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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À POLÓNIA
(16-23 DE JUNHO DE 1983)

 LITURGIA DAS VÉSPERAS MARIANAS
 NO SANTUÁRIO NO MONTE DE SANTA ANA

HOMILIA DO SANTO PADRE

Esplanada do Santuário
Terça
-feira, 21 de Junho de 1983

 

1. Louvado seja Jesus Cristo!

Saúdo de coração todos os Peregrinos reunidos no Monte de Santa Ana.

Aqui chego seguindo o itinerário da minha peregrinação que está unida ao jubileu de Jasna Góra: há seis séculos veneramos Maria, como a nossa Mãe e Rainha, na Sua Efígie conhecida não só na Pátria, mas também universalmente, no mundo.

Durante a minha primeira visita pontifícia fui a Jasna Góra percorrendo o itinerário dos nossos Padroeiros mais antigos, Santo Adalberto e Santo Estanislau, itinerário que passava por Gniezno e Cracóvia.

As circunstâncias da peregrinação deste ano fizeram que eu fosse a Jasna Góra seguindo o itinerário dos nossos tempos, o itinerário do século vinte. Ele, através do martírio de São Maximiliano Maria Kolbe, que veneramos na sua terra natal, conduziu-me antes de tudo a Niepokalanow, no primeiro ano depois da canonização realizada em Roma. Este itinerário dos nossos tempos levou-me a Jasna Góra, partindo também do túmulo ainda recente do grande Primaz da Polónia Cardeal Stefan Wyszynski, que, na segunda metade do século em curso, recebeu do Padre Maximiliano o património mariano e o legou de maneira tão extraordinária a Jasna Góra.

2. Todavia, este itinerário dos tempos actuais — tão eloquente e emocionante — exige necessariamente um complemento. Deve-se retornar ao início daqueles seiscentos anos, que desde o ano passado e durante este ano nos reúne ao redor de Jasna Góra. E este início encontra-se precisamente aqui: na Silésia dos Piastas.

E por isso, hoje, o caminho do meu peregrinar passa por Wroclaw, onde venerámos Santa Hedviges, filha da nação alemã, e ao mesmo tempo grande mãe dos Piastas polacos, entre os séculos XII e XIII. E de Wroclaw vamos à localidade de Opole, para nos determos na terra daquele Piast, a cujo nome está ligada a fundação de Jasna Góra e a doação da Imagem de Jasna Góra, entre os anos de 1382-84.

Vemos Ladislau II, Príncipe de Opole, chamado comummente "Opolczyk", figura especialmente conhecida a partir dos tempos do reinado de Luís da Hungria, depois do qual — como se sabe — o trono polaco de Cracóvia foi herdado pela filha Hedviges. Ladislau, que pertencia também à família dos Piastas da Silésia terminou os dias da sua vida em Opole, —  e ali repousa na cripta da igreja dos franciscanos. Sobre o seu túmulo lemos a seguinte inscrição: "No ano do Jubileu dos seiscentos anos de Jasna Góra — ao seu Fundador, o Príncipe de Opole, Ladislau II".

Isto, porém, não encerra os vínculos directos da terra de Opole com a Imagem de Jasna Góra. Nos anos da invasão sueca, durante o "Dilúvio" em 1655, a Silésia de Opole circundou a Imagem milagrosa com a sua protecção e deu-lhe seguro refúgio em Pauliny, localidade que pertence à paróquia de Mochow, perto de Glogowek (cf. D. Franciszek Jop, Ao serviço da Palavra de Deus, p. 225).

Deste modo, a paragem de hoje na localidade de Opole inclui-se na peregrinação do Papa no jubileu de Jasna Góra.

Esta paragem é feita no Monte de Santa Ana, perto do qual está Kamien Slaski, lugar de nascimento de S. Jacek, do Beato Czeslaw e da Beata Bronislawa de Odrowaz — figuras que me são muito caras e estão ligadas a mim desde os primeiros anos da juventude. S. Jacek e a Beata Bronislawa estão sepultados em Cracóvia, e o Beato Czeslaw é o Padroeiro de Wroclaw.

