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VIAGEM APOSTÓLICA À COSTA RICA, NICARÁGUA, PANAMÁ,
 EL SALVADOR, GUATEMALA, HONDURAS, BELIZE E HAITI
[2 - 10 DE MARÇO DE 1983]

CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA EM MANÁGUA

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Praça 19 de Julho, Manágua, Nicarágua
Sexta-feira, 4 de Março de 1983

 

Queridos Irmãos no Episcopado
amados irmãos e irmãs

1. Encontramo-nos aqui reunidos junto do altar do Senhor. Que alegria encontrar-me no meio de vós, meus queridos sacerdotes, religiosos, religiosas, seminaristas e leigos — congregados ao redor dos vossos Pastores — desta amada terra da Nicarágua, tão provada, tão heróica diante das calamidades naturais que a afligiram, tão vigorosa e activa para responder aos desafios da história e procurar edificar uma sociedade à medida das necessidades materiais e da dimensão transcendente do homem!

Saúdo em primeiro lugar, com sincero afecto e estima, o Pastor e Arcebispo desta cidade de Manágua, os outros Bispos, todos e cada um de vós, anciãos e jovens, ricos e pobres, trabalhadores e empresários, porque em todos vós está presente Jesus Cristo, "Primogénito de muitos irmãos" (Rom. 8, 29); d'Ele "fostes revestidos" no vosso Baptismo (cf. Gál. 3, 27); assim "todos vós sois um só em Cristo" (Ibid. 28).

2. Os textos bíblicos, que acabam de ser proclamados nesta Eucaristia, falam-nos da unidade.

Trata-se, antes de tudo, da unidade da Igreja, do Povo de Deus, do "rebanho" do único Pastor. Mas também, como ensina o Concilio Vaticano II, da "unidade de todo o género humano", da qual, como "íntima união" de todo o homem "com Deus", a Igreja una é "como um sacramento ou sinal" (cf. Lumen gentium, 1).

A triste herança da divisão entre os homens, provocada pelo pecado de orgulho (cf. Gén. 11, 4.9), perdura ao longo dos séculos. As consequências são as guerras, opressões, perseguições de uns aos outros, ódios, conflitos de toda a espécie.

Jesus Cristo, pelo contrário, veio para restabelecer a unidade perdida, para que houvesse "um só rebanho" e "um só pastor" (Jo. 10, 16); um pastor cuja voz as ovelhas "conhecem", mas não conhecem a dos estranhos (Ibid. 4-5); Ele, que é a única "porta", pela qual é preciso entrar (Ibid. 1).

A unidade é a tal ponto motivo do ministério de Jesus, que Ele morreu "para trazer à unidade os filhos de Deus que andavam dispersos" (Jo. 11, 52). Assim no-lo ensina o evangelista S. João, ao mostrar-nos Jesus rogando ao Pai pela unidade da comunidade por Ele confiada aos seus apóstolos (Ibid. 17, 11-12).

Jesus Cristo, com a sua morte e ressurreição, e com o dom do seu Espírito, restabeleceu a unidade entre os homens, deu-a à sua Igreja e fez desta, conforme diz o Concílio, "como um sacramento ou sinal da intima união com Deus e a unidade de todo o género humano" (Lumen gentium, 1).

3. A Igreja é a Família de Deus (cf. Puebla, 238-249). Como numa família deve reinar a unidade na ordem, assim também na Igreja. Nela, ninguém tem mais direito de cidadania que o outro: nem os judeus, nem os gregos, nem os escravos, nem os livres, nem os homens, nem as mulheres, nem os pobres, nem os ricos, porque todos "somos um só em Cristo" (Gál. 3, 28).

Essa unidade está baseada em "um único Senhor, uma única fé, um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos e actua por meio de todos e se encontra em todos", como diz o texto da Epístola aos Efésios que acabámos de escutar (Ef. 4, 5), e como estais habituados a cantar nas vossas celebrações.

Temos de estimar a profundidade e solidez dos fundamentos da unidade de que usufruímos na Igreja universal, na de toda a América Central, e à qual deve necessariamente tender esta Igreja local da Nicarágua. Precisamente por isso devemos avaliar também de maneira justa os perigos que a ameaçam, e a exigência de manter e aprofundar essa unidade, dom de Deus em Jesus Cristo.

Porque, como dizia na minha carta aos Bispos da Nicarágua, de Junho passado (cf. L'Osservatore Romano, edição espanhola de 8 de Agosto de 1982, p. 9), este "dom" é talvez mais precioso precisamente porque é "frágil" e está "ameaçado".

