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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À POLÓNIA
(16-23 DE JUNHO DE 1983)

CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA EM JASNA GÓRA

HOMILIA DO SANTO PADRE

Domingo, 19 de Junho de 1983

 

1. "Grande é o Senhor e digno de louvor / na cidade do nosso Deus, seu monte santo. / Formosa altura, alegria de toda a terra. / Como nos contaram, assim nós vimos / na cidade do Senhor dos exércitos, / na cidade do nosso Deus: / Deus consolida-a para sempre" (Sl. 48/47, 2-3.9).

Com estas palavras do Salmo da Liturgia de hoje, desejo sobretudo dar glória ao único Deus. Para a glória do Deus Eterno, Pai e Filho e Espírito Santo, para a glória da Santíssima Trindade, a Igreja na Polónia, sob a orientação dos seus Pastores, celebra de modo solene o jubileu nacional, juntamente com o sexcentésimo aniversário de Jasna Góra; há seis séculos está presente neste "monte santo" a Mãe de Deus, como Mãe e como Rainha da nossa Nação, por meio da sua Efígie famosa pelas graças concedidas.

Venho, pois, em peregrinação para dar glória a Deus Eterno neste santuário nacional da minha Pátria, no qual a Senhora mesma de Jasna Góra, como Serva do Senhor, dá à Santíssima Trindade toda a honra e glória, todo o amor e gratidão, aquilo que Ela mesma aqui recebe.

2. Agradeço a Deus, que me permitiu encontrar-me na soleira do santuário de Jasna Góra, nesta maravilhosa "cidade do nosso Deus", onde — como se exprime o Poeta — "É suficiente estar no limiar, basta respirar, para respirar Deus" (C. K. Norwid, Provas); que nos concedeu hoje celebrarmos aqui o santíssimo Sacrifício eucarístico, que encerra as celebrações de agradecimento pelos seis séculos, que duram já há um ano e que foram prolongados até este ano.

Para esta solenidade a Igreja na Polónia preparou-se durante seis anos, tal como fizera para o Milénio do Baptismo, durante nove anos, mediante a Grande Novena.

Saúdo de coração todos os presentes, Cardeais, Arcebispos, Bispos, Sacerdotes, Famílias religiosas masculinas e femininas — todos os Peregrinos: Compatriotas e Visitantes vindos do estrangeiro. Juntamente convosco, caros Irmãos e Irmãs, como Bispo de Roma e também filho desta terra polaca, sinto a alegria de poder glorificar a Santíssima Trindade, louvando a Mãe de Deus depois de seis séculos de presença no lugar particularmente a Ela predilecto.

"Revivemos, ó Deus, as Vossas graças, / no meio do Vosso templo. / Como o Vosso nome, ó Deus, / assim é a Vossa glória, / até aos confins da terra; / a Vossa mão direita está cheia de justiça" (ibid. vv. 10-11).

Viemos para louvar a justiça de Deus e a sua benignidade, que se manifestaram dentro deste templo; e, com o cântico de louvor da liturgia, os nossos corações anseiam por Maria enquanto repetimos:

"Tu, esplêndida honra do nosso povo" (Jdt. 15, 9).

3. A Liturgia exprime o admirável mistério do santuário de Jasna Góra, antes de tudo, ao apresentar-nos o trecho do Evangelho de João sobre as Bodas de Caná da Galileia.

Este texto fala da presença da Mãe de Jesus, "e a Mãe de Jesus estava presente", e diz que o próprio Jesus e os Seus discípulos tinham sido convidados. Isto, de facto, ocorre no início do ensinamento do Filho de Maria, no início da sua vida pública na Galileia.

O acontecimento evangélico recorda-nos, em primeiro lugar, o Milénio mesmo do Baptismo. Com efeito, mediante aquele acontecimento de 966, mediante o Baptismo no início da nossa história, Jesus Cristo foi convidado para vir à nossa Pátria, quase como a uma Caná polaca. E, com Ele, logo foi convidada a Sua Mãe. Ela veio e esteve presente juntamente com o seu Filho, como confirmam numerosos testemunhos dos primeiros séculos do cristianismo na Polónia, e de modo particular o canto "Bogurodzica" (Mãe de Deus).