3. Encontramo-nos, portanto, na terra que no passado foi, quase de modo particular, cravejada de sinais de santidade. A minha saudação dirige-se aos Pastores aqui presentes, da Igreja na Diocese de Opole e na Metrópole de Wroclaw. Permiti porém, veneráveis e caros Irmãos no Episcopado, que recorde em primeiro lugar aqueles que foram os Vossos imediatos Predecessores. É-me difícil, de facto, não reevocar — ao aproximar-se o jubileu de prata da minha consagração episcopal — aqueles que, a 28 de Setembro de 1958 na catedral real de Wawel, impuseram sobre a minha cabeça as suas mãos, transmitindo-me no sacramento do episcopado o Espírito Santo e a sucessão apostólica. Eram eles, juntamente com o Arcebispo Eugénio Baziak de venerada memória, metropolita de Leopoli, o Cardeal Boleslaw Kominek de venerada memória, a partir de 1972 metropolita de Wroclaw, e o Bispo Franciszek Jop de venerada memória, a partir de 1972 primeiro Bispo residencial da diocese de Opole.

Ao recordar os Falecidos — que há pouco nos deixaram — saúdo de coração e dou as boas-vindas aos vivos. Antes de tudo, ao Metropolita de Wroclaw, ao segundo Bispo de Opole, D. Alfons Nossol, que é autêntico filho desta terra. Saúdo também os três Bispos auxiliares de Opole: Waclaw, Antoni e Jan. De igual modo saúdo o Cabido e todo o Clero da Igreja de Opole e, com ele, as Famílias religiosas masculinas e femininas. Especiais sentimentos dirijo aos Padres Franciscanos, que desde há muitas gerações têm ao seu cuidado o santuário no Monte de Santa Ana, exercendo o serviço pastoral em favor de numerosos peregrinos.

Juntamente com os donos da casa, de coração saúdo todos os Visitantes eclesiásticos e leigos, vindos da Silésia e de diversas partes da Polónia, e sobretudo os representantes do Episcopado. Entre eles estão seis Cardeais: o Cardeal Volk, o Cardeal Krol, que esta manhã presidiu aqui à celebração, substituindo o Papa; o Cardeal Meisner, o Cardeal Casaroli e os nossos Cardeais polacos: o Cardeal Primaz e o Cardeal Metropolita de Cracóvia. Além destes, numerosos Bispos, meus amadíssimos Irmãos, vindos de fora da Polónia. Não posso deixar de saudar os representantes dos Ateneus católicos das diversas partes da Polónia. A presença deles é devida ao facto que os Ateneus amam muito o vosso Bispo. Amam-no, porque ele próprio é um eminente teólogo. Também ele os ama, mas sabe orientar-se de tal modo, que o amor pelos Ateneus e pela ciência não perturba o seu amor pela diocese de Opole, mas antes a desenvolve.

4. Encontramo-nos aqui, no Monte de Santa Ana, diante desta "plenitude dos tempos", como proclama São Paulo na Epístola aos Gálatas. Escutámos há pouco as palavras desta Epístola, como leitura das Vésperas: "... Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o Seu Filho, nascido de mulher..." (Gál. 4, 4),

No Monte de Santa Ana esta verdade central da história da salvação é posta em relevo de modo particular: A "Mulher, que deu à luz o Filho de Deus, encontra-se, juntamente com aquele Filho, nos braços da própria Mãe: Santa Ana. Isto está expresso na imagem de Santa Ana "Samotrzecia", que aqui, no principal santuário da Silésia e da localidade de Opole — apenas cem anos mais recente do que Jasna Góra — há séculos recebe veneração e é circundada de amor pelas várias gerações.

Este amor e esta veneração dirigem-se para o mistério da encarnação. Pelo Evangelho de São Mateus e de São Lucas, sabemos bem que o Filho de Deus, tornando-se homem por obra do Espírito Santo no seio da Virgem de Nazaré, tem ao mesmo tempo uma sua genealogia humana. As genealogias dos evangelistas enumeram em primeiro lugar os antepassados masculinos de Jesus Cristo. Mas na figura de Santa Ana "Samotrzecia" é posta em relevo antes de tudo a linha materna: a Mãe e a sua própria Mãe. O Filho de Deus faz-se homem porque Maria se tornou Sua Mãe. Ela mesma, porém, da própria mãe aprendeu a ser mãe.

O culto de Santa Ana, mediante a genealogia da maternidade, está inserido no mistério mesmo da encarnação. Está introduzido nesta "plenitude dos tempos", a qual se realiza quando "Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher".

5. E enviou-O... "para resgatar os que estavam sujeitos à Lei, para que recebêssemos a adopção de filhos" (ibid: v. 5).

Bem sabeis, caros Peregrinos, que a partir de 25 de Março deste ano, isto é, a partir da solenidade da Anunciação, que é contemporaneamente a festa litúrgica do mistério da Encarnação, teve início na Igreja inteira o extraordinário Jubileu do Ano da Redenção. Com efeito, como em 1933 a Igreja celebrou o Jubileu recordando os 1900 anos, transcorridos desde a Redenção do mundo, assim este ano recorda os 1950 anos transcorridos desde aquele Acontecimento salvífico.

