manifestação daquela liberdade, para a qual Cristo "nos libertou" (Gál 5, 1). Assim precisamente escreve: "Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não tomeis, porém, a liberdade como pretexto para servir a carne. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade, pois toda a Lei se encerra num só preceito: 'Amarás ao teu próximo como a ti mesmo'" (Gál 5. 13-14). Como já precedentemente fizemos notar, a contraposição "corpo-Espírito", vida "segundo a carne-vida "segundo o Espírito", penetra profundamente toda a doutrina paulina sobre a justificação. O Apóstolo das Gentes, com excepcional força de convicção, proclama que a justificação do homem se completa em Cristo e por Cristo. O homem consegue a justificação na fé que opera por meio da caridade" (Gál 5, 6), e não só mediante a observância de cada uma das prescrições da Lei vetero-testamentária (em particular, da circuncisão). A justificação vem portanto "do Espírito" (de Deus) e não "da carne". Ele exorta, por isso, os destinatários da sua carta a libertarem-se da errónea concepção "carnal" da justificação, para seguirem a verdadeira, isto é, a "espiritual". Neste sentido exorta-os a considerarem-se livres da Lei, e ainda mais a serem livres com a liberdade, para a qual Cristo "nos libertou".

Assim, pois, seguindo o pensamento do Apóstolo, convém-nos considerar e sobretudo realizar a pureza evangélica, isto é, a pureza de coração, segundo a medida daquela liberdade para a qual Cristo "nos libertou".


Saudações

Aos Sacerdotes Legionários de Cristo

Uma saudação particular aos Sacerdotes Legionários de Cristo neo-ordenados, aqui presentes com as suas famílias, amigos, benfeitores e companheiros do Colégio de Roma.

Desejo-vos, com palavras do Apóstolo Paulo, que vos dediqueis com todo o entusiasmo e generosidade ao ministério "de anunciar o evangelho da graça de Deus" (Act 20, 24). Podeis ter a certeza de que o Papa vos acompanha com o seu afecto, do qual é prova a cordial Bênção que vos concedo.

Aos peregrinos das Dioceses de Chiavari e de Savona (Itália)

Dirijo uma cordial saudação aos peregrinos das Dioceses de Chiavari e de Savona, vindos a Roma para participar na cerimónia que teve lugar ontem à tarde na Basílica de São Pedro para a Ordenação Episcopal de onze Prelados.

Caríssimos, ao voltardes para as vossas casas, após esta experiência de fé, levai convosco e transmiti àqueles que vos são queridos a certeza da minha paterna benevolência, e a minha Bênção Apostólica.

Aos Doentes

A vós, doentes, para mim tão queridos, a quem o Divino Redentor deu coma dom misterioso o sofrimento, dirijo a minha afectuosa saudação e a de todo o Povo de Deus. Jesus, que se fez criança frágil e fraca, vos dê também o dom da força, que é o da doação, da dedicação e da ocultação. Confio ao vosso meritório sofrimento toda a igreja, a fim de que seja sempre claro testemunho, constante e forte, da morte e da ressurreição de Jesus Cristo. A minha Bênção Apostólica vos sirva de conforto e àqueles que vos são queridos.

 

© Copyright 1981 - Libreria Editrice Vaticana

 



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