4. De facto, a unidade da Igreja é posta em questão quando aos poderosos factores que a constituem e mantêm — a mesma fé, a Palavra revelada, os sacramentos, a obediência aos Bispos e ao Papa, o sentido de uma vocação e responsabilidade comum na missão de Cristo no mundo —, são antepostos considerações terrenas, compromissos ideológicos, opções temporais, inclusivamente concepções da Igreja que suplantam a verdadeira.

Sim, meus queridos irmãos centro-americanos e nicaraguenses: quando o cristão, seja qual for a sua condição, prefere qualquer outra doutrina ou ideologia ao ensinamento dos Apóstolos e da Igreja; quando se faz dessas doutrinas o critério da nossa vocação; quando se pretende interpretar de novo segundo as suas categorias a catequese, o ensino religioso, a pregação; quando se instalam "magistérios paralelos", como disse na minha alocução inaugural da conferência de Puebla (28 de Janeiro de 1979), então debilita-se a unidade da Igreja, torna-se mais difícil o exercício da sua missão de ser "sacramento de unidade" para todos os homens.

A unidade da Igreja significa e exige de nós a superação total de todas estas tendências de dissociação; significa e exige a revisão da nossa escala de valores. Significa e exige que submetamos as nossas concepções doutrinais e os nossos projectos pastorais ao magistério da Igreja, representado pelo Papa e os Bispos. Isto aplica-se também no campo da doutrina social da Igreja, elaborada pelos meus Predecessores e por mim mesmo.

Nenhum cristão, e menos ainda qualquer pessoa com título de especial consagração na Igreja, pode tornar-se responsável de ruptura desta unidade, agindo à margem ou contra a vontade dos Bispos "que a Espírito Santo constituiu para apascentarem a Igreja de Cristo" (Act. 25, 28). Isto é válido em todas as situações e Países, sem que qualquer processo de desenvolvimento ou de elevação social que se empreenda possa legitimamente comprometer a identidade e a liberdade religiosa de um povo, a dimensão transcendente da pessoa humana e o carácter sagrado da missão da Igreja e dos seus ministros.

5. A unidade da Igreja é obra e dom de Jesus Cristo. Ela é construída com referência a Ele e ao redor d'Ele. Todavia, Cristo confiou aos Bispos um importantíssimo ministério de unidade nas suas Igrejas locais (cf. Lumen gentium, 28). A eles, em comunhão com o Papa e nunca sem ele (ibid., 22), compete promover a unidade da Igreja e, deste modo, construir nessa unidade as comunidades, os grupos, as diversas tendências e as categorias de pessoas que existem numa Igreja local e na grande comunidade da Igreja universal. Apoio-vos nesse empenho unitário, que se reforçará com a vossa próxima visita ad limina.

Uma prova da unidade da Igreja num determinado lugar é o respeito às orientações pastorais dadas pelos Bispos ao seu clero e fiéis. Essa acção pastoral orgânica é uma poderosa garantia da unidade eclesial. Um dever que pertence especialmente aos sacerdotes, religiosos e demais agentes da pastoral.

Mas o dever de construir e manter a unidade é também uma responsabilidade de todos os membros da Igreja, vinculados pelo Único Baptismo, na mesma profissão de fé, na obediência ao próprio Bispo e fiéis ao Sucessor de Pedro.

Queridos irmãos: tende bem presente que há casos em que a unidade só se salva quando cada um é capaz de renunciar a ideias, planos e compromissos próprias, até mesmo bons — tanto mais quando desprovidas da necessária referência eclesial — em favor do bem superior da comunhão com o Bispo, com o Papa, com toda a Igreja.

De facto, uma Igreja dividida, como já dizia na minha carta aos vossos Bispos, não poderá cumprir a sua missão "de sacramento, isto é, sinal e instrumento de unidade no País". Por isso, eu alertava sobre "o absurdo e perigoso que é imaginar-se como ao lado — para não dizer contra — da Igreja construída ao redor do Bispo, outra Igreja concebida só como "carismática" e não institucional, "nova" e não tradicional, alternativa e, como se preconiza ultimamente, uma "Igreja popular". Quero hoje reafirmar estas palavras, aqui diante de vós.

A Igreja deve manter-se unida para poder opor-se às diversas formas, directas ou indirectas, de materialismo que a sua missão encontra no mundo.