Desta maneira, o nosso jubileu de Jasna Góra, celebrado na Polónia, ocorre, de certo modo, naquele jubileu universal da Igreja inteira. E o ponto de referência deste Jubileu da Redenção é precisamente aquela "plenitude dos tempos", quando "Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei...": a fim de quer Ele remisse do pecado o inteiro género humano — "para que recebêssemos a adopção de filhos".

Vós, que fazeis as peregrinações ao Monte de Santa Ana, meditai, este ano, com uma fé aprofundada, no mistério daquele "nascimento de mulher", o qual deu inicio à nossa Redenção. E procurai penetrar com uma particular esperança os inescrutáveis tesouros da Redenção, que a Igreja abre este Ano diante do inteiro Povo de Deus, a fim de que dele obtenha o perdão e a reconciliação. Empenhai-vos, pois, em obter o perdão dos pecados, e também a remissão das penas temporais, dado que é possível isto mediante uma adequada disposição interior. Procurai alcançar também a reconciliação: acima de tudo uma reconciliação cada vez mais profunda com Deus mesmo, em Jesus Cristo e por obra do Espírito Santo, e contemporaneamente a reconciliação com os homens, vizinhos e distantes — presentes nesta vida e ausentes. Esta terra, com efeito, tem sempre necessidade de uma reconciliação múltipla, como já disse hoje em Wroclaw, ao referir-me à obra de Santa Hedviges.

6. Com veneração recordamos no Monte de Santa Ana também aqueles que nesta terra não hesitaram, no seu tempo, em sacrificar a vida no campo de batalha, como testemunha o Monumento dos Insurgentes da Silésia, que aqui se encontra. O Monte de Santa Ana encerra na sua memória também estes. Contemporaneamente tem no coração mesmo do santuário a recordação de todos os que, de geração em geração, aqui vieram para "receber a adopção de filhos": a filiação divina. Para viver esta Vida divina que a preço do Sacrifício de Cristo se tornou um dom para todos os homens. Para construir, no terreno sobrenatural da Graça santificante, uma honesta e nobre vida humana: uma vida digna do cristão, tanto no lar doméstico, no lugar de trabalho agrícola ou industrial, como enfim em todas as dimensões sociais.

"A prova de que sois filhos, é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: 'Abbá! Pai!'" (ibid. v. 6).

Aqui, no Monte de Santa Ana, vieram e vêm inteiras gerações de peregrinos para aprender esta invocação. Para aprender a oração que em seguida penetra a vida humana, a penetra e a forma segundo Deus. E esta oração, unindo ao lado uns dos outros os pais e os filhos, os avós e os netos, cria ao mesmo tempo o mais profundo vínculo entre as gerações. Não sobreviveu porventura, neste século, o grande património divino e humano desde os tempos dos Piastas: desde os tempos de Santa Hedviges e de Ladislau de Opole, o Fundador de Jasna Góra?

7. A figura de Santa Ana "Samotrzecia" torna-nos presente que o Filho de Deus se fez homem por obra do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, através da genealogia das gerações humanas. Que esta Figura seja para vós, caros Irmãos e Irmãs, uma constante fonte de inspiração na vida quotidiana, na vida familiar e social. Transmiti uns aos outros, de geração em geração, juntamente com a oração, o inteiro património espiritual da vida cristã.

Como peregrino de hoje no Monte de Santa Ana, e também como primeiro Papa que a terra polaca deu, desejo confirmar este património e consolidá-lo. Ele aqui sobreviveu por tantas gerações. Que ainda continue. Que no raio da irradiação do Monte de Santa Ana se desenvolva tudo aquilo que teve o seu início na Redenção operada por Jesus Cristo, Filho de Maria; aquilo que nas nossas almas é inserido pelo Sacramento do Baptismo e é confirmado pela Crisma; aquilo que se renova constantemente mediante a Penitência e encontra a plenitude sacramental na Eucaristia.

Em recordação da minha presença nesta terra, desejo também coroar a venerada, imagem da Mãe de Deus da catedral de Opole.

Filhos e Filhas desta terra!

Não cesseis de viver esta fé, segundo a qual Deus enviou o Seu Filho nascido de mulher... a fim de que pudéssemos receber a adopção de filhos, a filiação divina!

Filhos e Filhas desta terra!

Não cesseis de permanecer na filiação divina, que de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado recebemos por obra do Espírito Santo!

Filhos e Filhas desta terra!

Não cesseis nunca de clamar — na língua que foi a dos vossos antepassados —, não cesseis nunca de clamar a Deus: "Abbá! Pai!".

 



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