O ano 1382-1383 da nossa história enfere quase uma nova forma àquele convite. A imagem de Jasna Góra traz consigo um novo sinal da presença da Mãe de Jesus. Pode dizer-se que naquela época também o próprio Cristo de um modo novo foi convidado para a nossa história. Foi convidado a manifestar o seu poder salvífico, tal como fez pela primeira vez em Caná da Galileia. Foi convidado a fim de que os filhos e as filhas da terra polaca se encontrassem sob a influência do poder salvífico do Redentor do mundo.

Em Caná da Galileia, Maria diz aos servidores do banquete nupcial: "Fazei o que Ele vos disser" (Jo. 2, 5), isto é, tudo o que Ele vos disser, fazei-o. A partir de 1382, Maria apresenta-se diante dos filhos e das filhas desta terra, diante de inteiras gerações, e repete as mesmas palavras. Deste modo, Jasna Góra torna-se um lugar especial de evangelização. A Palavra da Boa Nova adquire aqui uma expressividade excepcional, e ao mesmo tempo a Mãe faz-se dela quase mediadora. Jasna Góra trouxe à história da Igreja, da nossa terra e a todo o nosso cristianismo polaco aqueles traços maternos, cujos inícios estão ligados ao acontecimento de Caná da Galileia.

4. "Tudo o que Ele vos disser, fazei-o". E Cristo, que nos diz? Não é porventura, antes de tudo, o que encontramos no texto tão denso da epistola de São Paulo aos Gálatas, que constitui a segunda leitura de hoje?

"Deus enviou o Seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que se encontravam sob o jugo da Lei e para que recebêssemos a adopção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito que clama: 'Abbá! Pai'. Portanto, já não és escravo, mas filho; e, se és filho, também és herdeiro, pela graça de Deus" (Gál. 4, 4-7).

Isto nos diz Cristo, de geração em geração. Di-lo através de tudo o que por Ele é feito e ensinado. Di-lo antes de tudo mediante aquilo que Ele é. É o Filho de Deus — e veio dar-nos a adopção como filhos. Recebendo do poder do Espírito Santo a dignidade de filhos de Deus, em virtude daquele Espírito dizemos a Deus: "Pai". Como filhos de Deus não podemos ser escravos. A nossa filiação divina traz em si a herança da liberdade.

Cristo presente juntamente com a sua Mãe numa Caná polaca põe diante de nós, de geração em geração, a grande causa da liberdade. A liberdade foi dada por Deus ao homem como medida da sua dignidade. Todavia, ao mesmo tempo, ela foi-lhe dada como tarefa: "A liberdade não é um alívio, mas sim a fadiga da grandeza" (L. Staff, Eis o teu canto). O homem, de facto, pode usar a liberdade bem ou mal. Pode por meio dela construir ou destruir. Na evangelização de Jasna Góra está contido o chamamento à herança dos filhos de Deus. O chamamento a viver a liberdade. A fazer bom uso da liberdade. A edificar e não a destruir.

Esta evangelização de Jasna Góra, para viver numa liberdade digna dos filhos de Deus, tem uma sua longa história, de seis séculos. Maria em Caná da Galileia colabora com o seu Filho. O mesmo se verifica em Jasna Góra. Quantos peregrinos passaram pelo Santuário de Jasna Góra durante seis séculos? Quantos se converteram aqui, passando do mau ao bom uso da própria liberdade? Quantos readquiriram a verdadeira dignidade de filhos adoptivos de Deus? Quanto poderia contar a propósito disto a capela da Imagem de Jasna Góra? Quanto poderiam dizer os confessionários da inteira Basílica? Quanto poderia dizer a Via-Sacra ao longo dos muros? Um grande capitulo de história das almas! Talvez isto constitua a mais fundamental dimensão do sexcentésimo aniversário de Jasna Góra. Ela permaneceu e continua a permanecer nos homens vivos, nos filhos e nas filhas desta terra, quando Deus envia aos corações deles o Espírito do Seu Filho, de tal sorte que com toda a verdade interior podem clamar: "Abbá, Pai!".