Deve permanecer unida para anunciar a verdadeira mensagem do Evangelho — segundo as normas, da Tradição e do Magistério — e que esteja livre de deformações devidas a qualquer ideologia humana ou programa político.

O Evangelho assim entendido conduz ao espírito de verdade e de liberdade dos filhos de Deus, para que eles não se deixem ofuscar por propagandas antieducadoras ou contingentes, ao mesmo tempo que educa o homem para a vida eterna.

6. A Eucaristia que estamos a celebrar é em si mesma sinal e causa de unidade. Somos todos um, sendo muitos "os que participamos do mesmo pão"(1 Cor. 10, 17) que é o corpo de Cristo. Na oração eucarística, que pronunciaremos dentro de alguns instantes, pediremos ao Pai que, pela participação do corpo e do sangue de Cristo, faça de nós "um só corpo e um só espírito" (III Oração eucarística).

Para conseguir isto é preciso um compromisso sério e formal de respeitar o carácter fundamental da eucaristia como sinal de unidade e vínculo de caridade.

Por isso, não se celebra a Eucaristia sem o Bispo — ou o ministro legítimo, isto é, o sacerdote — que é na sua diocese o presidente nato de uma celebração eucarística digna deste nome (cf. Sacrosanctum Concilium, 41). Nem se celebra adequadamente quando esta referência eclesial se perde ou se deturpa porque não se respeita a estrutura litúrgica da celebração, tal como foi estabelecido pelos meus Predecessores e por mim mesmo. A Eucaristia que se põe ao serviço das próprias ideias e opiniões ou a finalidades estranhas a ela mesma, não é já uma Eucaristia da Igreja. Em vez de unir, divide.

Que esta Eucaristia à qual eu mesmo, Sucessor de São Pedro e "fundamento da unidade visível" (cf. Lumen gentium,18), presido e na qual participam os vossos Bispos ao redor do Papa, vos sirva de modelo e renovado impulso no vosso comportamento como cristãos.

Amados sacerdotes: renovai assim a unidade entre vós e com os vossos Bispos, a fim de a conservar e a fazer crescer nas vossas comunidades. E vós, religiosos, estai sempre unidos à pessoa e às directrizes dos vossos Bispos. Seja o serviço de todos à unidade, um verdadeiro serviço pastoral ao rebanho de Jesus Cristo e no Seu nome. E vós, Bispos, estai muito junto dos vossos sacerdotes.

7. Neste contexto deve-se inserir igualmente o verdadeiro ecumenismo, ou seja, o empenho pela unidade entre todos os cristãos e todas as comunidades cristãs. Uma vez mais digo-vos que essa unidade se pode fundar só em Jesus Cristo, no único Baptismo (cf. Ef. 4, 5) e na comum profissão de fé. A tarefa de reconstruir a plena comunhão entre todos os cristãos não pode ter outra referência e outros critérios, e deverá usar sempre métodos de leal colaboração e busca. Não pode servir senão para dar testemunho de Jesus Cristo "para que o mundo creia" (cf.Jo. 17, 21).

Outra finalidade ou outro uso do empenho ecuménico não pode levar senão a criar unidades ilusórias e, em última instância, a causar novas divisões. Que triste seria, se o que deve ajudar a reconstruir a unidade e constitui uma das prioridades pastorais da Igreja neste momento da história, se convertesse, por falta de visão dos homens, devido a critérios errados, em fonte de novas e piores rupturas!

São Paulo exorta-nos, por isso, na passagem há pouco lida, a "conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz" (Ef. 4, 3).

Repito-vos esta exortação e indico-vos uma vez mais as bases e a meta dessa unidade. "Há um só Corpo e um só Espírito, como existe uma só esperança no chamamento que recebestes. Há um único Senhor, uma única fé, um único Baptismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, actua por meio de todos e Se encontra em todos" (ibid. 4, 5).

8. Amados irmãos: falei-vos de coração a coração. Exaltei e recomendei a todos vós esta vocação e missão da unidade eclesial. Estou certo de que vós, povo da Nicarágua, que fostes sempre fiéis à Igreja, continuareis a sê-lo também no futuro.

O Papa e a Igreja, assim esperam de vós. E isto peço a Deus para vós, com grande afecto e confiança. Que a intercessão de Maria, a Puríssima, como lhe chamais com nome tão formoso, e é Padroeira da Nicarágua, vos ajude a ser sempre constantes nesta vocação de unidade e fidelidade eclesial. Assim seja.

 


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