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JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2001

 

Todas as criaturas louvem ao Senhor

Queridos irmãos e irmãs,

1. O cântico que acabou de ser proclamado é constituído pela primeira parte de um longo e bonito hino que se encontra inserido na tradução grega do livro de Daniel. Cantam-no três jovens hebreus lançados numa fornalha por terem recusado adorar a estátua do rei de Babilónia, Nabucodonosor. Outra parte do mesmo cântico é proposto pela Liturgia das Horas para as Laudes do domingo, na primeira e na terceira semana do Saltério litúrgico.

O livro de Daniel, como se sabe, reflecte os fermentos, as esperanças e também as expectativas apocalípticas do povo eleito, o qual, na época dos Macabeus (II século a. C.) lutava para poder viver de acordo com a Lei dada por Deus.

Na fornalha, os três jovens, milagrosamente preservados das chamas, cantam um hino de louvor dirigido a Deus. Este hino é semelhante a uma ladainha, repetitiva e, ao mesmo tempo, nova:  as suas invocações elevam-se até Deus como espirais de incenso, que percorrem o espaço em formas semelhantes mas nunca iguais. A oração não teme a repetição, como o apaixonado não hesita declarar infinitas vezes à amada todo o seu afecto. Insistir nas mesmas questões é sinal de intensidade e de numerosas formas nos sentimentos, nas pulsações interiores e nos afectos.

2. Ouvimos proclamar o início deste hino  cósmico,  contido  no  terceiro  capítulo  de  Daniel,  nos  versículos  52-57. É  a  introdução,  que  precede  o  grandioso  desfile  das  criaturas  envolvidas no  louvor.  Um  olhar  panorâmico para todo  o  cântico  no  seu  prolongamento litânico,  faz-nos  descobrir  uma  sucessão de elementos que constituem o enredo de todo o hino. Ele começa com seis invocações dirigidas directamente a Deus; a elas, segue-se um apelo universal a "todas as obras do Senhor", para que abram os seus lábios imaginários ao louvor (cf. v. 57).

É esta a parte sobre a qual hoje reflectimos e que a liturgia propõe para as Laudes do domingo da segunda semana. Logo a seguir, o cântico prolonga-se convocando todas as criaturas do céu e da terra para louvar e engrandecer o seu Senhor.

3. O nosso trecho inicial será retomado outra vez pela liturgia, nas Laudes do domingo da quarta semana. Por isso, escolheremos agora apenas alguns elementos para a nossa reflexão. O primeiro é o convite ao louvor:  "Bendito, sois, Senhor...", que, no final, se transforma em "Bendizei...!".

Existem na Bíblia duas formas de bênção, que se entrelaçam entre si. Por um lado, encontra-se a que vem de Deus:  o Senhor abençoa o seu povo (cf. Nm 6, 24-27). É uma bênção eficaz, fonte  de  fecundidade,  felicidade  e  prosperidade.  Por  outro,  encontra-se  o louvor que da terra se eleva para o céu. O homem, beneficiado pela generosidade  divina,  bendiz  a  Deus,  louvando-o, agradecendo-lhe, exclamando:  "Bendiz, ó minha alma, o Senhor!" (Sl 102, 1; 103, 1).

A  bênção  divina  é  muitas  vezes mediada  pelos  sacerdotes  (cf.  Nm  6, 22-23.27; Sir 50, 20-21)  através  da imposição  das  mãos;  ao  contrário, o louvor humano é expresso no hino litúrgico, que a assembleia dos fiéis eleva ao Senhor.

4. Outro elemento que consideramos no âmbito do trecho agora proposto à nossa meditação é constituído pela antífona. Poderíamos imaginar que o solista, no templo repleto de povo, entoasse o louvor:  "Bendito sois vós, Senhor...", enumerando as várias maravilhas divinas, enquanto a assembleia dos fiéis repetia constantemente a fórmula:  "Sois digno de louvor e de glória pelos séculos dos séculos". Era o que já acontecia com o Salmo 135, o chamado "Grande Hallel", ou seja, o grande louvor, onde o povo repetia:  "É eterna a vossa misericórdia", enquanto um solista enumerava os vários actos de salvação realizados pelo Senhor em favor do seu povo.