5. Todavia, a evangelização da liberdade em Jasna Góra tem ainda uma outra dimensão. É a dimensão da liberdade da Nação, da Pátria livre, restituída à dignidade de Estado soberano. A Nação é verdadeiramente livre quando pode configurar-se como comunidade determinada pela unidade de cultura, de língua, de história. O Estado é solidamente soberano quando governa a sociedade e também serve o bem comum da sociedade e consente que a Nação se realize na sua própria subjectividade, na sua própria identidade. Isto comporta entre outras coisas a criação de oportunas condições de desenvolvimento no campo da cultura, da economia e nos outros sectores de vida da comunidade social. A soberania do Estado está profundamente ligada à sua capacidade de promover a liberdade da Nação, isto é, de proporcionar condições que lhe permitam exprimir toda a sua peculiar identidade histórica e cultural, ou seja, ser soberana mediante o Estado.

Estas verdades elementares de ordem moral são propostas de modo dramático no espaço dos séculos, durante os quais a Efígie de Jásna Gora testemunhou a especial presença da Mãe de Deus na história da nossa Nação.

6. O início desta presença está ligado ao período da passagem dos tempos dos Piastas ao os Jagelões. Pode dizer-se que este início precede o período mais favorável da nossa história: o "século áureo". Hoje, desejamos também agradecer estes séculos de grande desenvolvimento e de prosperidade. A experiência histórica indica, todavia, que Maria nos foi dada na Sua imagem de Jasna Góra antes de tudo para os tempos difíceis.

O anúncio destes tempos foi, no século XVII, o período do "Dilúvio" (por nós conhecido tão bem pelo romance de Sienkjewicz). Desde o tempo em que Jasna Góra resistiu à pressão dos Suecos, desde quando depois disto a pátria inteira se libertou dos invasores, teve início um vínculo particular do Santuário de Jasna Góra com a história cada vez mais difícil da Nação. A Mãe de Deus foi proclamada, segundo a promessa de João Casimiro, a Rainha da Polónia.

Com o decorrer do tempo, o dia 3 de Maio, ligado à comemoração do aniversário da Constituição, tornar-se-á a festa da Rainha da Polónia, d'Aquela que foi "dada para a defesa da Nação polaca". Esta Constituição confirma de modo irrefutável a vontade de conservar a independência da Pátria mediante a promulgação de oportunas reformas. Infelizmente, quase no dia seguinte à proclamação da Constituição, foi-lhe tirada a independência, e ela teve de ceder contemporaneamente à prepotência de três partes. Deste modo foi violado o fundamental direito da Nação, um direito de ordem moral.

Durante a precedente peregrinação na Pátria, em 1979, eu disse em Jasna Góra que aqui, sempre, estivemos livres. É difícil exprimir de outra maneira o que representou a Imagem da Rainha da Polônia para todos os Polacos no tempo, durante o qual a pátria deles foi cancelada do mapa da Europa como Estado independente. Sim! Aqui, em Jasna Góra, estava depositada também a esperança da Nação e a perseverante tensão para a recuperação da Independência, expressa nestas palavras: "Diante dos Vossos altares trazemos súplicas, Senhor, dignai-Vos restituir-nos a Pátria livre".

E é também aqui que aprendemos a fundamental verdade sobre a liberdade da Nação: a Nação perece se é deformado o seu espírito, a Nação cresce quando este seu espírito se purifica cada vez mais, e nenhuma força externa é capaz de o destruir.

7. Celebrámos o Milénio do Baptismo quando — desde o ano de 1918 — a Polónia como Estado soberano foi incluída no mapa da Europa; ele foi celebrado depois da horrível experiência da segunda guerra mundial e da ocupação. O Jubileu do sexcentésimo aniversário da Imagem de Jasna Góra é quase um indispensável complemento daquele do Milénio. O complemento da grande causa, de uma causa essencial para a história dos homens e para a da Nação.

O nome desta causa é: Rainha da Polónia.

O nome desta causa é: Mãe.

Temos uma situação geopolítica muito difícil. Temos uma história muito difícil, especialmente no arco dos últimos séculos. As dolorosas experiências da história estimularam a nossa sensibilidade no campo dos fundamentais direitos do homem e da Nação: de modo particular, do direito à liberdade, ao ser soberano, ao respeito da liberdade de consciência e de religião, dos direitos do trabalho humano... Temos também diversas fraquezas e defeitos humanos, pecados, antes pecados graves, que devemos continuamente ter presentes — e sempre libertar-nos deles...

Mas — caros Irmãos e Irmãs, Compatriotas muito amados — mesmo no meio de tudo isto, temos em Jasna Góra a nossa Mãe.

Ela é Mãe solicita, tal como o foi em Caná da Galileia.

Ela é Mãe exigente, tal como toda a Mãe é exigente.

Mas, ao mesmo tempo, é Mãe que ajuda: nisto se exprime o poder do seu Coração materno.

Ela, enfim, é a Mãe de Cristo, daquele Cristo que, para usar as palavras de São Paulo, repete constantemente a todos os homens e a todos os povos: "Não és mais escravo, mas filho; e, se és filho, também és herdeiro, pela graça de Deus" (Gál 4, 7).

8. Segundo o conteúdo do Evangelho de hoje, desejamos convidar Cristo ao futuro desenrolar da história da nossa Pátria, tal como foi convidado, juntamente com a sua Mãe, a Caná da Galileia.

Precisamente isto significa o jubileu de Jasna Góra na nossa Pátria. Ele é o tempo do agradecimento e de igual modo o tempo do convite.

Deste modo, este nosso Jubileu nacional de Jasna Góra coincide na Igreja universal com o Jubileu do Ano da Redenção. Unimo-nos à Redenção do mundo operada na Cruz, mediante os 1950 anos após o seu transcurso, olhando juntos para a data que deve encerrar o segundo milénio depois de Cristo na história da humanidade, e inaugurando o terceiro.

E eis que, num tal contexto histórico, desejamos convidar Cristo, por meio de Nossa Senhora de Jasna Góra, para o nosso futuro. Antes de mais para este futuro imediato, que já está compreendido nos limites da presente geração de homens e da Nação. E também para o futuro mais longínquo, segundo a vontade e os desígnios de Deus Omnipotente.

Dizemos a Cristo por meio de Maria: estai connosco em todo o tempo!

E este convite depositamo-lo aqui, em Jasna Góra.

9. Abraçamos com o olhar e com o coração todo este Santuário: Jasna Góra, a nossa Caná da Galileia polaca.

Pensamos no nosso futuro. E o futuro começa hoje. Aqui nos reunimos hoje no Ano do Senhor de 1983.

Hoje voltamos a olhar para os teus olhos, ó Mãe!

Ó Maria, que percebeste em Caná da Galileia que "eles não têm mais vinho" (Jo. 2, 3)...

Ó Maria! Tu, porém, conheces tudo o que nos falta! Tudo o que nos aflige. Conheces os nossos sofrimentos, as nossas culpas e as nossas aspirações. Tu sabes o que perturba os corações da Nação a Ti consagrada por ocasião do milénio, "na materna escravidão do amor...".

Dize ao Filho!

Fala ao Filho do nosso difícil "hoje". Fala do nosso difícil "hoje" a este Cristo, que viemos convidar para todo o nosso futuro. Este futuro começa "hoje", e depende de como será no nosso "hoje".

Em Caná da Galileia, quando veio a faltar o vinho, disseste aos servidores, apontando para Cristo: "Fazei o que Ele vos disser" (Jo, 2, 5).

Pronuncia estas palavras também a nós!

Pronuncia-as sempre! Volta a repeti-las sem cessar! Ó Mãe daquele Cristo, que é Senhor do século futuro...

E faze que nós, neste nosso difícil "hoje", escutemos o Teu Filho. Que O escutemos dia após dia, em todas as nossas obras. Que O escutemos mesmo quando Ele diz coisas difíceis e exigentes. A quem iremos? Ele tem palavras de vida eterna! (cf. Jo. 6, 68).

O Evangelho é a alegria da fadiga, e ao mesmo tempo é a fadiga da alegria e da salvação.

Ó Mãe! Ajuda-nos a passar, com o Evangelho no coração, através do nosso difícil "hoje", para o futuro, para o qual convidámos Cristo.

Ajuda-nos a passar do nosso difícil "hoje" rumo àquele futuro para o qual convidámos Cristo — o Príncipe da Paz.

10. Abraçamos uma vez mais com o olhar e com o coração o nosso santuário de Jasna Góra. Estejamos atentos às palavras do Salmo da liturgia de hoje: 

"Percorrei Sião, dai-lhe a volta, / contai as suas torres... / para narrardes às gerações futuras: / Como Deus é grande, o nosso Deus dos séculos eternos" (Sl. 47/48, 13-15).

 



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