Objecto de louvor, no nosso Salmo, é em primeiro lugar o nome "glorioso e santo" de Deus, cuja proclamação ressoa no templo, também ele "santo glorioso". Os sacerdotes e o povo, enquanto contemplam, na fé, Deus que está sentado "no trono do Seu reino", sentem o Seu olhar sobre si, que "penetra os abismos" e esta consciência faz surgir do seu coração o louvor. "Bendito... bendito...". Deus, que "está sentado em cima dos querubins" e tem como habitação o "firmamento do céu", contudo está próximo do seu povo, que por isso se sente protegido e seguro.

5. A proposta deste cântico repetida na manhã de domingo, a Páscoa semanal dos cristãos, é um convite a abrir os olhos diante da nova criação que teve origem precisamente com a ressurreição de Jesus. Gregório de Nissa, um Padre da Igreja grega do quarto século, explica que com a Páscoa do Senhor "são criados um novo céu e uma nova terra... é plasmado um homem diferente renovado à imagem do seu criador através do nascimento do alto" (cf. Jo 3, 3.7). E continua:   "Assim  como  quem  olha para  o  mundo  sensível  deduz  por  meio das  coisas  visíveis  a  beleza  invisível... assim  quem  olha  para  este  novo mundo da criação eclesial vê nele Aquele que se tornou tudo em todos, orientando a mente pela mão, através das coisas compreensíveis da nossa natureza racional, isto é, para quem supera a compreensão humana" (Langerbeck H., Gregorii Nysseni Opera, VI, 1-22 passim, pág. 385).

Por conseguinte, ao entoar este cântico, o crente cristão é convidado a contemplar o mundo da primeira criação, entrevendo nele o perfil da segunda, inaugurada com a morte e a ressurreição do Senhor Jesus. E esta contemplação conduz a todos pela mão, para entrarem, quase dançando de alegria, na única Igreja de Cristo.


Saudações

Amados peregrinos de língua portuguesa, também vós sois convidados a bendizer o Criador, que é "digno de louvor e glória para sempre". Sois uma bênção de Deus e obra do seu amor. Eu bendigo o Senhor por cada um de vós; e imploro, para o coração e o lar de todos, a alegria e a paz do natal do Deus Menino.

Saúdo cordialmente os peregrinos de língua espanhola, em especial os oficiais e cadetes da Escola Penitenciária da Nação e da Escola Federal da Polícia, da Argentina. Convido-vos ardentemente a todos, reconhecendo e louvando a Deus, criador e pai do género humano, a incrementar o vosso respeito por cada pessoa e a fomentar a paz.

Obrigado pela vossa atenção.

É com alegria que recebo os peregrinos de língua francesa. Oxalá este tempo do Advento, durante o qual todos somos convidados a rezar e a jejuar pela paz entre os povos, renove a vossa fé e vos prepare para receber o Príncipe da paz! Concedo de bom grado a todos a Bênção apostólica.

Louvado seja Jesus Cristo!

Saúdo os peregrinos da Ucrânia, que vieram a Roma para me retribuir a Visita que realizei à sua terra.

Queridos Irmãos e Irmãs, agradeço-vos a vossa presença e desejo de coração a cada um de vós que a vossa peregrinação seja rica de frutos espirituais. Oxalá a visita aos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo fortaleça a vossa fé, de maneira a que vos torneis testemunhas cada vez mais credíveis do Evangelho.

Concedo de coração a todos vós e aos vossos queridos a Bênção apostólica.

Louvado seja Jesus Cristo.

Por fim, a minha saudação dirige-se aos jovens, aos doentes, e aos novos casais. No clima espiritual do Advento, tempo de esperança que nos prepara para o Natal, está presente de maneira particular Maria, a Virgem da espera. Confio-vos a ela, queridos jovens, para que possais aceitar com vigor o convite  de  Cristo  para  realizar  plenamente  o  seu  Reino.  Exorto-vos  a  vós, queridos doentes, e de modo especial a vós, caros pequenos hóspedes do "Piccolo Cottolengo Don Orione", de Tortona, a oferecer o vosso sofrimento juntamente com Maria, para a salvação da humanidade.  Que  a  materna  intercessão  de Maria,  vos  ajude  a  vós,  estimados novos casais, a fundar a vossa família num amor fiel e aberto ao acolhimento da vida. 

 



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